O ataque das cores na festa da guerra

Elas vinham de todos os lados… azul, vermelha, amarela, verde, branca, negra. Cores saltitantes iluminadas pelo sol.

Foi ele quem trouxe as cores e, nesta brincadeira empoeirada de luz, me joguei nas sombras cobertas pelo pó que vinha do chão pisoteado, amassado pelos pés descalços.

E foi ali, no pátio da aldeia Aiha Kalapalo, no Parque Indígena do Xingu – próximo do Rio Kuluene e seus afluentes -, que, em 2016, retratei este momento coberto de simbolismo e poeira, o Jawari ou ritual de guerra.

Muito comum no Alto Xingu, esta celebração acontece em agosto ou setembro, depois do Kuarup, mas não todo ano. É quando os índios queimam as armas dos guerreiros que se foram. Mas também quando uma tribo convida outra – onde estão parentes, geralmente – para ‘aparar as arestas’, resolver mágoas e assuntos pendentes. É, na verdade, um ritual pela paz.

Todos participam do Jawari – homens, mulheres e crianças. O sertanista Orlando Villas Bôas sempre me dizia que essa era a festa mais alegre e bonita…

Na foto que destaco neste post, a beleza não está só nas cores, mas no movimento dos pequenos, que aparecem em primeiro plano.

No meio do pátio, a imagem que representa o homem, que será castigado e ofendido durante o ritual, pois é
uma maneira de desabafar sem ofendê-lo diretamente. No final, ele será queimado com suas flechas.  

A música faz parte deste ritual único, dia e noite. Durante uma semana, homens e mulheres
cantam e dançam para que todos se sintam homenageados e felizes

Do alto da oca, assisti ao fascinante Jawari, com seus simbolismos.
E Orlando estava certo: ele é um ritual muito feliz, de muitas risadas.

Para o ritual da guerra, os homens se disfarçam de animais – melhor:
como seus animais preferidos. Alguns, têm olhos até nas costas. 

Djawa Kalapalo mostra a todos que tem olhos por todos os lados. Esta é uma das representações que
mostram o quanto os personagens e as pinturas do Jawari são fantásticos e criativos

Edição: Mônica Nunes

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Um comentário em “O ataque das cores na festa da guerra

  • 27 de junho de 2017 em 7:05 PM
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    Lindas imagens. Parabéns!

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