O efeito Greta

O cientista Antonio Nobre escreve todos os dias em seu perfil no Facebook. Indica fontes interessantes, faz relatos emocionados e indignados. Em 4 de fevereiro, escreveu o pequeno texto que publicamos abaixo. É um desabafo que nos tocou muito porque, sempre que publicamos notícias sobre Greta Thunberg e as divulgamos nas redes sociais, somos atacadas por gente enraivecida ou irônica, que a chama de oportunista, mentirosa, “aprendiz do Soros”, muitas vezes repetindo declarações de Bolsonaro e negacionistas do clima. Seu post foi inspirado por artigo publicado no New York Times em março de 2018, bastante atual: Ignoring Science at Our Peril, algo como “ignore a Ciência por sua conta e risco”. Boa leitura e reflexão! E, se quiser, escreva, nos comentários, se concorda ou não com ele (Mônica Nunes, editora do Conexão Planeta).
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Não parece realmente incrível que, um ano depois desta mensageira singular entregar repetidas vezes a mesma carta – COM O MESMO ALARME -, o destinatário continue ignorando a carta e seu conteúdo?

Greta Thunberg repetiu ad nauseum a frase “não escute o que eu falo, escute a ciência”. Mas a grande mídia continua focada nela, Greta, na sua família, na sua roupa, nos detalhes completamente fúteis sobre suas aparições ou seus deslocamentos.

Qualquer pessoa séria e honesta – despertada para a realidade que esta jovem mensageira traz -, depois de aberta a carta e lido seu conteúdo, iria atrás dos cientistas. 

Quantas entrevistas com pesquisadores vimos publicadas, motivadas pelos apelos de Greta?

Quantos cientistas foram chamados para falar em programas de auditório?

Quantas pessoas se mostraram interessadas no que os modelos climáticos projetam a partir do que ela disse?

Quantas interessadas no agravamento explosivo das mudanças climáticas?

As noticias da Ciência continuam a pipocar, principalmente na internet. Mas o foco do público continua distante e disperso. 

E Greta permanece no centro, para dividir a humanidade entre os que a amam e os que a detestam. 

Até tornar-se tarde demais.

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Antonio Nobre: o cientista da Amazônia

Foto: Divulgação

Antonio Nobre

Agrônomo, mestre em biologia e doutor em Ciências da Terra, é pesquisador sênior do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Viveu em Manaus por 14 anos, quando foi pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Conhece a Amazônia como poucos. Em 2014, lançou o relatório O Futuro Climático da Amazônia (The Climate Future of the Amazon Rainforest) que, mesmo já apontando dados preocupantes, nunca o deixou perder a esperança

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