O dia em que Virginia McLaurin sacudiu a Casa Branca e a nossa consciência

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Virginia McLaurin tem 106 anos, mas a energia e alegria de uma menina de 5. No começo da semana, esta simpática senhora realizou um sonho: visitou a Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos, e conversou – e trocou uns passos de dança -, com o presidente Barack Obama e sua mulher, Michelle.

O convite para conhecer de perto Obama fez parte dos eventos do Black History Month, que anualmente é celebrado em fevereiro, tanto nos Estados Unidos como no Canadá (na Inglaterra ocorre em outubro). A necessidade de ter oficialmente, no calendário americano, uma época em que se discutisse o papel dos negros naquele país surgiu em 1926, quando acontecia a Black History Week. Em 1976, decidiu-se, então, ter um mês inteiro dedicado ao tema.

Virginia sempre trabalhou como voluntária em programas de educação, principalmente aqueles focados em crianças que precisam de ajuda. Ao encontrar com Obama disse: “Nunca pensei que iria viver para entrar na Casa Branca. E eu lhe digo: estou muito feliz. Um presidente negro! Uma esposa negra! E estou aqui para celebrar a história negra. Sim, é por isto que estou aqui”.

E por que exatamente estamos falando desta notícia aqui no Conexão Planeta? Porque precisamos falar sobre o assunto. Ainda é necessário colocar sob os holofotes a questão racial. Virginia McLaurin nunca sonhou que veria um presidente negro comandando a maior potência econômica do mundo. Pois ela viu. E é comovente assistir sua exaltação ao celebrar este momento. Entretanto, ainda há avanços a serem conquistados.

Mesmo nos Estados Unidos, país que elegeu um negro para o cargo máximo do Executivo, continuam existindo denúncias de racismo e preconceito. A celebração do Oscar 2016 está em meio a uma destas polêmicas. Assim como em 2015, os 20 atores indicados à maior premiação do cinema deste ano são todos brancos. A hashtag #OscarSoWhite (Oscar branco demais, em tradução livre) tomou conta das redes sociais e muitos atores negros já declararam que não irão à cerimônia em Los Angeles no próximo domingo (leia mais sobre o caso neste post)

Os negros ainda são maioria nas prisões americanas e a polícia daquele país é frequentemente acusada de racismo. Mas no Brasil, o que temos feito para acabar de vez com esta prática inaceitável?

Nossos números não são nada diferentes dos americanos. De acordo com levantamento divulgado pelo Ministério da Justiça em junho de 2015, ocupam majoritariamente as cadeias de nosso país jovens jovens negros, pobres e de baixa escolaridade. De cada duas pessoas presas no Brasil, três são negras (67% do total).

Temos que aplaudir iniciativas como a da implementação do sistema de cotas nas universidade federais, que permitiram aos estudantes negros terem mais chances de equidade àqueles colegas brancos, que estudaram a vida toda em escolas particulares, mais bem preparadas.

Todavia, além de oferecer melhores oportunidades sociais e econômicas para a população negra do Brasil, é preciso admitir que sim, ainda há racismo e discriminação em nossa sociedade. Racismo é crime, previsto em lei, que pode levar o ofensor para a cadeia. Mas temos que ir além. Educar nossas crianças para olhar e respeitar nossos irmãos de pele negra e dar o devido valor à sua trajetória na história de nosso país.

Aqui não temos um mês dedicado à história dos negros, como o Black History Month dos Estados Unidos. Temos um única dia, o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, e criado somente em 2003, ou seja, há pouco mais de uma década.

Você já parou para pensar quantas páginas do livro de História do seu filho são dedicadas a Zumbi dos Palmares? Quantas pessoas sabem que um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, Machado de Assis, era mulato?

Virginia McLaurin comemorou o encontro com o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Por aqui, temos que urgentemente reencontrar a história de nossos negros e começar a reescrever, aí sim, um novo capítulo, para que no futuro, possamos dizer, de cabeça erguida, que o Brasil é um país que respeita e dá oportunidades iguais a todos.

Assista abaixo o divertido vídeo do encontro da senhora negra americana de 106 anos com Barack Obama:

Foto: Official White House Photo by Lawrence Jackson

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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