O Novo Poder: como a participação colaborativa está desafiando os poderes tradicionais

Existe um Novo Poder, emergindo das franjas do mundo interconectado, no qual as pessoas criam, compartilham e recriam constantemente suas próprias formas de interação social, de uma maneira horizontal e fluida. Frente a isso, o “Velho Poder”, centralizado, controlado por poucos, com baixo nível de transparência tenta reagir e entender o que está acontecendo “sob suas barbas”.

O Brexit (saída da Grã-Bretanha da União Europeia), a eleição do Trump e o próprio processo eleitoral brasileiro neste momento são algumas mostras de como as novas formas de organização e a mobilização distribuída (sobre a qual já falei, aqui, no Conexão Planeta) põem em cheque os sistemas representativos tradicionais.

Este fenômeno foi mapeado pelos autores Jeremy Heimans e Henry Timms e descrito em seu livro O Novo Poder – Como disseminar ideias, engajar pessoas e estar sempre um passo a frente em um mundo hiperconectado, cuja versão brasileira foi lançada recentemente na abertura do Festival Social Good Brasil.

Jeremy e Henry deixam claro que as estruturas e o ethos do Velho Poder, caracterizado pela posse e pelo controle de informação e recursos, e do Novo Poder, no qual posse e controle são compartilhados exponencialmente entre as pessoas em rede, não são necessariamente excludentes, mas estão em permanente tensão.

A partir desta constatação, os autores escrevem uma espécie de manual de como lidar com este Novo Poder e usar todo o seu potencial criativo e mobilizador para o bem da comunidade (conscientes de que este potencial pode ser – e é muitas vezes – usado para o mal). Eles citam exemplos como o #Metoo, movimento que nasceu e se consolidou em rede desafiando frontalmente estruturas de poder consolidadas, como a do ex-todo-poderoso produtor Harvey Weinstein (o Conexão falou do assunto).

Do outro lado do espectro, surge o exemplo da estudante Aqsa Mahmood, criada em uma família de muçulmanos moderados na Escócia, que se tornou uma das principais recrutadoras para o Estado Islâmico. Ela usava das ferramentas de engajamento online de uma forma inteligente e distribuída, incentivando e dando conselhos práticos a outras mulheres que aspiravam se tornar jihadistas.

É possível perceber que o Velho e o Novo Poder têm valores bem específicos. O primeiro se baseia em processos formais e hierarquizados de governança, preza a competição e a exclusividade, valoriza a confidencialidade e a especialização e busca uma lealdade de longo prazo. Já o segundo tem sua base em processos de governança distribuída (em rede), valoriza a colaboração e o compartilhamento, preza formas radicais de transparência e se satisfaz com afiliações de curto prazo, mas mais abrangentes.

Mas ter “valores do Novo Poder” não necessariamente significa estar preparado ou disposto a exercê-lo.

Jeremy e Henry fazem, então, um exercício no qual analisam instituições e empresas pelo modelo de poder que preconizam versus os valores que pregam. O resultado é uma matriz ao qual dão o nome de Bússola do Novo Poder (abaixo).

No extremo mais positivo da matriz encontramos o quadrante dos Públicos, no qual Modelo e Valores do Novo Poder estão em concordância. Ou seja, são organizações altamente descentralizadas e que oferecem enorme flexibilidade de interação com a comunidade. Como exemplo, teríamos #BlackLivesMatter, a Wikipedia e o AirBNB.

Do outro lado, está o quadrante dos Castelos, onde se localizam empresas e organizações mais clássicas: órgãos de governos, maioria das empresas, universidades etc. Surpreendentemente para alguns, a Apple, máximo símbolo de inovação, está, para os autores, neste espaço, acompanhada da United Way, Prêmio Nobel e Receita Federal.

Entre estes dois extremos, encontramos o quadrante dos Cooptadores, considerado pelos autores particularmente perigoso porque é onde estão empresas e organizações que usam modelos do Novo Poder, mas, na realidade, seus valores fundamentais estão enraizados nas formas de poder tradicional. Neste grupo estariam, por exemplo o Uber, o Facebook e o Estado Islâmico.

Finalmente, temos o quadrante de transição, chamado de Animadores de Torcida, onde estão os que têm valores do Novo Poder, mais ainda se estruturam segundo modelos tradicionais. Os autores citam como exemplo a empresa de roupas esportivas Patagonia, a Unilever e o jornal The Guardian, que tem todo um apelo pela participação direta dos leitores.

Mas, então, como fazer uma ideia se espalhar pelo mundo do Novo Poder?

Os autores recorrem ao Desafio do Balde de Gelo para demonstrar como, no mundo do Novo Poder, ou seja, da colaboração distribuída, as ideias se propagam de uma forma totalmente diferente da que uma grande parte dos que tem acima de 35 anos está acostumada.

