O movimento anti-vacinação está ajudando a matar pessoas!

Na timeline do meu Facebook surgiu uma discussão muito interessante sobre o impacto do movimento anti-vacinação na saúde pública, com o ressurgimento de doenças que já estavam sob controle, como o sarampo e, até mesmo, a poliomielite. A maioria dos comentários mostrava indignação. Mas surgiram alguns defendendo esse movimento veementemente, como médicos ou mães e pais de crianças que teriam sofrido consequências físicas por conta da vacinação.

No geral, o argumento destas pessoas era de que, por trás das campanhas de vacinação, haveria um conluio entre grandes laboratórios e políticos mais interessados em ganhar dinheiro com contratos de compra de vacinas.

Outro elemento apontado era de que a vacinação mascararia o principal problema: as pessoas voltarem a ter uma relação mais saudável com a natureza, em vez de ficarem se injetando produtos manipulados quimicamente, alguns dos quais usariam, inclusive, metais pesados em sua composição.

No curso que coordeno sobre estratégias de mobilização e engajamento, o Mobilize, sempre faço um exercício no qual convido os grupos de participantes a desenvolver a teoria de mudança do movimento anti-vacina. Para quem não está familiarizado, a teoria de mudança procura identificar qual é o elemento central de qualquer mobilização. Ou seja, qual é o problema principal, a solução proposta e como ficará o mundo uma vez que consigamos resolver o problema.

Sempre me surpreende que os grupos que desenvolvem a teoria de mudança do movimento anti-vacinação produzem trabalhos muito bons e convincentes, mesmo aqueles que não acreditam na causa.

Isto talvez se deva ao fato de que este movimento, muitas vezes, se utiliza de um conjunto de argumentos científicos, ou com aparência de científicos, mesclados com o senso comum, que muitos de nós temos, de que algo vai muito errado no sistema de saúde e no papel dos grandes laboratórios. E, também, de que há algo de muito errado na nossa relação com a natureza e com nossos próprios corpos.

Junta-se tudo isso e está criado o caldo de cultura que está levando muitas pessoas a colocarem seus filhos e netos em perigo e, mais do que isso, trazendo riscos desnecessários para toda a comunidade.

Do meu ponto de vista, aqueles que defendem a não vacinação e que convencem outras pessoas a não vacinarem deveriam ser responsabilizados criminalmente.

Não se trata mais de uma questão de direito a ter opinião sobre o que quer que seja. Acredito que qualquer pessoa pode realmente acreditar que a vacina faz mais mal do que bem. Mas, então, que guarde esta crença para si mesmo e não tente impor esta visão sobre pessoas que não podem contra-argumentar, como crianças e bebês.

Vacinação é sobre indivíduos e comunidade

Um elemento importante sobre o sistema de vacinação, que muita gente desconhece, é que, para ser efetivo, é necessário que um percentual mínimo da população esteja vacinado contra determinada doença. É o que se chama de “cobertura vacinal”. Por exemplo, no caso da poliomielite, para que a doença não volte, é necessário que continuamente 95% da população esteja vacinada.

Mas, segundo notícias recentes, em mais de 300 cidades do Brasil menos da metade da população local se vacinou contra a pólio, abrindo espaço para o ressurgimento da doença, da qual não se ouvia falar desde 2005. Esta baixa na vacinação não se pode atribuir exclusivamente ao movimento anti-vacinas, mas ainda assim a recusa consciente a vacinar as crianças tem seu papel, deixando toda a comunidade em risco.

Portanto, a decisão de vacinar, ou não, um filho ou neto não afeta apenas a própria família, mas todos ao seu redor. É o que vemos exatamente agora, na Europa, com o ressurgimento do sarampo, uma doença que já estava controlada no Velho Continente há mais de 60 anos.

Há pessoas no movimento anti-vacina que dizem que é bom as crianças pegarem certas doenças na infância para, com isso, se “auto-imunizarem”. Não precisa ser cientista para ter clareza de que isso simplesmente não faz sentido. Se fosse assim, o índice de mortes por infecções virais na Antiguidade seria muito pequeno, o que nunca foi o caso, como mostram os altos índices de mortalidade infantil que eram o normal antigamente.

Esta reportagem do site Nexo é bastante esclarecedora: Vacina, as origens, a importância e os novos debates sobre seu uso. O artigo 8 Common Arguments Against Vaccines ajuda a entender e combater cada ponto do movimento anti-vacinação. Recomendo a leitura. Infelizmente está em inglês, mas nada que o Google Translate não resolva, passando para o português. A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para os riscos desse movimento neste outro texto: Os perigos do movimento anti-vacinas.

O que fazer?

E agora? Como combater o movimento anti-vacinação? Honestamente, eu não sei. Tenho a impressão de que as pessoas querem acreditar nisso. É, talvez, uma forma de protestar contra aquilo que percebem como sendo problema do sistema de saúde. Pode ser, também, uma forma de protestar sobre a forma como a humanidade está lidando com a natureza e com nossos corpos.

Mas, acredito que cabe a cada um de nós, primeiramente, não se deixar levar pelos argumentos do movimento anti-vacinação, sem fazer uma pesquisa e escutar os contra-argumentos de cientistas, pediatras e gestores públicos que lidam com a área da saúde.

Também devemos ser ativos e não espalhar histórias – muitas das quais não passam de fake news, que circulam nas redes e em grupos no Whatsapp -, sem antes verificar se são realmente verdadeiras.

Por exemplo, um dos principais elementos usados pelo movimento anti-vacinação é um artigo do gastroenterologista inglês Andrew Wakefield, publicado em 1998 na prestigiosa revista científica Lancet, associando a vacina tríplice (contra a caxumba, rubéola e sarampo) a maiores riscos de a criança ter autismo. Acusado de fraude, ele perdeu sua licença médica. A revista teve de se desculpar publicamente por ter publicado o texto sem as devidas precauções, mas o estrago estava feito e o artigo segue sendo referenciado em todo o mundo.

O ideal seria converter toda esta energia anti-vacinação para melhorar o sistema de saúde, em geral. Seria uma forma muito mais inteligente de salvaguardar o interesse pessoal e o interesse público.

Foto: Divulgação/Ministério da Saúde

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Um comentário em “O movimento anti-vacinação está ajudando a matar pessoas!

  • 9 de julho de 2018 em 5:17 PM
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    Muito bom, Renato Guimarães. Pauta de utilidade pública. Parabéns ao Conexão por acolher e tratar de modo tão profissional este tema relevante e urgente.

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