O melhor baterista da Terra, ameaçado de extinção

Ao longo da breve história da humanidade, todas as civilizações apresentaram uma mesma e curiosa característica em comum: a capacidade de compor músicas não apenas por melodias mas, principalmente por batidas rítmicas, regulares, exatamente como um solo de bateria ou o ritmo de um pandeiro.

Segundo estudo publicado por Patrick Savage, pesquisador do Departamento de Biologia Cognitiva de Viena, em seu artigo Statistical universals reveal the structures and functions of human music, a música sempre esteve fortemente presente em todas as sociedades, desde o início dos tempos.

Na verdade, já em 1871, o genial naturalista inglês Charles Darwin propôs, em seu livro The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex (em português, A Origem do Homem e a Seleção Sexual), que este tipo de compasso rítmico exibido pelos humanos nada mais seria que um reflexo ancestral de funções especificas do nosso cérebro. Este era tão ancestral que, muito possivelmente, seria compartilhado até mesmo por outras espécies que evoluíram a partir de um mesmo ancestral comum ao nosso.

Mas, que ancestral? Não existia na literatura científica internacional nenhum registro de qualquer outra espécie capaz de compor batidas rítmicas dignas do Carnaval da Bahia, muitos menos capazes de construir instrumentos de percussão que impulsionassem o desenvolvimento de sequências rítmicas próprias.

Mas o artigo Tool-assisted rhythmic drumming in palm cockatoos shares key elements of human instrumental music, publicado na revista Science Advances, pelo pesquisador Rob Heinsohn da Universidade Nacional da Austrália, demonstrou a primeira evidência de uma espécie que cria seus próprios instrumentos e leva a percussão animal a um outro nível (assista ao vídeo abaixo).

Após sete longos anos de estudo nas florestas da Austrália, a equipe do Dr. Heinsohn comprovou que as Cacatuas-das-palmeiras (Probosciger aterrimus) produzem verdadeiras sequências rítmicas com propriedades musicais específicas.

Machos de Cacatuas constroem instrumentos com pequenos galhos, moldando-os com seus bicos em formas semelhantes a baquetas de bateria. Em seguida, escolhem troncos ocos com propriedades acústicas especiais, onde se posicionam e batem suas baquetas com intervalos rítmicos perfeitos, durante um longo espaço de tempo.

Mas não é só isso!! O estudo revela que as 18 aves observadas livres na natureza apresentaram sequências rítmicas com estilos únicos, ou seja, cada uma delas foi suficientemente habilidosa para compor sua própria música.

Enquanto algumas aves optam por um estilo mais arrojado, com batidas rápidas e fortes, outras preferem um estilo mais suave, com batidas mais lentas e sutis.

Com mais um detalhe: o incrível solo de bateria das Cacatuas-das-palmeiras é parte integral de seu comportamento reprodutivo. E é justamente através de seu desempenho durante a performance musical que os machos são escolhidos pelas fêmeas.

Ainda segundo Rob Heinsohn, autor da descoberta, este artigo é apenas um dos registros de muitas pesquisas que estão sendo realizadas em torno do Plano de Ação para a Conservação da Cacatua-das-palmeiras. A espécie está em risco de extinção e já está incluída na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação (IUCN), devido a destruição de seu habitat por danos causados pela mineração.

Quer entender um pouco mais? Assista ao vídeo abaixo (em inglês).

Foto e Vídeos: Sandro Von Matter e Divulgação

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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