“Nos tornamos muito desconectados do mundo natural”, diz Joaquin Phoenix, no Oscar, em mais um discurso inesquecível

"Nos tornamos muito desconectados do mundo natural", diz Joaquin Phoenix, no Oscar, em mais um discurso inesquecível

O ator americano Joaquin Phoenix ganhou todos os principais prêmios do cinema neste começo de ano por sua atuação como o personagem principal do filme Coringa. E em cada uma das celebrações, em que foi escolhido como Melhor Ator, como no Globo de Ouro e no Bafta, ele fez questão de usar a oportunidade para falar de questões sociais e ambientais. O mesmo aconteceu ontem (09/02), quando recebeu o Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Em mais um discurso memorável, Phoenix falou sobre racismo, direitos indígenas, igualdade de gêneros, entre outros temas.

Confira sua fala, na íntegra, abaixo:

“Temos que continuar usando nossa voz para os que não têm voz. Eu tenho pensado muito sobre alguns dos problemas angustiantes que estamos enfrentando coletivamente. Acho que às vezes sentimos, ou fomos feitos para sentir, que defendemos causas diferentes, mas, para mim, vejo um senso comum. Acredito que, se estamos falando de desigualdade de gênero, racismo ou direitos queer, direitos indígenas ou direitos dos animais, estamos falando sobre a luta contra a injustiça. Estamos falando da luta contra a crença de que uma nação, um povo, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar e usar e explorar outra com impunidade.

Nos tornamos muito desconectados do mundo natural e muitos de nós somos culpados por termos uma visão de mundo egocêntrica – a crença de que somos o centro do universo. Entramos no mundo natural e o saqueamos por seus recursos. Temos o direito de inseminar artificialmente uma vaca e, quando ela dá à luz, roubamos seu bebê, mesmo que seus gritos de angústia sejam inconfundíveis. Depois, pegamos o leite dela, destinado ao bezerro, e o colocamos no café e no cereal.

Tememos a ideia de mudança pessoal porque pensamos que temos que sacrificar algo. Mas os seres humanos, no nosso melhor, são tão inventivos, criativos e engenhosos, e acho que quando usamos o amor e a compaixão como nossos princípios orientadores, podemos criar, desenvolver e implementar sistemas de mudança que são benéficos para todos os seres sencientes e o ambiente.

Eu fui um canalha em diversos momentos da minha vida. Eu fui egoísta. Fui cruel às vezes, difícil de trabalhar e ingrato, mas muitos de vocês nesta sala me deram uma segunda chance. E acho que é quando estamos no nosso melhor, quando nos apoiamos, não quando nos anulamos por erros passados, mas quando nos ajudamos a crescer, quando nos educamos, quando nos orientamos para redenção. Esse é o melhor da comunidade.

Quando meu irmão tinha 17 anos, ele escreveu essa frase ‘Corra para o resgate com amor e a paz seguirá'”.

O irmão a que ele se referiu é River Phoenix, que também foi ator e um defensor dos animais. Morto em 1993, aos 23 anos, era considerado um dos mais talentosos de sua geração.

Depois de anos tendo uma fama de “ator problema”, como Joaquin Phoenix tem admitido há algum tempo, ele tornou-se um ativista, assim como o irmão. É vegetariano e constantemente usa sua fama para falar sobre assuntos vitais, como a crise climática. Em janeiro, foi detido pela polícia, em Washington D.C., ao participar de um protesto, junto com Jane Fonda, contra as mudanças climáticas.

Diversos outros atores e apresentadores do Oscar 2020 também aproveitaram a festa para mostrar sua indignação pela falta de nomeações a mulheres e negros (leia mais aqui).

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Foto: divulgação Oscar 2020/reprodução oscar.go.com

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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