O mergulho emocionante de uma ambientalista com seu filho na Grande Barreira de Corais

O mergulho emocionante de uma ambientalista com seu filho na Grande Barreira de Corais

Naomi Klein fez seus primeiros mergulhos aos 6 anos. Seu pai era apaixonado pelo mar. Ela teve o privilégio de mergulhar e ver de perto a riqueza da vida marinha, em lugares tão distintos como a costa da Califórnia e a Grécia. “Há outra experiência que coloca o ser humano em contato tão direto com uma quantidade tão grande de criaturas selvagens?”, pergunta.

A ativista e jornalista canadense é uma das mais fortes e veementes vozes da atualidade na questão do aquecimento global. Nos últimos oito anos, além de dar palestras, produzir documentários e artigos para algumas das principais publicações mundiais, Naomi escreveu diversos livros, entre eles, duas obras sobre as mudanças climáticas: A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo do Desastre, lançado em 2007 – traduzido para mais de 30 línguas -, e This Changes Everything: Capitalism vs the Climate (Isto Muda Tudo: Capitalismo Versus Clima, ainda não traduzido no Brasil), publicado em 2015, e premiado com o Hilary Weston Writers’ Trust Prize for Nonfiction.

Naomi tem um filho de apenas 4 anos. O pequeno Toma aprendeu a nadar há pouco tempo. A mãe famosa nunca quis expor o filho na mídia. Entretanto, o jornal The Guardian convidou a jornalista a fazer um pequeno documentário, ao lado de Toma, mostrando o impacto das mudanças climáticas na Grande Barreira de Corais, já que ela estaria no país para receber o Sydney Peace Prize, uma espécie de Nobel da Paz, concendido pelo governo australiano, em reconhecimento a seu trabalho  na luta pelas mudanças climáticas.

A princípio, a ativista negou o convite. Mas após pensar mais a respeito, aceitou. “Talvez esta fosse a chance de abordar aspectos da crise climática que relatórios científicos e argumentos políticos simplesmente não podem transmitir. Talvez pudesse comunicar, de maneira visceral, o roubo intergeracional que acontece no centro desta crise”, conta.

Naomi se pergunta se quando Toma for mais velho e tiver capacidade para realmente mergulhar, o que ainda haverá nos oceanos para ele ver. Segundo dados do WWF International, desde os anos 70, o número de animais selvagens vivendo no planeta caiu pela metade. E até 2020, deve diminuir outros 35%. “Que mundo solitário estamos criando para nossos filhos? E que lugar mais simbólico para ilustrar isso do que nos corais da Austrália?”.

Naomi e Toma foram acompanhados da equipe do Great Barrier Reef Legacy Project, entidade não governamental que trabalha na região. Antes do mergulho, a ativista explicou ao filho que eles veriam corais que estavam saudáveis e outros não, como se estivessem “com febre”. Mesmo assim, Naomi queria propiciar esta experiência ao filho. “Não queria amendrontá-lo, de forma alguma. Eu queria somente que ele tivesse a chance de ter essa conexão com algo tão lindo como os corais. Algo que ele poderá levar com ele por toda vida, a medida que viverá num planeta mais quente e difícil, diferente daquele em que eu cresci”, confessa.

Apesar do governo australiano negar o impacto das mudanças climáticas sobre a Grande Barreira de Corais, diversas organizações comprovaram que grande parte dele foi afetada e muitos corais morreram recentemente. Os corais estavam sendo protegidos da poluição local, mas não foi possível preservá-los do aumento da alta temperatura dos oceanos. Uma elevação de apenas 1oC ou 2oC é fatal para a sobrevivência dos recifes.

A onda de branqueamento de corais atingiu também as Ilhas Maldívias, em junho. Ela foi provocada pelas anormais temperaturas registradas na região, uma consequência do aquecimento da superfície da Terra, já que 93% do calor que fica preso na superfície do planeta é absorvido pelos oceanos.

Naomi afirma que, muitas vezes, os efeitos do aquecimento global ficam despercebidos diante de guerras, crises humanitárias, pobreza, racismo.  E são lentos, por isso mesmo, os céticos do clima insistem em afirmar que não são reais. Mas o que está acontecendo com a vida marinha da Austrália é bem real.

“As mudanças climáticas já estão aqui e as crianças estão na linha de frente delas. Para os pequenos habitantes do Haiti, que tiveram suas casas destruídas por furacões e tempestades. Para os bebês que nasceram com problemas cerebrais, do Rio até Miami, porque o tempo mais quente favorece a sobrevivência dos mosquitos que carregam o Zika vírus”.

Mesmo que muitos ainda se maravilhem com a beleza da Grande Barreira de Corais, houve bastante mudanças. Há 40 anos, o volume de peixes era 80% maior e os corais eram mais vibrantes.

“Há vergonha em tudo isso. Como pais, recebemos a mais importante obrigação de todas: proteger e garantir o futuro de nosso filhos. E nós estamos fracassando. Não só os pais, mas todos nós”, lamenta Naomi. “Quando olho para aquilo que, talvez meu filho nunca verá do nosso patrimônio natural coletivo, não é só perda e sofrimento que sinto, mas raiva. Raiva de empresas que continuam explorando os combustíveis fósseis e já sabiam sobre as mudanças climáticas na década de 70, e impediram o crescimento das energias renováveis, continuando poluindo a atmosfera com carbono.  Raiva de governos que deram seu dinheiro para que a exploração do setor continuasse e, que, ainda estão fazendo isso hoje! Estamos todos loucos?”

O vídeo, que você assiste abaixo, é simplesmente emocionante. Chamado the Under the Surface (Abaixo da Superfície, em tradução livre), foi escrito por Naomi Klein.

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Foto: reprodução vídeo Youtube

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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