O abacateiro e a farmácia: uma história de resistência

Acordei com o barulho do homem do trator que começava a trabalhar.  Fui ver. A primeira árvore, de muitas do terreno, começava a ser derrubada. A casa da velhinha que morreu aos 90 anos já tinha sido colocada abaixo no mês anterior. Área boa. Terreno de esquina. Perfeito para quê? Adivinha.

Pensou em farmácia? Então. Mais uma (a terceira) num raio de uns dois quarteirões. Não há dúvida que a aposta é também no cliente mais velho, hipertenso, com a glicose lá em cima… Aquele tipo que não aguenta ou não faz muita questão de dar uma caminhada para comprar os remédios de uso contínuo da nossa sociedade medicalizada. Perfis que usam alopatia como panaceia curadora. E nem pensam em mudar o estilo de vida, de alimentação ou tomar remédios alternativos, naturais, tantas vezes, tão eficazes quanto. O melhor é que já foram testados pelos nossos avós.

Não prego aqui a substituição irresponsável por fitoterápicos. Não é isso. Acredito na mudança gradual, na busca de profissionais que pensem outra forma de medicina, mais holística e menos comprometida com a poderosa e inescrupulosa indústria farmacêutica tão próxima também dos psiquiatras.

Vou citar um exemplo de que nem sempre precisamos da alopatia: no dia do trator impiedoso, acordei com dor de garganta. Tomei um concentrado de própolis de duas em duas horas e fiz um gargarejo com água morna e bicarbonato. Ao meio-dia já estava sem dor, mas continuei tomando por garantia.  Também dá para usar o xarope de gengibre da medicina ayurveda, fácil de fazer em casa.

Qual o problema de tentar isso, antes de correr para a farmácia? É barato, sem efeito colateral! A garganta ficou pronta para gritar NÃO, por favor, não derrubem tudo. Mas a máquina continuou. Pé de laranja, de mexerica… Alecrim, manjerona, então, o motorista do trator nem soube que passou por cima.

Nó na garganta foi apertando mais quando a espécie de pá gigante foi chegando devagar perto do abacateiro, que já me proporcionou tanta salada, vitamina e ajudou a reduzir os níveis de cortisol. A  tal da pá – grande mesmo – foi se chegando assim sorrateira, como que arando a terra, limpando o solo… E chegou bem perto do abacateiro. E, de repente, parou. E o homem desligou o trator. E subiu no monstrengo. E o amigo dele trouxe uma sacola. E ele começou a colher mexericas do pé que sobrou ao lado do abacateiro. Abacate não, porque ainda nem sinal deles esse ano. Vai ver que entristeceu com a morte da velhinha, com a derrubada da casa…

Corri lá para baixo para falar com os fulanos. “Oi, amigo! Oi”, gritei do lado de cá do muro.  Tem mexerica aí? Ele veio para mim com o resultado da colheita. Passou a sacola cheia, afastando o tapume mal colocado. E aí eu pude, então, perguntar o que estava preso na minha garganta salva pela própolis. “E as árvores?” Ele respondeu: “Essas não podemos cortar. Meio ambiente não deixou”.

Pulei de felicidade pelo verde salvo e me lembrei do dia em que conversava com o filho da velhinha. Na época, disse a ele para não deixar derrubar o abacateiro, pelo menos. Registrei desanimada o silêncio que ele estabeleceu de imediato, talvez pelo fato de, no fundo, achar que não havia muito a fazer. Havia também a tristeza de ver uma parte da sua história pronta a se desmaterializar no tempo. Nesse nosso tempo que corre, corre e  que parece ter muito mais o que fazer do que dar espaço para árvore… Mas o abacateiro ficou e para mim passou a ser uma obra de resistência na cidade, ao estilo do espetáculo “Resistência”, de Juliana Molla, artista e produtora que vem lá da Bahia para se apresentar, com Priscila Ginna Jörge e Bernardo Santos, em São Paulo.

Resistência” não leva abacateiro para o palco, mas fala de verde o tempo inteiro.  É o espetáculo de formatura de Juliana em direção teatral. Na primeira cena, o vídeo Naturetech, cria a ambientação visual. É um vídeo art produzido por ela em 2014, a partir de fotografias de arbustos urbanos processadas em ambiente virtual.  Diálogo entre natureza e tecnologia.

Reproduzo aqui o texto de Juliana. Ninguém melhor do que ela para falar sobre o espetáculo “Resistência“:

“É um evento cênico que oferece olhar aos elementos oriundos do universo das plantas como uma forma sensível de abordar as relações humanas. Questionamos sobre como se manter e sobreviver à concretude da cidade/metrópole e permanecer com beleza, zelando a integridade, e a sutileza da vida humana, sobretudo, uma atitude coerente e não agressiva com qualquer forma de vida.

O espectador é convidado a testemunhar a temporalidade do ato de resistir através da perspectiva da Planta (sim Juliana coloca Planta com P maiúsculo), e, assim, compreender-se enquanto no tênue e orgânico ciclo da Vida (Vida também maiúscula). O que se revela é uma ação performática onde a resistência e a confiabilidade no Tempo das plantas andam juntas para criação da possibilidade de Existir. Encaramos a resistência das plantas como um ato bravo e persistente, uma alternativa sutil de viver em meio à cidade”.

Maiúsculas para falar do que realmente importa. Para apontar as janelas de escape. Válvulas abertas para fazer jorrar mais oxigênio e menos gás carbônico ou metano, que vai se acumulando, ano após ano, na nossa atmosfera fadada a concentrações poluentes… Tanta gente pouco preocupada com isso…

Tanto faz se mais um pecuarista fake derrubou mais uma parte de floresta e colocou um boi aqui outra lá para reinvidicar a terra… Tanto faz se, em outro canto, tem um monte de vaca arrotando mais metano… Tanto faz se tem carne na mesa menos vezes por semana… Opa, aí não, né?  Por que não?  Já tentou o asvezestarianismo? Assista ao Grego News para entender e tomar para si parte da responsabilidade de fazer desse mundo um lugar melhor.

É mais do que estar em sintonia com a natureza. É buscar forças e inspiração nela. Ver-se reproduzido nela. Ou refleti-la.  Misturar-se. Cair na real, antes que seja tarde. Ser tela para ela, a personagem principal, fonte feita com jeito de eterna para a nossa sobrevivência. Da velhinha que se foi, permaneceu para lembrança material: uma cadeira sem uso que tinha ficado no quintal da outra vizinha e me foi dada por ela quando percebeu que eu gostei tanto… Ela deve ter recolhido no dia da demolição para cuidar da saudade dos dias em que jogava baralho sentada nela.  Mas, aí foi deixando ali ao relento até eu aparecer para levar. Agora, sento na cadeira e imagino como deve ser bom ser mais velha para ter Tempo. Tempo de escolher assistir da janela a vida e o ritmo das árvores que sobram, das poucas pessoas que se deixam aflorar, do bairro que me abriga, tentando crescer um pouquinho ao ritmo da pracinha, da velhinha.

Fotos Resistência: divulgação/Diney Araújo

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Karen Monteiro

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

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