O aroma, o sabor e a qualidade dos cafés produzidos em assentamentos do MST

Café, pra mim, é bebida fundamental para iniciar cada dia. E também pousa em minha xícara em algumas pausas ao longo da tarde. Desde muito pequena já me inebriava pelo aroma, muito mais do que pelo sabor. Aos poucos fui aprendendo a apreciar as particularidades e a perceber diferenças entre os tipos, muito pragmaticamente, entendendo tudo isso diretamente no paladar.

Já apresentei aqui, neste blog, alguns posts sobre cafés produzidos por cooperativas. Hoje, trago alguns tipos que garimpei na II Feira da Reforma Agrária do MST, que aconteceu em São Paulo na semana passada.

Em quase todas as bancas de assentamentos de todo o país, na feira, o café estava presente. Claro que não consegui trazer todos que encontrei para experimentar, mas me propus a fazer isso com três deles, vindos de lugares diferentes: São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais.

O primeiro, justamente o que provei já na manhã do dia seguinte à minha ida à feira, é de São Paulo. Da cidade de Promissão, onde estão localizados três assentamentos: Reunidas, Dandara e Promissãozinha, com cerca de 250 hectares de terras e mais de 800 famílias trabalhando na produção de alimentos.

O café, moído dias antes da compra, veio embalado num saco plástico simples, acompanhado pelo discurso de ser mais barato do que outros por não ter ‘embalagem cara’. Confesso que esses são os que mais me atraem. Aqueles produtos que não estão ainda voltados para os processos de certificação e, consequentemente, para venda a um público de paladar mais exigente e qualificado. Muitas cooperativas pelo Brasil passam pelo processo de certificação de seus produtos, e entre eles o café, grande parte das vezes mirando a exportação.

Pois o café de Promissão é daqueles muito bons, encorpado, sem os tons que fazem a variedade de cafés para exportação. Nada de rótulo que explique o processo, de onde vem, como é feito, se é forte ou extraforte, se tem notas disso ou daquilo. Encontrei na minha xícara quentinha tudo o que me disseram que aquele café seria: forte, saboroso e encorpado. A acidez existe, mas em pequena quantidade. É um café que me levou de volta à minha infância, quando essa bebida era desde sempre presente, de sabor forte, e muitas vezes comprado de pequenos produtores.

A cidade de Promissão abriga o maior assentamento do estado de São Paulo, e um dos maiores do Brasil: o Reunidas. Localizado na área de uma fazenda desapropriada pelo governo federal em 1986, é organizado em agrovilas, habitadas e cultivadas por mais de 600 famílias. Segundo dados da prefeitura de Promissão, os três assentamentos localizados na cidade, juntos, produzem 20 milhões de litros de leite por mês, 40 mil caixas de legumes/ano, 500 mil sacas de cereais/ano, cinco mil caixas de frutas/mês, toneladas de mandioca/ano, além de uma grande quantidade de legumes como berinjela, pimentão, quiabo, pepino etc.

Espírito Santo e Minas Gerais

Do Espírito Santo, trouxe para casa o café Terra de Sabores. Produzido pela Cooperativa de Beneficiamento, Comercialização e Prestação de Serviços dos Agricultores Assentados, a Coopterra, o café vem do assentamento Vale da Vitória, em São Mateus, envolvendo quase 40 famílias em seu cultivo.

A região tem tradição nas culturas de café e pimenta do reino. Grande parte do café cultivado é da espécie conilon, mais conhecida como variedade robusta. Diferente do arábica, o café produzido a partir desses grãos tem um sabor mais amargo. A espécie é mais rústica e exige menos cuidado no cultivo. Os cafés mais consumidos no Brasil são resultado da mistura dessas duas espécies.

Os assentamentos produzem também boa parte do que as famílias consomem, já que as plantações de café e pimenta do reino – cuja produção é expressiva nessa região – convivem com lavouras de feijão, milho, aipim, frutas e verduras.

Ainda não saboreei o Terra de Sabores. Diferente do café de Promissão, ele já vem acondicionado numa embalagem bem típica para venda de cafés, um pacote prateado com rótulo marrom e informações de procedência, localidade e fabricação. Duas informações se destacam no rótulo, além do nome: produto da reforma agrária e o slogan cultivando vidas.

Descendo um pouco no mapa do Brasil, vem de Minas Gerais o café Guaií, que em guarani significa semente boa. Produzido pela Cooperativa Camponesa (Cooperativa dos Camponeses Sul Mineiros), localizada em Campo do Meio, o cultivo do café é feito de forma agroecológica e orgânica, envolvendo 500 famílias.

O Guaií tem também certificação orgânica e é cultivado em três assentamentos: 1º do Sul, Santo Dias e Nova Conquista. Além do cultivo do café, nos lotes das famílias são também plantados arroz, feijão, milho, frutas como banana, melancia, maracujá, abacate, manga e goiaba, além da produção de leite e verduras. A Cooperativa Camponesa também beneficia alimentos, produzindo uma boa variedade de doces e geleias. Na linha de produtos orgânicos, além do café são oferecidos açúcar, farinhas, feijões, fubá, molho de tomate, pimentas e rapaduras.

A variedade do café Guaií que eu trouxe para casa foi a orgânica 100% arábica. Mas há outros tipos. Ao escolher o pacote para trazer para casa, fui informada que havia ali também a variedade agroecológica – cafés definidos pela Cooperativa Camponesa como sustentáveis e justos – e uma variedade mista, voltada em especial para o mercado nacional. O rótulo desse café traz o selo de certificação orgânica, tem um rótulo mais elaborado, e os tipos são classificados por cores das embalagens.

Ainda não provei o Guaií, mas mesmo devidamente empacotado é possível sentir o aroma do café contido na embalagem. Aliás, em todos os três casos o aroma foi o que me fez optar pela compra.

Independentemente de embalagens, variedades certificadas, se para exportação ou para o mercado brasileiro, todos os cafés são orgânicos, livres de agrotóxicos – como todos os alimentos cultivados em assentamentos do MST. Muitas cooperativas e associações passam do processo de produção similar ao de Promissão – embalado em saco plástico, sem muitas informações ou rótulo -, para uma embalagem com mais informações, como o do assentamento Vale da Vitória e, então, para certificações que abrem o mercado internacional e agregam mais valor ao produto vendido no Brasil, como a Cooperativa Camponesa.

Nesse último caso, os cafés são comercializados a preços mais altos e em quantidade maior, gerando retorno mais potente aos agricultores e agricultoras. No entanto, as certificações não são baratas e exigem um planejamento para serem levadas adiante manter o padrão de produção exigido. E são condição obrigatória para chegar aos mercados internacionais.

Apaixonada por essa bebida aromática e estimulante, não deixo de provar nenhum dos cafés produzidos pelos assentamentos do MST, independente do grau em que estejam nesses processos.

Aqui, em São Paulo, o Armazém do Campo reúne produtos de assentamentos de todo o país. Uma boa oportunidade para provar essa incrível variedade de cafés. E a intenção do MST é criar armazéns assim por todo o Brasil, facilitando o acesso aos produtos de qualidade, saudáveis, livres de agrotóxicos e muito saborosos.

Fotos: Divulgação/MST/Cooperativa Camponesa

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

Um comentário em “O aroma, o sabor e a qualidade dos cafés produzidos em assentamentos do MST

  • 19 de junho de 2017 em 9:39 PM
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    O café Guaií é muito bom. Agora só quero ele.

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