O desmanche de navios pode ser sustentável

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As montanhas de metais retorcidos impressionam. Tomam uma extensa área portuária da região de Kampen, cerca de 90 km a noroeste de Amsterdam, na Holanda. Mas ainda mais impressionante é a operação de desmonte: um navio de carga com 108 metros de comprimento por 12 de largura desaparece em apenas quatro dias! Dá lugar a pilhas de sucatas metálicas, com destaque para os pedaços do casco cortados por guindastes semelhantes a imensos abridores de latas!

As chapas se destinam à indústria automobilística. O ferro vai para a construção civil, para sustentar muros e lajes de concreto. Cada peça tem seu mercado. Nada se desperdiça e, sobretudo, nada é enviado para desmanches irregulares e insalubres, situados em países em desenvolvimento, como Mauritânia, Índia e Bangladesh.

Originalmente, a empresa reciclava apenas metais: era a Hoeben Metalen. Hoje transformou-se na Hoeben Reciclagem de Equipamentos Flutuantes (Hoeben RDM, na sigla em holandês). Está instalada em uma área com 250 metros de porto, onde encosta tanto embarcações usadas no mar, como nos rios e canais (por onde circula muita carga, nos Países Baixos). Enormes guindastes – cada um com capacidade para levantar até 400 toneladas – retiram esses barcos e navios da água e eles então são desmontadas na parte seca do pátio.

A razão é técnica e ambiental: fica mais fácil fazer a separação dos materiais a seco e os eventuais vazamentos são mais fáceis de conter. Todo o pátio do porto é isolado do solo por cimento e impermeabilizantes sobre uma camada de 50 centímetros de argila densamente compactada. Um sistema de escoamento de água garante a coleta e armazenamento de restos de combustíveis ou resíduos poluentes dos compartimentos de carga desmontados, com capacidade para estocar 20 mil metros cúbicos de efluentes e/ou de água de chuva.

Ao dar entrada na empresa, todo navio é checado quanto a emissões radioativas. Os combustíveis restantes nos tanques são retirados primeiro e reciclados para uso nos guindastes e outras máquinas em operação no pátio. Outros líquidos também são retirados antes do início da desmontagem. Portas, escadas, móveis e objetos de cabine são separados para avaliação quanto à possibilidade de reaproveitamento.

“Às vezes a embarcação foi a casa de uma família ou de um capitão durante muitos anos e os antigos proprietários pedem para guardar o leme, um pedaço da proa ou algum objeto de valor sentimental”, conta Ralf Kerkstra, da Hoeben RDM. “Nós respeitamos: para nós são só 10 kg de material, mas para eles é uma vida”.

Apesar do alto índice de reciclagem e reaproveitamento de empresas como essa, no setor náutico, a Holanda ainda trabalha com as regras de padronização ISO e legislações internas, com o objetivo de incrementar o índice do chamado upcycling. Ou seja, o país pretende melhorar o processo de transformação de sucatas ou resíduos recuperados em novos materiais ou novos produtos, de maior valor ou qualidade, conforme reza a cartilha da Economia Circular.

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Guindastes cortam o casco do navio como abridores de latas

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As chapas metálicas são destinadas à indústria automobilística

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Os metais são armazenados no pátio de solo impermeabilizado

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Todos os metais retirados dos navios já têm destino certo

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A parte das cabines também é inteiramente desmontada

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Móveis e objetos de decoração das cabines são reaproveitados

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Velhos navios se transformam em novos materiais e produtos

Fotos: Liana John

Economia Criativa

Esta reportagem faz parte do Especial que apresenta uma série de 10 reportagens sobre reciclagem de resíduos na Holanda que realizei a convite do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá, visitei empresas recicladoras holandesas que podem nos servir de exemplo e inspiração para o desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira.

Saiba mais no primeiro post que escrevi – É hora de apostar na Economia Circular – e acompanhe os temas que fazem parte deste especial:

1. Reaproveitamento de couro de sofás
2. Novas funções para velhas estruturas de aço
3. Colchões de espuma para isolamento térmico
4. A difícil arte de separar fibras têxteis
5. Os 3Rs no universo das filmagens
6. Lixeiras com eficiência máxima
7. Carga pesada no desmonte de navios (este post)
8. Reciclagem de eletrodomésticos
9. Do papel ao papel
10. Almere, uma cidade com meta Zero Resíduos

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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