Em exposição pela Consciência Negra, na Câmara, deputado policial quebra placa que denuncia racismo e violência

Atualizado em 21/11/2019
Ontem, dia da Consciência Negra, a placa com a charge de Latuff, quebrada pelo deputado federal Coronel Tadeus (PSL/SP) voltou à exposição, na Câmara dos Deputados. A recolocação foi autorizada por Rodrigo Maia (DEM/RJ), presidente da Casa, após reuniões (separadas) com a bancada dos parlamentares policiais, militares e simpatizantes ao armamento e com a bancada de parlamentares negros. Mas a placa não voltou só. A ela foi anexado um aviso que atende às reclamações dos apoiadores do coronel: “A Bancada Negra sabe que essa charge não representa toda a corporação e respeita os policiais que não corroboram para essas estatísticas e trabalham em prol do povo brasileiro”. Em tempos sombrios como o que vivemos no país, é preciso explicar tudo. Uma pena porque a arte não carece de legenda e é um instrumento poderoso para promover reflexões, debates e entendimentos a respeito de qualquer tema.
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Inadmissível que uma pessoa se sinta no direito de destruir uma obra artística exposta num espaço público apenas por não concordar com o que ela expressa. Mas o que aconteceu ontem, no Congresso Nacional, foi muito mais do que isso. Num rompante, o deputado federal Coronel Tadeus (PSL/SP), que é policial militar, arrancou da parede e quebrou o quadro do chargista Carlos Latuff, que faz parte de exposição que celebração o mês da Consciência Negra na Câmara dos Deputados e denuncia a violência policial contra os negros.

O cartaz é ilustrado pela ilustração acima (destaque), que mostra um policial armado se afastando de um rapaz negro algemado, caído no chão, morto, usando a camisa do Brasil. Logo abaixo, o título “O genocídio da população negra” e um texto sobre o tema. Quem conhece o trabalho de Latuff sabe que ele usa seu talento para denunciar situações de opressão vividas por pobres, não só no Brasil. Ele é um cartunista político, que Já foi censurado inúmeras vezes, mas não com tanta repercussão.

Questionado pelos parlamentares presentes indignados com sua atitude, o deputado disse que não agrediu ninguém, não se arrepende do que fez e ainda ameaçou: caso a charge volte a integrar a exposição, o fará novamente porque a considera uma ofensa aos policiais militares.

Ele precisa se informar melhor. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2017 e 2018, 75,4% das pessoas vítimas fatais em intervenções policiais eram negras, num país que registra 57 mil homicídios por ano. Negros são dez vezes mais vítimas de violência do que brancos. No caso das mulheres, 66% das vítimas de violência letal são negras, e 70% das que sofrem estupros, agressões e assédios também.

O deputado Coronel Tadeu é um homem branco, que, como parlamentar – representante do povo, certo? -, deveria respeitar todos os brasileiros, mas é incapaz de enxergar a realidade do país. Ele não só extrapolou o poder que lhe foi conferido nas urnas. Foi injusto, violento e desrespeitou a liberdade de expressão. Também foi racista, confirmando a mensagem da charge e da exposição: o racismo contra a população negra é estrutural e deve ser combatido, todos os dias, em todos os lugares.

O deputado deve ser advertido e punido. E o quadro de Latuff deve voltar à exposição. Caso isso não aconteça rapidamente, abrirá precedentes terríveis no Congresso – onde o ambiente vive tenso devido ao cenário promovido pelo governo, com o apoio de diversas bancadas, e a luta da oposição para barrar projetos truculentos e injustos propostos por essas bancadas – e, por consequência, no país.

Ao jornal Folha de São Paulo, Latuff disse que “Ele simplesmente passou recibo. A reação comprovou que a charge está correta, que aquela exposição precisava estar ali. Essa charge está cumprindo um papel importante”.

O artista também se pronunciou em seu Instagram: “O mínimo que se espera do Congresso Nacional na pessoa do seu presidente sr. Rodrigo Maia (nota da redação: ele é presidente da Câmara dos Deputados), é de que essa charge retorne à exposição a qual ela pertence. Se isso não acontecer, a Câmara estará sinalizando para a sociedade que esse tipo de atitude truculenta e violenta por parte de um policial deputado é bem vinda, aceitável, que não existe decoro, não existe respeito por opiniões diversas. A censura estará institucionalizada no Congresso Nacional. Então, se houver o mínimo de juízo por parte do Rodrigo Maia, essa charge volta intacta para a exposição e ficará lá o tempo que for necessário no mês da Consciência Negra”.

