O artivista Mundano pinta tela com óleo do vazamento no litoral nordestino: “pra que este crime não seja esquecido!”

“Pintando com óleo cru do vazamento no Nordeste pra que mais este crime ambiental não caia no esquecimento!”. Foi assim que o artivista Mundano começou a conta sobre sua mais recente obra, em seu perfil no Instagram. Para fazer seu protesto, ele disse que escolheu fazer uma releitura da gravura A Grande Onda de Kanagawa, do grande gravurista japonês Hokusai, feita em 1830. “Esta talvez seja a obra mais reproduzida no mundo”.

O óleo – cerca de um litro – foi coletado em 21 de outubro, por voluntários da ONG Recife Sem Lixo, na Praia do Paiva, município de Santo Agostinho, em Pernambuco. Mas somente há poucas semanas ele começou a testar seu uso, procurando viabilizar a pintura porque o óleo tem um cheiro muito forte.

“Estudando o óleo entendi o quão forte ele é e tive que usar equipamentos de proteção individual disponíveis no estúdio – como luvas, máscara de gases, óculos de proteção e capa impermeável. Com essa experiência valorizo ainda mais a coragem da galera que se mobilizou pra limpar as praias sem esses equipamentos”.

Mundano tem que usar equipamentos de proteção para pintar a tela com óleo do vazamento no nordeste

E continuou: “Como há inúmeras obras feitas com tinta à óleo, há milhares de anos, achei que seria viável usar o óleo coletado nas praias. Estou fazendo testes, adicionando alguns secantes, óleo de terebentina e óleo de linhaça, adicionando a esse óleo viscoso. Assim, obtenho outras colorações. Se você vê na parte do céu, ele é bem clarinho porque está bem diluído”. Além disso, “a secagem é bem complexa.

Sobre a obra escolhida, Mundano conta que, primeiro, pensou em se inspirar em algum pintor do nordeste, que tivesse desenhado praias, paisagens de mar, mas não encontrou nenhuma obra que se encaixasse em sua ideia. Como a gravura de Hokussai já estava mapeada pois ele havia pensado em pinta-la com lama tóxica da Samarco (leia a respeito, mais abaixo, neste post), “porque funcionaria também: seria uma onda de lama tóxica“.

Foi, então, que o artista optou pela grande onda de Hokussai, batizando sua tela de A grande onda de óleo no Nordeste“. A título de curiosidade, segue sua descrição técnica: “óleo cru do vazamento do nordeste, coletado por voluntários, sobre tela”.

E, como aconteceu com a lama tóxica, esta pode ser a primeira obra de série feita com óleo do vazamento no litoral nordestino. “Com certeza, pretendo fazer outras usando esse óleo, talvez até outras releituras dessa onda”. Assim que estiver terminada, sua “grande onda” integrará a coleção de Releituras Mundanas, iniciada com as obras de lama tóxica.

Agora, clique aqui para assistir ao vídeo que registra Mundano pintando sua “grande onda de óleo” e que ele publicou num post no Instagram, logo depois da foto com a tela.

Estudo digital sobre óleo

Inquieto, esta semana Mundano publicou um “rápido estudo digital” que fez com uma das imagens que, para ele, “marcaram a última década e que simboliza a destruição ambiental” que vem tomando o país: a foto de um garoto saindo do mar totalmente banhado por óleo.

“A expressão do Éverton, 13 anos, saindo do mar cheio de óleo da praia de Itapuama no Cabo de Santo Agostinho (PE) é um soco no estômago e não sai da minha cabeça”, desabafou.

No post, ele conta que nunca usou tecnologia digital em suas obras. E que, até hoje, fez pouquíssimos rascunhos num papel antes de pintar um muro ou uma tela. Mas que sua rotina corrida por causa de dois grandes projetos criados por ele – o Pimp My Carroça e o aplicativo Cataki (o “tinder”da reciclagem) – não tem tido muito tempo para grafitar e pintar. Por isso, resolveu testar novas ferramentas digitais. Veja:

