O caminho para a Economia Circular passa pela cidadania

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selo-economia-criativa-especial-XTransformar a simples reciclagem em upcycling, dando origem a novos produtos – de boa qualidade e com mercado certo – é apenas um dos passos para estabelecer uma verdadeira Economia Circular.

Graças ao convite do Ministério das Relações Exteriores da Holanda, pude conhecer de perto os avanços de seu sistema de reciclagem que tem vários exemplos de empresas recicladoras, criativas e lucrativas. Essa visita resultou em uma série especial de reportagens – Economia Criativa – publicada semanalmente aqui, no Conexão Planeta, na qual conto a história de engajamento de uma cidade inteira para zerar seus resíduos até 2020.

Como comentei no texto de apresentação desta série – É hora de apostar na Economia Circular -, conheci iniciativas que podem nos servir de exemplo e inspiração no desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira. As reportagens estão listadas abaixo:

  1. O velho sofá revive em bolsas customizadas
  2. Nunca é tarde para reutilizar velhas vigas de aço
  3. Colchão velho, novo isolante
  4. Tecnologia ótica deve multiplicar a reciclagem de têxteis
  5. Os 3Rs na produção de cinema e TV
  6. Uma lixeira para lá de eficiente
  7. O desmanche de navios pode ser sustentável
  8. Da geladeira reciclada sai uma nova lavadora
  9. Do papel velho ao novo em circuito fechado
  10. Almere, uma cidade disposta a zerar seus resíduos

Mas existe muito mais a ser conhecido, entre as atividades que tornam possível a Economia Circular. Investir em novas ideias, por exemplo, fica mais viável quando se tem um banco como o ING Bank, com uma política de apoio à redução de emissões de carbono; com linhas de crédito específicas para veículos elétricos ou para o desenvolvimento de bioplásticos feitos de capim, além de leasing de máquinas e motores reciclados ou usados para a reciclagem.

No ING Bank, a Economia Circular não é só um conceito técnico: é uma opção de financiar inovações associadas a esse conceito. Isso envolve discussões novas nas instituições financeiras, como o modo de avaliar os riscos desses financiamentos ou fazer a análise de viabilidade de startups ou, ainda, a maneira de lidar com crowdfunding. “Não podemos simplesmente aumentar nosso risco, então estudamos mais, avaliamos os impactos dos negócios financiados e, às vezes, percebemos que o risco é menor do que inicialmente imaginamos”, explica Gerald Naber, responsável pelo Financiamento Sustentável no banco holandês. “A solução é avaliar cada negócio, em lugar de descartar só porque é algo novo”.

Eventualmente, o financiamento é necessário para empresas tradicionais – como as de reciclagem de embalagens plásticas – com o objetivo de impulsionar sua conversão em recicladoras mais eficientes. Como a Sita, uma empresa localizada no porto de Rotterdam, equipada com máquinas dotadas de sensores 3D, capazes de separar os vários tipos de plástico à razão de mil (1.000) peças por minuto. Em 2015, a recicladora processou 35 mil toneladas de plástico, encaminhadas por 205 municípios holandeses. E entregou tudo separadinho, com qualidade suficiente para concorrer com a matéria prima virgem.

Se, no entanto, os resíduos não servem como matérias primas, existem opções de incineração com geração de energia. É o que faz a AVR de Rozenburg, cuja capacidade de processamento supera os 2 milhões de toneladas por ano. Com sua tecnologia, cada sacola de resíduos convertida em vapor, calor e eletricidade é suficiente para garantir 1.200 recargas de celular ou uma viagem de 47 km em um carro elétrico. No total, a produção de eletricidade da AVR, gerada apenas por resíduos, corresponde ao consumo anual de 250 mil residências.

Outra opção em curso na Holanda é a recuperação dos resíduos dissolvidos nos esgotos e sua conversão em bioplásticos e em fosfatos para utilização como adubo, um passo bem além do composto feito com lodo. O bioplástico poderia ser usado para a fabricação de lonas de cobertura de terras agrícolas, para os meses muito frios. Como é biodegradável, esse plástico não precisaria ser retirado quando o tempo esquenta.

Essas alternativas estão em desenvolvimento, em escala piloto, na Brabantse Delta, onde são tratados os esgotos de um milhão de habitantes. “O tratamento dos esgotos não mudou. O que mudou é nossa visão: o esgoto agora é visto como fonte de recursos”, resume o diretor da empresa, Jack Jonk. A conversão de resíduos plásticos em bioplásticos é feita por uma bactéria, em reatores fechados. O bioplástico é classificado como PHA ou Poli-Hidroxi-Alcanoato.

Essa pesquisa com os bioplásticos é apenas uma das alternativas apoiadas pela Stowa Foundation for Applied Water Research (Fundação para a Pesquisa Aplicada de Água). Lá também se trabalha com outra pesquisa considerada promissora, de recuperação de papel higiênico dissolvido. Segundo dados da fundação, cada habitante da Europa Ocidental usa de 10 a 14 quilos de papel higiênico por ano, em média. Os resíduos desse papel são jogados nos vasos sanitários e constituem de 30 a 50% do material em suspensão encontrado nas águas servidas que chegam às estações de tratamento. As fibras de celulose podem ser retiradas da água e reprocessadas como papel higiênico. A tecnologia já está disponível a custo viável e, agora, está em avaliação a receptividade do mercado em relação a esse tipo de reciclagem.

Sejam inovações ou melhorias de processos conhecidos, todas essas iniciativas demonstram o quanto se pode avançar rumo à Economia Circular quando se criam condições favoráveis. Na Holanda, diversas leis e políticas públicas priorizam o reuso e a reciclagem inteligente de resíduos. E ainda há um fator decisivo para fazer tudo funcionar: a adesão do cidadão a essa forma de pensar e agir, seja como empreendedor, seja como consumidor. E isso só pode resultar na multiplicação de bons exemplos, como os que retratamos!

2_separadorplásticos_LianaJohnMáquina 3D consegue separar mil peças de plástico por minuto!

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A máquina separadora de embalagens faz quase tudo sozinha, mas a supervisão ainda depende do olho humano

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Com a energia produzida por uma única sacola de resíduos é possível andar 47 km num carro elétrico

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Jack Jonk aposta nos resíduos dissolvidos no esgoto como matéria prima, após o tratamento da água

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No reator de bactérias que “fabricam” o bioplástico de esgoto um adesivo alerta: “monstro da água: deixe quieto!”

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Para funcionar, a Economia Circular depende dos cidadãos

Para finalizar, assista ao vídeo que produzi para acompanhar o texto de apresentação da série especial de reportagens sobre Economia Circular, que resume bem o sistema de reciclagem adotado pela Holanda:

Fotos: Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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