Ele tem razão. É preciso repelir e contestar atitudes como a do deputado em qualquer ambiente, do contrário, o racismo e a violência continuarão se reproduzindo e ganhando força. Se tornará natural. Quando soube que o deputado é do PSL, não fiquei surpresa porque espero qualquer coisa dos membros desse partido, com o qual Bolsonaro se elegeu.

Rodrigo Maia lamenta, mas não pune

Antes de seguirem para o plenário da Câmara, parlamentares da oposição chamaram a polícia legislativa para denunciar o deputado. Em sessão, anunciaram que a esvaziariam em protesto contra o ocorrido. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) lamentou a violência e ponderou: “Hoje é um dia em que nós deveríamos estar defendendo a inclusão dos negros na política, em igualdade e oportunidade, e não agredindo cartaz que pode, inclusive, ser injusto com parte da polícia, mas isso nós deveríamos ter resolvido com diálogo e não com agressão”.

Maia lamentou a agressão chamando-a de “muito grave” e disse que “numa democracia, num país livre, não é porque nós divergimos da posição da outra pessoa que nós devemos agredi-la verbalmente, fisicamente ou retirar de forma violenta uma peça de uma exposição que foi autorizada pela presidência da Câmara”. Ponderou: “Hoje, aconteceu com a exposição sobre a Consciência Negra, amanhã pode acontecer com aqueles que riram aqui, achando que estão defendendo o coronel Tadeu”.

O parlamentar destacou que “Hoje é um dia em que deveríamos estar defendendo a inclusão dos negros na política, a igualdade de oportunidades, e não agredindo um cartaz que pode, inclusive, ser injusto com parte da polícia, mas isso nós deveríamos ter resolvido com diálogo, não com agressão”. E acrescentou: “Espero que um ato como esse, certamente impensado, num momento de mais nervosismo do deputado, não se repita porque isso não é bom para uma casa que pretende representar todos os brasileiros e não apenas uma parte da sociedade brasileira”.   

Questionado sobre a autorização de exibição da obra de Latuff, Maia disse que a diretoria da Câmara deveria analisar a peça para decidir se ela realmente fere suscetibilidades. O deputado agressor, que acompanhou a declaração de Maia a seu lado, se justificou: “Estava passando pelo corredor quando me deparei inicialmente com uma bela exposição sobre o racismo. E quero aqui deixar bem claro que tenho muitos amigos negros, amigos de verdade, mas infelizmente, no trajeto me deparei com um cartaz ofensivo à corporação a qual pertenço que é a Polícia Militar”.

Para ele, isso era motivo suficiente para se descontrolar. “Quem sabe não tivesse sido naquele momento a melhor forma de se tratar aquela agressão. Ai, eu endosso as palavras do presidente Maia, mas eu retirei, retirei em nome de 600 mil profissionais de segurança que socorrem vocês 24 horas por dia”. E ainda pediu aos colegas: “Espero que os senhores até reflitam sobre a minha atitude, mas principalmente coloquem-se na minha posição”.

E claro que teve apoiadores. Um deles foi o deputado Daniel Silveira (PSL/RJ), que argumentou a favor do coronel com mentiras, pra não variar. “Alguns vão à mídia para falar que acham que o negro morre porque ele é negro. Ele morre, porque sustenta um fuzil”. Vale lembrar que Silveira ficou “famoso” ao quebrar uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, na época das eleições, ao lado de Wilson Witzel (PSC), governador do Rio de Janeiro. Marielle lutava pelos direitos humanos e contra o racismo e foi assassinada por milicianos.

“A violência de rasgar uma obra de uma exposição dentro do Congresso é compatível com a violência que se vê nas periferias e favelas por parte do Estado”, ressaltou Marcelo Freixo (PSOL/RJ) que ainda lembrou que, esta semana, a Polícia Civil do Rio de Janeiro confirmou que a menina Agatha, de 8 anos, foi assassinada pela polícia.

Parlamentares da oposição afirmaram que vão entrar com representações no Conselho de Ética contra o deputado federal Coronel Tadeu.

O dia da Consciência Negraque é também de Zumbi dos Palmares e se estende pelo mês de novembro – é uma oportunidade preciosa para refletirmos sobre as manifestações do racismo em nossa sociedade, que, em geral, a esconde ou naturaliza. Precisamos impedir que ele se espalhe. Podemos restringi-lo, reduzi-lo, e uma forma de conter o racismo é valorizando a cultura e a identidade afro-brasileiras e a história verdadeira dos negros.

Aguardamos justiça, Rodrigo Maia.

Ilustração: Carlos Latuff

Amazônia Real

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