O café solidário das Minas Gerais

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O café, esse aromático e delicioso alimento que me nutre todas as manhãs, está entre minhas bebidas favoritas. Comecei com os pinguinhos no leite, ainda pequena, até adotar seu consumo puro, já na adolescência. Desde então, minha relação com essa bebida se tornou cada vez mais íntima.

Fazendo pesquisas sobre café e sua produção solidária, encontrei o trabalho da Cooperativa Regional Indústria e Comércio de Produtos Agrícolas do Povo que Luta, a Coorpol. Criada a partir de uma iniciativa da Organização do Povo que Luta (OPL), associação com sede em São João do Jacutinga, e de lideranças comunitárias da Vertente Leste do Rio Doce, Minas Gerais, a cooperativa fabrica o café Virada das Montanhas. A variedade é 100% Arábica, cultivada na altitude e microclima ideais para o surgimento de grãos de qualidade.

A expressão Virada das Montanhas é muito usada pelos produtores da região da Serra do Caparaó, onde o cultivo de café está localizado em espaços íngremes, e muitas vezes é preciso usar pregos nas botas para escalar os morros entre os cafezais e cuidar da produção.

O café produzido pela cooperativa é destinado ao mercado internacional (café cru em sacas de 60 kg), mas em breve começará a produção de micro lotes de café torrado e moído para o mercado nacional. A Coorpol também fabrica outros itens agroecológicos como cereais, doces, frutas, verduras, legumes e quitutes. Esses itens são destinados prioritariamente para escolas estaduais mineiras e para a prefeitura de Manhuaçu.

Um pouco de história

viradamontanha3A Coorpol reúne pequenos agricultores que buscam melhor qualidade de vida por meio do cooperativismo e do associativismo. Sua história começa no ano 2000, quando alguns produtores começaram uma cultura livre de agrotóxicos e se reuniram numa associação de produtores orgânicos. Houve então uma aproximação desse grupo com a OPL de Caratinga, que tinha uma assessoria alemã e trouxe a ideia do comércio justo, o chamado fair trade para os mercados internacionais.

A cooperativa foi fundada naquele mesmo ano, sendo formalizada em 2006. Em 2007, em Caratinga, a Coorpol foi certificada pelo selo Fair Trade, e em 2010 a sede mudou-se para Manhuaçu, porque a região de Caratinga apresentava pouca oferta de café. A partir de 2011, com as crises do café, a cooperativa diversificou a produção, entrando com os outros itens já citados aqui. Novas parcerias foram firmadas e a entidade tornou-se mais sustentável.

O selo Fairtrade é uma certificação alemã que valoriza o produto em até 70%, estabelecendo um preço mínimo pelo qual o café deve ser vendido. É um bom meio para inserir cooperativas de pequenos produtores no mercado internacional. Só agricultores familiares podem obter o certificado, e para isso devem cumprir exigências socioambientais.

“Em 2010 e 2011 vendemos para o mercado fair trade internacional e tivemos uma arrecadação boa. Em 2012 e 2013 a gente não vendeu nenhuma saca de café, e as despesas da cooperativa eram altas. Precisamos fazer parcerias com a Prefeitura e com o sindicato para segurar. Começamos a diversificar e trabalhamos com grupos de mulheres que produziam doces, quitutes, e também verduras e frutas. Esses grupos acabaram vindo para a Coorpol e comercializando conosco. E assim seguramos a cooperativa para voltar a vender o café. A comercialização do café voltou em fins de 2014. Ano passado vendemos 13 contêineres e vamos terminar 2016 com uns 10”, diz Flânio Alves da Silva, Presidente da cooperativa. Cada contêiner tem 320 sacas de 60kg.

A Coorpol atua em 11 municípios mineiros, e tem uma abrangência mais forte em Manhuaçu, onde trabalha em quase todas as comunidades rurais e integra o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável. A maior dificuldade, no início, foi proporcionar aos produtores o entendimento do que é uma cooperativa e como funciona o trabalho em grupo. Hoje o desafio é manter um bom capital de giro para o café, para que os produtores não demorem a receber. “Hoje já temos um bom giro para as nossas condições”, diz Flânio.

Em Manhuaçu, a cooperativa mantém uma parceria com a Associação Comunitária de Estudos e Ação Social (ACEAS), que possui hoje uma padaria, onde trabalham cerca de 13 mulheres em revezamento na produção, e uma fábrica de doces, onde trabalham outras 18 mulheres. Grande parte do grupo de mulheres da Aceas já faz parte da Coorpol, e as duas entidades têm uma boa relação: enquanto a Associação busca organizar a produção da comunidade, a cooperativa faz o trabalho de comercialização.

Embora não tenha conseguido visitar a cooperativa para compartilhar esse post com vocês, recebi o convite do Flânio para tomar um café e conhecer de perto toda a riqueza desse processo. Trarei mais notícias diretamente da Zona da Mata Mineira em breve.

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Fotos: Luiza Guasti/DoDesign-S

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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