Novo diretor do Serviço Florestal Brasileiro é autor do projeto que libera a caça de animais silvestres

Mais uma vez o governo colocou uma raposa pra tomar conta do galinheiro, em palavras muito simples. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina (a “musa do veneno”) entregou o Serviço Florestal Brasileiro – autarquia que cuida das florestas nacionais e do Cadastro Ambiental Rural – a Valdir Colatto, um dos políticos mais atuantes da bancada ruralista, mas que não conseguiu se reeleger pelo PMDB-SC nas últimas eleições.

Quando deputado federal, redigiu o projeto de lei que libera a caça de animais silvestres no país, proibida desde 1967, e que ainda tramita na Câmara dos Deputados. Foi ele também quem defendeu no Congresso Nacional passar, para os estados, a prerrogativa de estabelecer percentuais de Reserva Legal. Seu currículo não tem nada que o desabone num governo que só visa o desenvolvimento e não preza o meio ambiente, como é o de Bolsonaro e seus ministros.

Mas por que foi Tereza quem o escolheu? Porque o Serviço Florestal foi transferido pelo novo governo da pasta do Meio Ambiente para a da Agricultura, com a MP 870, assim como aconteceu com a Funai, que migrou da pasta do Desenvolvimento para lá também.

Como costuma fazer o presidente, ela anunciou a decisão pela sua conta no Twitter, em 16 de março. Logo em seguida, a assessoria de Colatto divulgou nota à imprensa:

“O deputado federal Valdir Colatto (MDB-SC) informou que recebeu convite da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, para o cargo de diretor geral do Serviço Florestal Brasileiro no dia de hoje (16/1). Colatto cumpriu mandato de deputado federal até o dia 31 de janeiro. Ele acredita que o seu trabalho na criação e aprovação do Novo Código Florestal Brasileiro (12.651/2012), o maior programa de preservação ambiental e reflorestamento do mundo, o credencia para o convite”.

Quanto cinismo! Vale lembrar que a missão do Serviço Florestal é atuar pela recuperação da vegetação nativa e da recomposição florestal, além de regular concessões de áreas de florestas públicas para a exploração sustentável.

Não parece ser essa a expertise do novo diretor do órgão. Em discurso feito no Congresso, no ano passado, ele criticou o percentual de preservação de terras em áreas de fazendas..”No Brasil, 20,5% da área das propriedades são de florestas. O agricultor paga essa conta sem que haja nenhum dividendo com a cidade. Quem é que deixa 20%, 35% ou 40% da sua propriedade, na área urbana, para a preservação do meio ambiente? Só a agricultura brasileira faz isso”. 

Em outro momento, no final de 2018, declarou que o Brasil precisa “refletir”sobre as atuais regras de preservação. “Nós temos que pensar que 66% das florestas no Brasil não são nada se compararmos com as da Europa, que não chega a ter 0,5% de floresta? E eles ainda querem dizer o que devemos fazer aqui? Ora, se quiserem que mantenhamos nossas florestas, que nos paguem com serviços ambientais, como fazem os Estados Unidos e a Europa, onde quem preserva a floresta recebe por isso”, declarou.

Sem técnica, nem dados

O engenheiro florestal Tasso Azevedoque estruturou o Serviço Florestal quando foi criado, em 2006, por meio da Lei de Gestão de Florestas Públicas, e o dirigiu – disse ao site G1, que considera um erro a escolha de Colatto, já que o órgão é técnico. “Todos os dirigentes e funcionários, desde sua criação, em 2006, têm que ter alta capacidade técnica. Foi assim com todos os dirigentes. Se fazia comitê de busca para encontrar os melhores profissionais. O que me espanta é se ter abandonado isso num governo que diz que quer ter gente técnica para trabalhar”.

Tasso também refutou os dados apresentados por Colatto. Disse que a Europa tem muito mais do que 0,5% de cobertura florestal, e há países, como a Finlândia, que ultrapassam 70% do território. “O mundo tem 4 bilhões de hectares de floresta. Ao todo, 3 bilhões são florestas temperadas, ou seja, estão na Europa, Rússia, EUA e Canadá”. Mais: o relatório do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), de 2017, indica que as florestas ocupavam 42% das terras dos países dessa comunidade.

Quanto ao Brasil, Tasso disse que pelo menos 67% do nosso território é ocupado por vegetação, dividido assim: 63% de florestas e 4% de vegetação nativa (campos gaúchos por exemplo). Estes são dados do MapBioma, o maior levantamento sobre cobertura florestal já feito no país, que compreende o período de 1985 a 2017, que Tasso coordena. Mas, se o assunto é vegetação preservada (florestas que não sofreram alteração de 1985 a 2017), a cobertura diminui: passa para 48% de todo o território.

Ou seja, um dos órgãos do governo mais essenciais para a manutenção das florestas em pé está nas mãos de uma pessoa que não preenche as exigências do órgão na sua essência, mas atende aos requisitos definidos pelo atual governo, em prol do agronegócio, da pecuária e da mineração, que só atuam com base na destruição do meio ambiente. E, além disso, quer promover a matança indiscriminada de animais silvestres, para favorecer o lucro de quem atua nesse mercado de sangue.

Leia também:
Contra a caça de animais silvestres: por mais vida e paz em nossas florestas

Fontes: G1, O Eco

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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