O Brasil perde Paulo Jares, que fotografou como poucos os povos indígenas da Amazônia

O Brasil perde Paulo Jares, que fotografou como poucos os povos indígenas da Amazônia

Filho do jornalista e ex-superintendente do jornal “A Província do Pará”, Paulo Roberto Jares Martins cresceu em meio às barulhentas máquinas de escrever das antigas redações e no tempo em que ainda era necessário esperar a revelação dos filmes, nas câmaras escuras, para se ter certeza que a fotografia tinha saído boa ou não.

Nascido em Belém, em 1968, Paulo Jaresele ficaria conhecido apenas por esses dois nomes mais tarde -, logo demonstrou interesse pelo fotojornalismo.

Trabalhou na década de 80 no “A Província do Pará”, mas depois acabou sendo levado pelo profissão para São Paulo e o Rio de Janeiro. Teve passagens pelo Jornal do Brasil e pela revista Veja. Para esta última, fez registros memoráveis e únicos de personalidades brasileiras, como Tom Jobim, Baden Powell e o ex-presidente Lula.

Mas foi em seu estado natal, na cidade de Altamira, em 1989, que Jares fez um dos mais marcantes registros de sua carreira.

No meio de dezenas de fotógrafos, competindo no mesmo local, por todos os ângulos possíveis, fez, exatamente 30 anos atrás, uma das fotos antológicas daquele ano e do fotojornalismo mundial. Captou, como nenhum outro, a fúria da índia Tuíra, investindo com seu facão contra o presidente da Eletronorte, passando a lâmina pelo rosto do estupefato engenheiro AntônioMuniz Lopes. Era o protesto de maior impacto dos índios kayapó contra a hidrelétrica de Kararaô (a atual Belo Monte). Inútil, mas decisivo – como mostrou a arte de Paulo Jares Martins”, conta o jornalista Lúcio Flávio Pinto.

Ao longo dos últimos anos, Jares participou de diversas exposições fotográficas, individuais e coletivas, mostrando seu trabalho sempre tão importante para a discussão dos conflitos indígenas brasileiros. Suas imagens fizeram parte de mostras de Bienais de Fotojornalismo no Brasil e de Artes Visuais no Mercosul.

Registro de Jares das índias da Tribo Kaiabi, passando urucum
contra os mosquitos, no Parque Nacional do Xingu, em 1999

Na última segunda-feira (19/08), aos 51 anos, Paulo Jares faleceu, no Rio de Janeiro, onde morava.

Vários amigos e conhecidos lamentaram a morte do fotojornalista nas redes sociais. Reproduzimos abaixo a bonita despedida de Walter Pinto, ex-colega da redação do “A Província do Pará”, publicada hoje, no Facebook:  

O menino na redação

Quando conheci Paulo Jares, no final da década de 70, ele vestia o uniforme do colégio Moderno e era ainda um menino, entrando na adolescência. Foi na redação de A Província do Pará, onde eu trabalhava como diagramador e cartunista. Era um garoto bonito, de sorriso largo e enorme interesse pelo trabalho dos jornalistas – repórteres, diagramadores, editores, fotógrafos.

Filho do diretor superintendente do jornal, Roberto Jares Martins, Paulinho ia sempre no velho prédio do jornal, na travessa Campos Salles, 210. Passava rápido no gabinete do pai e ia direto para a redação, viver aquele clima de jornal da década de 1970, redação barulhenta, cheiro de cigarro no ar, velhas máquinas Remington, teletipos incansáveis, todos falando ao mesmo tempo, nada parecido com as redações frias e assépticas de hoje.

Aqueles momentos na redação e as fotografias de Porfírio da Rocha podem ter sido definitivos para o Paulo Jares optar pelo fotojornalismo. Porfírio foi um dos maiores fotógrafos paraenses de um tempo em que as fotografias não tinham o crédito do autor. A primeira máquina que Paulinho recebeu, ainda em treinamento, foi uma Nikon velha, como quase todas do jornal. Vejo-o conversando com Porfírio, tirando dúvidas, interessado.

Todos os jornais possuem seus mitos. O da Província dos anos 70, 80, era o de formar o pessoal na própria redação. Talvez ninguém tenha confirmado mais esta crença do que o Paulo Jares. Antes de se fazer jornalista, ele vivenciou a redação, experimentou o clima até se embriagar pela profissão.

Mas se tornou fotógrafo renomado porque tinha muito talento.

Obrigado por tudo.

Grande abraço”

Fotos: reprodução Revista Veja

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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