O encontro da acelga com quinoa e macadâmia num colóquio sobre o voo do avião

acelga

Já tinha mais de 20 anos quando entrei num avião pela primeira vez. Destino: Bahia. Com a bênção dos orixás. Depois, muitos outros voos vieram. Alguns memoráveis, outros afetivos, um tanto de outros profissionais.

Dos memoráveis, afetivos e profissionais, lembro muito, por exemplo, de quando viajei em família para Itália, Grécia e Turquia. Da Itália para Grécia, avião e tripulação gregos. Meu filho, então, com 4 anos, ainda em fase de alfabetização, pegou um panfleto na poltrona, olhou os escritos obviamente gregos com muita atenção, me entregou e disse:

– Mãe, lê pra mim, que eu não tô entendendo nada…

Outra vez, recentemente, ganhamos um upgrade no trajeto até Doha. Melhor surpresa não há, porque é longe essa Doha… Só que toda vez que eu quase dormia na poltrona que era quase cama, meu filho, então, com 11 anos, apertava algum botão pra levantar ora minha perna, ora minha cabeça. Quem nunca comeu melado…

E a trabalho, já viajei com equipe e ri às gargalhadas. Todos ríamos. Acho que éramos as pessoas mais felizes do trajeto. Que delícia de lembrança. De outra feita, ponte aérea Rio-São Paulo, depois de uma reunião. Estava só. Sentei-me ao lado de um senhor magro, muito educado. Conversamos o voo inteiro. Deu até tempo de contar um causo mineiro. No final do voo, me entregou o cartão e eu, desavisada, agradeci aos céus por não ter tocado no assunto de política econômica ou me lamentado das agruras do país. Distraída, viajei e estiquei conversa com Pérsio Arida, sem reconhecer o cidadão (pra quem não sabe, ele é economista e ex-presidente do Banco Central).

E teve aperto. Não gosto de turbulência, apesar de saber que turbulência não derruba avião. Num pouso em Joinville, o avião arremeteu duas vezes. Foi parar onde conseguiu pousar, em Florianópolis. Perdemos o evento…

Nada disso teria acontecido na minha vida se o avião não se mantivesse no ar, certo? E por que o avião mantêm-se no ar? Por causa do Princípio de Bernouilli, a força de sustentação, uma lei da física que define que quando a velocidade da passagem do ar por uma superfície aumenta, a pressão diminui. Na asa do avião, o ar passa mais devagar por baixo e mais rápido por cima. Asas são desenhadas para empurrar o avião para cima. Parece a coisa mais simples do mundo. Já parou para pensar nisso?

Quando voamos não é milagre; é o ar que nos mantém suspensos… O ar! Tá, vamos ser exatos, é a diferença de pressão do ar. Você até já pode saber como o avião se mantém com aquele peso todo nas alturas. Mas, fala a verdade se não é intrigante e sensacional! Confesso que não paro para pensar. Entro e saio do avião sem essa lembrança e agradeço a Santos Dumont pela criação, à lei da física pela possibilidade e a Deus e a Nossa Senhora que nos cobre com o manto azul e nos conduz pela viagem. Graças à santa força de sustentação. Amém.

Por que eu estou contando isso e o que é que tudo isso tem a ver com acelga, quinoa e macadâmia? Porque essa prosa científica dominou parte do almoço em família em que servi a receita.

No fim de semana, todo mundo veio almoçar aqui em casa, em terra firme. Como confirmaram em cima da hora, tive que fazer um almoço em cima da hora. Uns segundos debruçada sobre o fogão para pensar num cardápio com o que tivesse por ali, na geladeira e na despensa. Grãos eu tinha: grão de bico, lentilha e trigo. Também tenho óleo de gergelim. Pista para um almoço árabe.

Grão de bico demolhando, trigo para quibe hidratando. Tem quinoa também, que foge ao cardápio árabe, mas decidi que seria cozida. Corri até o supermercado, comprei carne moída e pão sírio. Voltei e fiz arroz com lentilha, massa para quibe – um tanto seria servido cru, um tanto assado -, preparei o homus tahine.

E a quinoa? Cozinhei, misturei com macadâmia, hortelã, parmesão e temperos. Se os grãos esperavam ser cozidos, a acelga já tinha sido branqueada durante a semana e esperava também um uso. Juntos renderam envelopinhos recheados, que substituíram muito bem o clássico charutinho de arroz e carne moída.

Almoço na mesa, a conversa fluiu com meu marido – que além de tudo é piloto – desenhando e explicando tim tim por tim tim para filhos, amigos e nora atentos o princípio do voo. De Bernouilli, vou me lembrar em cada embarque. Já a receita, minha modestíssima criação culinária, anotei pra não esquecer e refazer em outro encontro com outras questões físicas ou metafísicas.

ACELGA COM QUINOA E MACADÂMIA

INGREDIENTES

12 folhas de acelga branqueadas

Recheio

1/2 xícara de quinoa
1 xícara de água
grãos de macadâmia tostados rapidamente
queijo parmesão ralado
hortelã a gosto (salsinha é opção)
azeite

Molho

4 xícaras de caldo de frango
2 colheres de manteiga
limão
sal e pimenta do reino a gosto

MODO DE PREPARO

Acelga
Comece branqueando a acelga. O branqueamento é uma técnica fácil e rápida para conservar legumes e folhas. Nesse caso, amacia a folha da acelga para ficar fácil de ser dobrada, enrolada. Corte o maço de acelga de modo a privilegiar o uso das folhas nesta receita, reservando o caule para outros preparos.
Leve uma panela ao fogo com água suficiente para mergulhar as folhas. Assim que ferver, coloque a acelga. Ao levantar a fervura novamente, retire as folhas e jogue imediatamente numa vasilha com água gelada. Aguarde alguns segundos, retire e escorra bem. Reserve a acelga branqueada.

Quinoa
Lave meia xícara de quinoa em água corrente. Em seguida, cozinhe a porção em uma xícara de água. Você pode acrescentar uma pitada de sal no cozimento. Vai estar pronta quando a água secar. Vigie.

Macadâmia
Leve as nozes de macadâmia ao fogo numa frigideira e apenas toste-os levemente. Em seguida, pique grosseiramente.

Molho
Leve o caldo de frango ao fogo e reduza até chegar a um terço da quantidade. Acrescente manteiga, gotinhas de limão – para dar uma acidez sutil – e emulsione, ou seja, bata com um fouet ou garfo. Uma pitadinha de sal, de leve, para acentuar o sabor. Reserve.

Numa tigela, misture quinoa cozida, macadâmia picada, hortelã picado, pimenta do reino moída na hora e queijo parmesão ou grana padano ralado na hora. Regue com um fio de azeite e prove. Só acrescente sal se precisar. Você já usou sal no cozimento da quinoa e o queijo também é salgado. Avalie a necessidade.

Abra cada folha de acelga sobre uma tábua, pegue uma porção do recheio, coloque no meio da folha e dobre, juntando as pontas com firmeza, como se fosse um envelope. Repita o procedimento um a um. Na hora de servir, coloque o molho no prato, disponha os envelopinhos de acelga. Enfeite com folhas de hortelã.

Bom voo. Bom apetite!

(Dica: você pode acrescentar damasco na receita, se quiser, com moderação. Eu não usei, mas se você preferir vai ter uma camada a mais de sabor que, claro, vai dar um toque adocicado. Se usar, hidrate antes, deixando de molho por alguns minutos e pique miudinho.)

Foto: anneinchicago/creative commons/flickr

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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