O artivista Mundano recria quadros famosos com lama tóxica da Vale tirada do rio Paraopeba, em Brumadinho

Ele é um artista inquieto e super engajado. Começou sua trajetória ativista grafitando a capital paulista e logo se aliou aos catadores de materiais recicláveis, grafitando suas carroças – “pimpando”, como define seu projeto Pimp My Carroça – para ajudar a devolver dignidade a esses profissionais tão necessários para a cidade, mas esquecidos pelo poder público. Depois criou um aplicativo super bacana – Cataki, o Tinder da Reciclagem -, que conecta catadores e consumidores conscientes e já ganhou prêmio internacional de inovação digital. E sempre que alguma tragédia ou acontecimento (seca de 2015 em São Paulo, por exemplo) tocou fundo, lá foi ele ver de perto pra poder colaborar com o que sabe fazer de melhor: arte.

Mundano é movido à cooperação, troca, e não titubeia em denunciar injustiças e crimes. Por isso, esteve em Mariana, quando a barragem do Fundão da Samarco (joint-venture entre Vale e BP Billinton) estourou, deixando um rastro de destruição e morte: inundou a região de lama tóxica, destruiu cidades, o Rio Doce e sua biodiversidade e chegou à costa do Espírito Santo.

Com Brumadinho, não foi diferente. E lá foi ele, em fevereiro, se juntar às pessoas que perderam tudo, parentes, amigos e que, até agora, não tiveram o apoio necessário da Vale e da prefeitura para compensar os danos – se é que isso é possível – e vislumbrar alguma possibilidade de futuro. Acompanhou mobilizações, desenvolveu ações para que as pessoas lidem melhor com resíduos e “colheu” lama tóxica do rio Paraopeba para trabalhar com ela.

Resolveu pintar com a lama “pra que esse crime brutal não caia no esquecimento”, explicou em seu perfil no Instagram. Testou sua radiatividade com imãs, separou metais, obteve tons diferentes do material para poder brincar com nuances nas obras. Para os três tons diferentes que obteve, deu nomes fortes: lama assassina (avermelhado), marrom não foi acidente (o mais esculo e com mais minério de ferro) e marrom irresponsável (o mais claro).

Entre as criações escolhidas para fazer sua releitura engajada, duas são brasileiras: Abaporu, de Tarsila do Amaral, de 1928, e O Mestiço, de Cândido Portinari, de 1934. Batizou essa série de Releituras Mundanas (criou uma hashtag pra divulga-la nas redes: #ReleiturasMundanas), e ainda incluiu Guernica e Monalisa (batizada de Mundalisa).

Nas mãos e na cabeça de Mundano, o Abaporu virou Abaporupeba. “Quis fazer um paralelo com o significado antropofágico de Abaporu que, em tupi-guarani, significa o homem que come gente. Somando peba, que significa sem importância, o nome se rende ao ativismo proposto por Mundano: o homem que come gente sem importância.

Depois de pronta a obra, procurou a sobrinha de Tarsila, Tarsilinha, para aprovar a criação. Ela adorou e aprovou. “Isso foi uma honra pra mim, que, desde pivete, piro com a originalidade e o artivismo de Tarsila, suas temáticas, o uso de cores e também seus cactus da resistência.

Na releitura de Mestiço , Mundano comentou que encontrou seu maior desafio por causa de sua limitação técnica e “da notável diferença de estilo”. Mas, também, um ponto a favor: a temática social, comum entre ele e Portinari, que retratava a realidade dos trabalhadores invisíveis do país. “Mestiço, pra mim, é um símbolo desse artivismo e, por isso, a escolhi. Quando comecei a estudar o quadro quase desisti tal a quantidade de detalhes na paisagem. Como poderia dar certo reproduzir essa genialidade pintada a óleo pelo grande Candinho com meu traço duro de spray e lama?”, pensou.

Mas, como a ideia era fazer uma denúncia, contra a mineradora Vale, rapidamente Mundano lembrou do seu “rolê pelo Vale do Paraopeba onde todos os detalhes da paisagem foram engolidos pela lama tóxica”. Sua obra ganhou ainda mais sentido e se tornou O Mestiço do Vale do Paraopeba.

Tanto Abaporupeba, como O Mestiço de Mundano exibem um elemento que é quase como um símbolo do ativismo de Mundano: um megafone. Ambos estão expostos no stand da Galeria Kogan Amaro, no evento SP-Arte, o maior festival de arte da América Latina, que acontece no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, de 3 a 7 de abril.

Vale comentar que também que a tela original de Tarsila, que pertence ao acervo do museu Malba, na Argentina, está emprestada ao Brasil pra uma super exposição no Masp, que inaugura em 5 de abril. Essa notícia empolgou ainda mais o artivista no desenvolvimento de sua obra em homenagem a Tarsila.

Fotos: Reprodução Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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