O cupinzeiro iluminado

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O ano era 2003. A câmera, uma EOS 3 munida com filme Fuji, Provia 100, puxado para 200. No auge dos meus 24 anos, seguia com meu ferrenho sonho de publicar minhas fotos na emblemática revista da borda amarela, a National Geographic.

Após uma temporada de trabalho relativamente profícua, resolvi pegar um pouco do que havia sobrado da curta grana que eu tinha e investir em algumas histórias que vinha ouvindo das mais diversas fontes.

Uma delas falava de cupinzeiros luminosos no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Uma busca rápida pela internet me mostrou que pouco, pra não dizer nada, havia sido produzido fotograficamente sobre o assunto. E o que era apenas um lampejo se tornou uma obsessão nos meses seguintes.

Busca por informações, pesquisadores, autorizações, logística e tudo mais me consumiram boa parte do mês de agosto daquele ano. Enfim, a partir de setembro, eu estava somente à espera do chamado dos guias do parque anunciando a chegada das chuvas no Cerrado.

O telefonema veio em meados de outubro. O coração foi a mil. Empacotei as coisas no carro e segui rumo ao Centro-oeste brasileiro. Uma rápida passagem por Brasília para buscar Talitha Monfort, bióloga que foi minha parceira na produção dessa história. e logo seguimos rumo ao Chapadão do Céu para fotografar os cupinzeiros.

O primeiro avistamento da cena foi inacreditável. Me lembravam edifícios com suas luzes em meio à escuridão do Cerrado. Os ovos depositados pelos vaga-lumes na superfície dos cupinzeiros haviam se tornado larvas, também bioluminescentes. Com a efervescência de vida que chegava com a chuva, essas larvas colocavam seus corpos para fora em busca de alimento. Com isso, os cupinzeiros se iluminavam como árvores de Natal.

As imagens produzidas em uma daquelas noites acabaram sendo minha primeira matéria publicada na National Geographic Brasil, em março de 2004. A reportagem acabou sendo publicada também na edição principal, americana, e na versão alemã da revista.

Guardei com muito carinho as lembranças daquela viagem por 13 anos, sempre com a promessa de que voltaria para para rever e fotografar o fenômeno novamente.

Eis que, neste ano, bons ventos me levaram novamente ao sul de Goiás. Na companhia dos amigos Fabiano Rodrigues de Melo e André Monteiro pude curtir de novo o Parque Nacional das Emas, sua bioluminescência e, claro, fazer a foto que ilustra este post.

Uma foto nova, mas com um gosto muito especial, daqueles com sabor de coisas do passado, de memórias antigas da casa da vó.

Abaixo, mais uma imagem desse monumento natural, de outro ângulo.

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João Marcos Rosa

Formado em jornalismo, o fotógrafo João Marcos Rosa se especializou em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a correr o mundo atrás de boas e fascinantes histórias. Colabora com as revistas National Geographic Brasil, BBC Wildlife, GEO e Terra Mater. Autor dos livros “Harpia” e “Fauna de Carajás”, vive em Nova Lima (MG) e é um dos sócios da agência Nitro Imagens.

Um comentário em “O cupinzeiro iluminado

  • 21 de outubro de 2016 em 10:49 AM
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    A natureza tem os seus mistérios! Neste caso, um mistério iluminado! Adorei a matéria. Abraço fraterno.

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