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Isso não é uma pintura e sim um rápido estudo digital de umas das imagens que mais me marcaram nessa última década de destruição ambiental. A expressão do Éverton, 13 anos, saindo do mar cheio de óleo da praia de Itapuama no Cabo de Santo Agostinho (PE) é um soco no estômago e não sai da minha cabeça . Nunca fui de usar tecnologia digital em minhas obras, alias ate hoje foram poucas vezes que fiz um rascunho num papel antes de pintar um muro ou uma tela. Minha rotina insana de artivismo com o @pimpmycarroca e o @catakiapp nos últimos anos consome a maior parte do meu tempo e acabo que quase não consigo mais fazer graffiti e produzir telas. Um dia ainda compartilharei mais dessa rotina , mas de fato não acordo e vou pro meu ateliê pintar . Por isso to testando novas ferramentas digitais pra otimizar meu tempo de produção manual e esse esboço digital de uma potencial obra feita com óleo do nordeste simboliza isso. Ainda to apanhando da tecnologia e não pretendo substituir o trabalho a mão livre, mas resolvi postar esse processo com vocês ate pra eu me comprometer a pinta-la algum dia. Agora a questão que to refletindo aqui é se essa serie #releiturasmundanas eu deveria continuar apenas na reinterpretação de pinturas clássicas do mundo da arte com fatos recentes como a “operários de Brumadinho “ ou se vale também pra fotos atuais por exemplo . E se também paro de fazer releituras e sigo outro caminho . Enfim muita dúvidas surgindo na minha cabeça . Esse post aqui pra mim é mais um desabafo pessoal de que me sinto frustrado muitas vezes de não conseguir pintar mais como eu gostaria e não executar tantas ideias que pipocam não minha mente de temas tão importantes desses tempos que vivemos . Sinto uma pressão enorme de não parar essa missão e acabo sentindo que estou sempre devendo de produzir mais , de ver amigos e a família . Enfim essa vida é mutcho loca mesmo e muito breve . Foto poderosa do Leo Malafaia @leomalafaia #vazamentodeoleo #oleononordeste

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Lama na tela e num painel gigante

Como já comentei, esta não é a primeira vez que Mundano utiliza resíduos de um desastre ambiental (e social) para protestar, nos lembrar dele e cutucar as autoridades.

No ano passado, ele recriou obras de Tarsila do Amaral e de Cândido Portinari com a lama tóxica da Samarco que devastou o rio Paraopeba em Brumadinho e seguiu até o oceano deixando um rastro de destruição. O artivista fez releituras do Abaporu e de O Mestiço. Ficou lindo como você pode ver acima. Contei, aqui, no Conexão Planeta.

Mas a série Releituras Mundanas não se limitou a essas duas obras. Em seguida, ele desenhou Mundalisa, inspirado pela Monalisa de Leonardo da Vinci: a obra mais fotografada e talvez a mais famosa do gênio italiano, que levou três anos para finaliza-la: 1503 a 1506.

“O maior desafio, além de usar a lama nos tons terrosos, foi de conseguir representar o olhar enigmático da modelo”, conta Mundano. “Refiz os olhos diversas vezes. Na minha versão, Gioconda é uma arrivista e usa um megafone (característico em seu trabalho) pra amplificar as vozes encobertas pela lama da ganância. E a paisagem ao fundo foi atualizada para os dias de hoje, pintada com “marrom Samarco” da lama tóxica extraída do Rio Doce. Pintei a obra sobre o fundo de madeira de um quadro com moldura dourada encontrada por catadores”.

Mundalisa integrou a exposição Vozes Mundanas na galeria Kogana Maro, em 2018, e foi parar no acervo particular de “um casal de colecionadores muito especiais que já apoiaram muito o Pimp My Carroça (um dos primeiros projetos ativistas de Mundano) e o meu trabalho”, conta e ainda desabafa: “De lá pra cá, a lama tóxica não saiu mais da minha cartela de cores. O triste é que Mariana é o maior crime ambiental com barragens do mundo e não aprendemos nada. Afinal, Brumadinho é sua repetição”.  

Em 25 de janeiro deste ano, foi aniversário da cidade de São Paulo, mas também o dia de relembrar o crime da Samarco, em Brumadinho. Fez um ano que a barragem do Fundão rompeu varrendo sonhos, pessoas e a natureza em um dos maiores crimes socioambientais do país. Mundano queria fazer algo grandioso para homenagear todos os atingidos: vivos e mortos. Pegou sua cartela de tons terrosos à base de lama tóxica e pintou um painel gigante na parede de um edifício no centro de São Paulo, em frente ao Mercado Municipal. Um presente duplo.

Inspirou-se no quadro Operários, também de Tarsila, de 1933, com os diversos tons que conseguiu obter da mesma lama tóxica. Chamou o painel de Operários de Brumadinho. Maravilhoso!!!!

O vídeo que Mundano publicou em seu perfil no Instagram (reproduzo abaixo) foi feito pela produtora Cine Delia, que acompanhou todo o trabalho de filtragem da lama, feita por Mundano, registrou seus depoimentos, sua indignação, as mobilizações do povo às vésperas desse “aniversário”, a execução da obra… Vale lembrar que a Cine Delia também produziu o filme (meio ficção) O Amigo do Rei para contar as sacanagens da Vale (Samarco) no processo de Mariana, onde uma barragem se rompeu em 2015.

Fotos: Reproduções do Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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