O estupro como arma de guerra


A prática do estupro é muito antiga: surge muito antes dos processos de colonização. Diz a lenda que a história de Roma, por exemplo, é marcada pelo episódio denominado O Rapto das Sabinas (imagem que ilustra este post), em que Rômulo, o então governante do império, determinou o rapto de mulheres sabinas para servirem de esposas aos homens que chegavam para ocupar aquelas terras. Por óbvio, seguido ao rapto veio o estupro, como um instrumento viável e determinante de poder e do povoamento da região.

Eu e o Felipe escrevemos sobre este tema recentemente, aqui no blog: A guerra, o estupro e o machismo.

Em O Livro Negro da Condição das Mulheres, Véronique Nahoum-Grappe o define, antropologicamente, como sendo “uma tentativa de invadir o espaço  histórico do outro, enxertando na árvore genealógica o filho do inimigo “étnico” (…). O estupro é o meio mais imaginariamente pertinente da purificação étnica”.

Com a finalidade de julgar os crimes de guerra cometidos ao longo do período de combate nos Balcãs, em 1993 foi instalado o Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia. Entre os temas debatidos, foi a primeira vez que crimes como o estupro e a escravização sexual foram julgados e elevados à condição de crimes contra a humanidade.

Dois anos depois, em 1995, foi instalado o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, em razão do genocídio que matou mais de 800 mil pessoas em cerca de 100 dias. Da população sobrevivente, mais de 70% eram mulheres e os relatos e depoimentos colhidos ao longo das investigações comprovaram a prática cruel e sistemática do estupro, que passou a ser classificado também como arma de guerra.

Desde então, a comunidade internacional tem investido bastante atenção nesse tema, além de criar e apoiar iniciativas que promovam a educação básica em direitos humanos e ajuda humanitária em regiões com maior predisposição para sofrer desse mal.

Ainda assim, o estupro sistêmico continua a ser praticado em larga escala, com destaque para países como Nigéria, República Democrática do Congo, Sudão do Sul e, mais recentemente, a Síria.

Entre as atrocidades diárias que têm ocorrido nas cidades sírias, como Aleppo, uma das mais assustadoras é a informação de que mulheres estão cometendo suicídio para evitar o risco de serem estupradas pelas tropas do Estado Islâmico. No mesmo sentido, foram noticiados posts em redes sociais, em que homens perguntam se lhes seria permitido matar suas esposas, filhas ou irmãs antes que elas fossem capturadas e estupradas pelas milícias.

O estupro, por si só, é a instrumentalização da crença em um único poder soberano que, invariavelmente, recai sobre a figura do homem. A mulher é invisível e desumanizada.

Quando aplicado na condição sistemática, enquanto arma de guerra, é possível perceber que a desigualdade de forças se acentua ainda mais. Tropas militarizadas contra civis desarmados, que se encarregam de torturar, humilhar e estuprar as mulheres com a violência e a crueldade que somente a irracionalidade e a ausência completa de empatia permitiriam.

Já dizia o saudoso Dom Paulo Evaristo Arns: “Quem repete a tortura quatro ou mais vezes se bestializa”, se desumaniza e ainda investe em desumanizar o outro.

Daqui e dali, a gente observa, engole seco e faz o possível para articular o fim dessa guerra. Especialmente a que recai sobre nós, mulheres.

Para reforçar a ajuda humanitária à população síria, você pode fazer doações através das seguintes organizações:
Save the Children
Médicos sem Fronteiras
World Vision
Care

Leia também:
A guerra, o estupro e o machismo
Estupro coletivo: até quando as mulheres serão subjugadas 

Quantos preconceitos uma mulher precisa superar ao longo da vida?

 

Imagem: O Rapto das Sabinas no quadro de Pietro de Cortona (Capitoline Museum)

Gabriele Garcia

Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

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