O desabafo e a revolta de uma jovem assediada

desabafo de uma jovem assediada

Sophia tem 24 anos. O nome utilizado neste post é fictício, mas a história dela, infelizmente, é real. Ela pediu para que sua identidade fosse preservada.

A jovem se mudou de outro estado para estudar e trabalhar na capital paulista. Idealista, sonha com um mundo melhor. Mais justo, mais sustentável. E não fica de braços cruzados esperando ver isto acontecer. Trabalha, é engajada.

Mas recentemente, Sophia sofreu dois ataques brutais. Foi assediada. De maneira leviana e suja, dois homens se valeram por ela estar sozinha para constrangê-la.

Em sua página no Facebook, ela contou os episódios:

Na sexta feira passada, ao encostar no balcão do lugar em que compro café todos os dias, fui abordada por um homem. Ele me agarrou, falou coisas imundas e ainda tentou me impedir de sair da lanchonete. Me acovardei, senti medo e não reagi.

No final da tarde de ontem, pedi um Cabify. Durante o percurso da corrida conversei com o motorista, por educação. Num determinado momento percebi que tirava selfies comigo aparecendo e que em seguida, as enviava para alguém.

Imediatamente enviei mensagens para o meu namorado e pedi que me esperasse em frente ao meu destino para que, assim que saísse do carro, eu pedisse para o motorista deletar as fotos. O homem ficou surpreso com a nossa solicitação e disse que já havia deletado.

Não acreditamos e pegamos o celular dele na mão. Um grupo chamado “LOUCOS POR SEXO” estava aberto, cheio de fotos minhas no banco de trás do carro e mensagens asquerosas falando sobre minha aparência e de como ele era “SAFADO”. Pedi para ele imaginar se fosse a filha dele naquele carro… só o que ele conseguiu repetir foi “NÃO SOU UM HOMEM MAU”.

O senhor é “mau”, com toda a certeza. O senhor expõe, viola e abusa de mulheres que não lhe deram tal liberdade. O senhor propaga a cultura do machismo e do estupro. E NÃO é minha culpa. Não é culpa da roupa que eu usava, não é culpa da minha aparência física.

O que me resta é medo de voltar a utilizar qualquer um desses aplicativos, medo de fazer um boletim de ocorrência. O que não vai resultar em nada além de estatística.

Mulheres, lutem…”

O relato é chocante. E pensar que neste mesmo instante, outras centenas de jovens como Sophia e mulheres por todo o Brasil, sofrem o mesmo tipo de assédio. Como ela descreve acima, elas se sentem violadas e abusadas.

Mas o homem que assediou Sophia não é apenas “mau”. Ele é um criminoso! Desde 2001, assédio sexual é considerado crime no Brasil, previsto no artigo 216 A do Código Penal. A lei é bem clara: “Constranger alguém com intuito de levar vantagem ou favorecimento sexual. Pena: detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos.”

2017 foi um ano marcado por muitas denúncias de assédio sexual. Mulheres que perderam o medo e decidiram acusar seus agressores. Em abril, houve o caso do ator José Mayer, que mostramos aqui. A figurinista da Rede Globo, Susllem Meneguzzi Tonani, de 28 anos, revelou, em carta aberta, publicada pelo jornal Folha de São Paulo, como foi importunada insistemente e – constrangedoramente – ao longo de meses, por um dos mais famosos galãs de novela do país.

Em outubro, depois de que mais de 50 mulheres acusaram o produtor de cinema de Hollywood, Harvey Weinstein, de as ter estuprado ou assediado sexualmente, a hashtag #MeToo#EuTambém -, em português, viralizou nas redes sociais. Foram mais de 12 milhões de citações, de mulheres que finalmente tiveram coragem de relatar que um dia foram assediadas.

No começo deste mês, a Time Magazine, uma das publicações mais conhecidas do mundo, colocou em sua capa de dezembro, quando elege a personalidade do ano, as mulheres que romperam o silêncio: As vozes que lançaram um movimento.

 

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Foto: European Parliament/Creative Commons/Flickr e reprodução Time Magazine

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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