No meio do caminho havia muitas pedras

Quando a gente entra em férias e visita um lugar novo na natureza, muitas vezes é tomada pelo desejo de conhecer e explorar ao máximo a região. A gente se planeja para poder ter um intenso contato com aquela natureza toda que nos aguarda. Isso é muito legal mesmo: desvendar novas paisagens, conhecer diferentes cachoeiras, praias, explorar muitas possibilidades. Mas e as crianças, será que sentem da mesma forma?

Nas últimas férias, fui visitar o Parque Nacional de Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, estado do Rio de Janeiro. Trata-se da primeira Unidade de Conservação do país (criada em 1937) e conta com cerca de 30 mil hectares de mata atlântica, onde brotam afluentes de importantes rios (Rio Grande e Paraíba do Sul), que descem pelas montanhas formando belíssimas corredeiras e quedas d’água pelo caminho.

Alugamos uma casa que ficava bem próxima ao rio Campo Belo. Nosso grupo tinha seis crianças curiosas e ansiosas por aventuras. Antes de chegarmos lá pensamos toda uma programação. Porém, quando chegamos o tempo estava bastante chuvoso e por isso, fomos desistindo de alguns passeios. Nos intervalos da chuva, quando o tempo abria um pouco, aproveitávamos para ir aos poços no rio próximo à nossa casa. Foi essa a oportunidade que tive para perceber o quanto é importante para a criança essa intimidade com o lugar onde ela está.

Para minha filha menor, andar pelas pedras no rio era uma experiência bastante nova. Subir o rio pelas pedras é um desafio e tanto: é preciso usar pés e mãos para se equilibrar, ter atenção às pedras soltas no caminho, é necessário olhar para frente e planejar sua rota para que você encontre os percursos onde é possível passar de uma pedra a outra sem cair no rio. É preciso sentir o rio, onde ele flui mais fraco ou mais forte, avaliar o tamanho do risco de se machucar ou de o rio te levar caso você caia.

A primeira vez que minha filha (6 anos) percorreu o caminho de cerca de 50 metros até o pocinho onde gostávamos de nadar, ela ficou toda desajeitada e com muito medo. Era tudo novo: a água gelada, a irregularidade das pedras, a correnteza do rio. Ela segurava firme em minha mão com aquela cara de “pega na minha e não solta”, mas, aos poucos, a ajudamos a entender que as mãos dela poderiam auxiliar o corpo a passar pelos caminhos mais desafiadores, assim como fazem os ágeis animais de quatro patas. Fomos localizando no caminho as pedras que estavam soltas e ela, pouco a pouco, foi se acostumando ao trajeto, embora ainda fosse pedir demais para que ela nadasse nas águas gélidas do rio.

Foi bonito ver que, a cada dia que íamos ao rio ela se apropriava mais desse percurso, ousando mais, reconhecendo as rotas melhores, dominando os recursos do próprio corpo e aprendendo novos pontos de equilíbrio para melhor realizar a travessia. Ao final de cinco dias, eu a assisti emocionada vir ao meu encontro sozinha, atravessando todas as pedras no caminho e, por fim, mergulhando e nadando na água gelada com satisfação.

Ficou para mim o aprendizado: a relação da criança com a natureza precisa de espaço, tempo e muita intimidade.

Foto: Marina Weis

Paula Mendonça

Mestre em educação pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre infância indígena. Atuou cerca de 10 anos no Parque do Xingu por meio do Instituto Socioambiental. É co-diretora do curta metragem Waapa, realizado em parceria com o Projeto Território do Brincar. É assessora pedagógica do Programa Criança e Natureza do Alana. Mãe da Nina e Luana.

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