O apocalipse zumbi da Mata Atlântica já começou… e as aves são nossa última esperança

Post 15 - Blog Avoando (autor: Sandro Von Matter)

A origem da palavra zumbi – com o significado conhecido por nós, hoje – é de centenas de anos atrás, na cultura popular haitiana: cadáver reanimado por meio de vários métodos, incluindo rituais mágicos.

Curiosamente, o Brasil teve um papel importante na popularização dos zumbis em histórias de ficção. O primeiro registro escrito da palavra zumbi, na língua inglesa, data de 1819, no livro História do Brasil, escrito pelo poeta inglês Robert Southey. Esta obra que inspirou muitos dos autores das gerações seguintes.

Ophiocordyceps_unilateralisNa natureza, os zumbis são muito reais! Há diversos estudos científicos que descrevem o fenômeno em inúmeras espécies diferentes de animais, inclusive espécies brasileiras.

O estudo Unravelling the diversity behind the Ophiocordyceps unilateralis complex, por exemplo, descreve, como as formigas da tribo Camponotini , que vivem na Amazônia Central, apresentaram comportamento e metabolismo completamente alterados, após serem infectadas por fungos do gênero Ophiocordyceps.

O fungo “força” esses insetos a  abandonar a segurança de suas colônias e escalar arbustos para morrer em áreas mais elevadas. Após a morte, pequenos cogumelos (esporos) emergem de suas cabeças em um local privilegiado para completar, com sucesso, o ciclo reprodutivo do fungo (veja foto ao lado).

Mas repare que, agora, falamos de um outro tipo de zumbificação, de consequências muito mais graves para a humanidade, tão graves quanto se o apocalipse zumbi fictício da série de sucesso Walking Dead (exibida pelo Neftlix), se tornasse real.

Poderiam florestas inteiras transformarem-se em florestas zumbis? E pior: será que nós humanos seríamos capazes de reverter um apocalipse zumbi nas florestas?

Para responder a estas perguntas vamos rever o conceito inicial. Basicamente, zumbis são mortos que agem como se estivessem vivos, certo? Certo. A definição mais simples para seres vivos é que todos eles nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Uma das características comuns de todos estes seres, é a necessidade intrínseca de gerar novos descendentes, mesmo que alguns indivíduos de outra espécie estejam vivos, pois poderão desaparecer a longo prazo.

Justamente por isso, é que espécies com altas taxas de declínio populacional são consideradas ameaçadas de extinção por instituições como a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN – International Union for Conservation of Nature, em inglês).

Assim, mesmo que alguns animais e plantas ainda estejam vivos, na verdade, podem não passar de zumbis vagando aleatoriamente por áreas fragmentadas, fantasmas e sombras de gerações passadas de um tempo em que a dinâmica reprodutiva ocorria normalmente e cujas populações e habitats ainda se encontravam em equilíbrio. Ou seja, estas são espécies cujo destino é incerto.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado de forma semelhante às florestas e demais biomas. Mesmo que grandes áreas naturais sejam consideradas “preservadas”, muitas delas já sofrem um grande impacto ambiental que, embora silencioso, é drástico e desencadeia a extinção, não de espécies, mas de processos ecológicos chave, responsáveis pela resiliência e funcionalidade do ambiente e, cuja ausência pode levar ao colapso completo desse sistema.

Nas palavras de Daniel H. Janzen, um dos mais renomados cientistas da atualidade, “hoje passa desapercebido aos olhos da maioria um tipo muito mais traiçoeiro de extinção: a extinção das interações ecológicas”. Por que isso não é notado? Porque a perda destes processos-chave é muito mais sútil e imperceptível do que a perda de espécies em si. Isso acontece porque seus efeitos levam décadas para serem percebidos. Mas, afinal o que seriam esses processos?

Para exemplificar, vamos comparar um processo ecológico ao funcionamento de um carro. Um automóvel pode se locomover mesmo sem várias de suas peças, mas nenhum automóvel funciona sem o motor, ou melhor, sem uma das peças do motor que é uma pequena câmara de combustão chamada cilindro que transforma o combustível em energia.

As florestas são compostas por centenas de espécies, que assim como as peças de um carro, desempenham milhares de processos. Alguns destes são considerados chave e insubstituíveis para o funcionamento de um bioma.

Entre eles estão a polinização e a dispersão de sementes que já foram profundamente estudados pelos cientistas. Outros, no entanto, não foram sequer descobertos, mas o que é certo é que alguns deles são os pilares de sustentação de todo o ecossistema, onde estão inseridos. Para entender um pouco mais sobre o papel da polinização na reprodução das plantas, assista ao vídeo abaixo, produzido pelo Laboratório de Ecologia e Evolução de Plantas da Universidade de Vigo.

Algumas áreas do bioma Mata Atlântica, se tornaram zumbis

Inúmeras áreas florestais, em especial de alguns dos biomas mais ameaçados do Brasil  como a Mata Atlântica -, já perderam espécies que desempenham processos chave, na maioria responsáveis pela reprodução das plantas e, no consequente equilíbrio do ambiente, se tornaram florestas mutantes que seguem rumo ao apocalipse. A perda de espécies que levam à extinção e à modificação de interações ecológicas, como a dispersão de sementes e a polinização, pode, em um futuro próximo, transformar florestas inteiras em zumbis. Ou seja, aparentemente vivas por fora, mas já parcialmente mortas por dentro.

O problema maior é que, diferente das peças de um carro, espécies que desempenham processos-chave na Mata Atlântica, não foram inventadas por nós humanos e, por isso, elas não vêm de fábrica com manual de instruções. Seria muito mais simples, mas não é assim que a natureza funciona.