Para quem não lembra, o desafio mobilizou o mundo quatro anos atrás e consistia na proposta de uma pessoa jogar sobre si um balde de agua gelada e desafiar três outras pessoas a fazerem o mesmo doando uma quantia para ALS Association, organização que atua para erradicar a esclerose lateral amiotrófica (conhecida em português por ELA). Quem não aceitasse o desafio deveria doar US$ 100. O fato é que a viralização foi tão intensa, que a ALS Association arrecadou 115 milhões de dólares durante o verão. Em apenas três meses, mais de 17 milhões de vídeos foram feitos.

O interessante disso tudo é que a ALS Association não criou o desafio. Não chegou nem perto de ser uma estratégia de captação de recursos deles. O processo todo nasceu, cresceu, se transformou e morreu independente de qualquer intervenção organizada.

Nos tempos do Velho Poder, um slogan esperto repetido por alguma celebridade e espalhado em propaganda na TV, rádio e jornais seria o suficiente para convencer muitas pessoas a consumir uma ideia. Na era do Novo Poder, isto já não é suficiente. É preciso complementar ou, na grande maioria dos casos, substituir por “meme drops“. Ou seja, imagens, frases, qualquer tipo de mídia que possa ser espalhada horizontalmente e modificada e adaptada exponencialmente pelas pessoas, com total liberdade.

Jeremy e Henry tentam entender como uma ideia pode se espalhar neste contexto tão líquido e difuso. Eles, então, propõem que as ideias para se espalharem no mundo do Novo Poder têm de ter três atributos principais:
Ser acionáveis,ou seja, chamarem a uma ação, estimularem a uma atividade concreta, que vá além de admirar, lembrar, consumir;
Estar conectadas, promovendo uma conexão entre iguais, com pessoas com quem temos afinidade ou com quem compartilhamos valores;
Ser extensíveis,podendo ser customizadas, transformadas, adaptadas, editadas por cada pessoa a partir de um tronco comum.

No Novo Poder são as pessoas que espalham as ideias

Com isto em mente, o próximo passo é encontrar o público certo. E este público não é “todo mundo”, mas sim o que os autores chamam de conectores conectados: aquelas pessoas que estão filosoficamente ligadas a uma causa e que são, ao mesmo tempo, socialmente conectadas. Em outras palavras, são capazes de influir em seus domínios, sejam eles quais forem.

Os conectores conectados ajudam a espalhar as ideias para suas próprias redes. E cada rede tem seus próprios conectores, que levam a mensagem mais adiante, em um processo contínuo. Para isso, é fundamental facilitar a participação.

São os conectores conectados que ajudam um movimento a se expandir de forma orgânica e horizontal. Mas, para que a ideia se expanda de verdade. é preciso que as barreiras de participação sejam baixas e simples.

Como dizem Jeremy e Henry:

“Num mundo inundado de experiências que disputam nossa participação, alcançar uma “ausência de atrito” – remover barreiras à ação e ao engajamento – tornou-se a arte necessária para alguém que está tentando construir um público”.

E barreiras simples começam, por exemplo, com a chamada para as pessoas compartilharem um conteúdo ou ideias para suas próprias redes ou assinar uma petição, que já representa um nível maior de engajamento.

O segredo é oferecer um cardápio de possibilidades de participação que vão das mais simples até as mais complexas, cada qual voltada para pessoas que, por sua vez, têm diferentes níveis de desejos e capacidades de participar.

Para a grande maioria, compartilhar um vídeo ou meme no seu grupo de WhatsApp é o máximo que estão interessadas ou dispostas a fazer. Para algumas outras, apoiar financeiramente ou atuar como voluntário está ok. O conjunto da participação é que dá a força do movimento no contexto do Novo Poder.

Que venham as tempestades!

Finalmente, os autores lembram que é fundamental estar preparados para aceitar as “três tempestades”, ou seja, quando surgem as oportunidades de gerar mobilização em larga escala.

Para isso, segundo eles, podemos:
Criar tempestades, atuando para ampliar uma mobilização que já existe, transformando-a em uma “história de impacto icônica”;
Perseguir tempestades, aproveitando oportunidades que surgem e criando uma narrativa ao redor delas de forma a gerar mobilização;
Aceitar tempestades, o que significa deixar-se levar por uma oportunidade positiva ou, até mesmo, uma derrota em alguma mobilização e extrair uma limonada do limão que tiver nas mãos.

O livro de Jeremy Heimans e Henry Timms é, como falei, muito interessante e traz muitos insights. Para não deixar este texto interminável, paro por aqui. Mas prometo voltar com um resumo da segunda parte.

Em todo caso, a mensagem que fica é a de que o Novo Poder veio para ficar e sua extensão e seus impactos estamos apenas começando a compreender.

Foto: Nicholas Kampouris/Unsplash

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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