Estas espécies evoluíram ao longo de milhares e até milhões de anos. A seleção natural beneficiou aquelas com melhores características para sobreviver e uma das estratégias de maior sucesso, utilizada pelas espécies neste jogo de vida ou morte, é encontrar aliados de interesses mútuos. Estes “aliados” não apenas sobreviveram, mas também evoluíram lado a lado. E, assim, surgiu uma teia complexa e delicada de interações entre espécies.

Cada um dos fios desta teia gigantesca pode ser traduzido como um processo ecológico diferente, alguns deles são vitais para o funcionamento de um ecossistema; outros, ainda não foram sequer descobertos pela ciência. Veja na imagem abaixo, a ilustração de uma rede complexa de interações entre aves e plantas, ilustrada pelo Dr. Pedro Jordano, do qual falo a seguir.

O papel das grandes aves dispersoras de sementes

Para desvendar um dos processos mais importantes para a conservação da Mata Atlântica, integrei um grupo internacional de cientistas liderado por pesquisadores de renome como o Dr. Mauro Galetti e o Dr. Pedro Jordano, dedicado a unir esforços em prol do desafio de entender um dos maiores enigmas deste que é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo e um dos mais ameaçados.

O objetivo principal da pesquisa foi entender como a Mata Atlântica depende das aves para a sua sobrevivência e, como a perda de algumas poucas espécies de grande porte, pode afetar drasticamente este ambiente.

Graças a décadas de dedicação de cada um dos cientistas envolvidos, foi possível construir um banco de dados com mais de 9 mil análises de tamanho de frutos do Palmito-Juçara (Euterpe edulis), de 22 populações diferentes de palmitos ao longo de diversas áreas de Mata Atlântica do país, incluindo sete áreas onde grandes aves frugívoras foram localmente extintas e outras 15 áreas onde estas espécies ainda são abundantes.

Após análise exaustiva, concluída após seis anos de trabalho – da idealização do projeto até sua publicação do estudo em 2013 -, nosso grupo de pesquisadores chegou a uma conclusão alarmante, publicada no artigo Functional Extinction of Birds Drives Rapid Evolutionary Changes in Seed Size, na revista científica Science, considerada a mais importante do mundo, e que resumo a seguir.

Os resultados do estudo demonstraram que a extinção de grandes aves dispersoras de sementes como tucanos, cotingas, jacus, jacutingas e outros cracídeos – após o impacto de eventos como caça e fragmentação -, está diretamente associada à redução do tamanho das sementes de populações de palmito em uma área e, consequentemente, ao posterior sucesso no crescimento e estabelecimento de indivíduos das novas gerações desta, que é, uma espécie-chave e fundamental para a manutenção do equilíbrio na Mata Atlântica.

Surpreendentemente, após a extinção destas aves, alterações drásticas no funcionamento do ecossistema e na biodiversidade do ambiente levaram menos que 75 anos para ocorrer. Mas, na prática, o que isso significa?

Significa que são as aves de grande porte que garantem a manutenção do equilíbrio da Mata Atlântica. São estas aves que se alimentam dos maiores frutos de palmito, selecionando os mais suculentos e, consequentemente, as maiores sementes, aquelas com maiores chances de sobreviver e gerar novos indivíduos que, na idade adulta, poderão produzir com eficiência recursos indispensáveis a milhares de espécies.

Comprovamos que, com a ausência destas aves, o delicado processo de seleção natural é drasticamente alterado. As sementes maiores deixam de ser cuidadosamente selecionadas, sementes menores passam a ser escolhidas e dispersas por aves menores, o que interfere diretamente na sobrevivência das futuras gerações de palmito, assim como na vitalidade e resistência dos novos indivíduos. Como o palmito é uma espécie-chave, qualquer alteração em suas populações leva a mudanças nas populações de dezenas de outras espécies, desencadeando um efeito cascata que afeta toda a complexa rede de interações da floresta.

Para entender um pouco melhor assista ao vídeo abaixo, produzido exclusivamente para explicar o nosso estudo:

A alteração deste processo natural, somado aos intensos períodos de seca – já previstos pelos estudos do Dr. José Marengo, do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, para os próximos anos na América do Sul, através de modelos que estudam as consequências das mudanças climáticas -, poderá ser catastrófico, colocando em risco de extinção não apenas uma espécie-chave atualmente ameaçada, o palmito-juçara, mas também milhares de hectares de florestas do bioma Mata Atlântica.

Mas, atenção! Os resultados de nossa pesquisa não são previsões de um cenário futuro, mas demonstram a realidade que já está acontecendo em centenas de florestas. Muitas destas áreas já perderam as espécies de aves que evoluíram por milhares de anos para desempenhar um papel crucial neste ecossistema e estão, aos poucos, perdendo sua funcionalidade ecológica e se transformando em florestas-zumbi e outras podem estar prestes a ingressar nesse grupo sombrio.

Por isso, da próxima vez que você vir um tucano, um jacu ou, até, uma araponga, lembre-se que você não está olhando apenas para uma ave! Você está definitivamente olhando para o motor responsável pelo funcionamento de um de nossos maiores patrimônios ambientais, um dos hotspots mundiais da biodiversidade (área prioritária para conservação porque tem alta biodiversidade e está ameaçada no mais alto grau) -, decretado como Reserva da Biosfera pela Unesco: a Mata Atlântica.

Apenas a conservação das aves livres na natureza poderá salvar as nossas florestas de um apocalipse digno das grandes produções de Hollywood, cujo final, possivelmente, não será tão romântico quanto aqueles que vemos nos filmes.

Fotos: Sandro Von Matter e David Hughes
Imagem de abertura: ilustrações de Carl Buell e montagem de Sandro Von Matter 

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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