Negócios inclusivos e que valorizam a floresta em pé crescem na Amazônia

O mundo dos negócios de impacto social e/ou ambiental tem me interessado cada vez mais. Em especial na Amazônia, onde esses negócios têm aumentado e tenho tido a oportunidade de acompanhar esse processo bem de perto.

Tem bastante gente pensando e implementando soluções para um desenvolvimento mais sustentável para a região. São negócios que trazem em suas propostas, além do lucro, a inclusão de populações amazônidas e a preservação da biodiversidade.

Este ano, o Programa de Aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) acelerou 15 negócios desse tipo, sobre os quais eu já escrevi aqui no Conexão. E agora acabam de ser selecionados outros 15, para participarem do Programa em 2020.

A variedade de soluções apresentadas por esses empreendedores não deixa de me surpreender. Tem solução pra logística e transporte, valorização dos sabores amazônicos, da cultura e fazeres de suas comunidades tradicionais, educação, extrativismo, agricultura, energia solar, turismo de base comunitária, dentre muitas outras.

Com os empreendedores acelerados em 2019, descobri muitos sabores e saberes sobre aquela região tão mágica do país. Que sofre com os desmatamentos e as queimadas, e cujos povos resistem à pressão desse ‘desenvolvimento’ que devora vorazmente terras, biodiversidade, minerais, gado e vidas. Como se ainda colônia fôssemos.

A Amazônia requer outros modos. Outras lidas que percebam o valor da biodiversidade da floresta e a riqueza dos saberes ancestrais de seus povos. Que façam florescer um novo desenvolvimento.

Outros modelos de desenvolvimento

Esses negócios de impacto são parte desse caminho pelo modo como se estruturam, como cuidam do meio ambiente e das pessoas que habitam a floresta. Seja promovendo cursos em que a Amazônia é ponto de partida para difundir e discutir sustentabilidade, tecnologia, conservação do meio ambiente e desenvolvimento econômico, com expedições pela floresta, como no caso da Academia Amazônia Ensina (Manaus, AM), um dos negócios selecionados para aceleração em 2020.

Ou ainda com o turismo de experiência das Serras Guerreiras de Tapuruquara (Santa Isabel do Rio Negro, AM), empreendimento que atua em 13 comunidades indígenas na região do município de Santa Isabel do Rio Negro, norte do Amazonas, em projeto gerido pela Associação de Comunidades Indígenas e Ribeirinhas.

A valorização do cacau amazônico, que também vem ganhando terreno, está presente entre os negócios que serão acelerados pela PPA em 2020: a Cacauway (Medicilândia, PA), iniciativa da Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica, formada por um grupo de produtores de cacau, quebra o paradigma de ser fornecedora de matéria prima, sendo a única, dentre as indústrias da região, liderada por uma cooperativa.

Também tendo o cacau em seu centro, a empresa Na Floresta Alimentos Amazônicos (Manaus, AM) produz chocolate amazônico a partir dessa matéria-prima comprada junto a comunidades extrativistas nos rios Madeira e Amazonas, com a preocupação de preserva a floresta e remunerar de maneira justa os ribeirinhos que fornecem o cacau.

As cooperativas extrativistas estão entre iniciativas selecionadas pela PPA que promovem a valorização da biodiversidade e ao mesmo tempo geram renda para seus integrantes. A CODAEMJCooperativa de Desenvolvimento Agroextrativista e de Energia do Médio Juruá (Carauari, AM) produz, vende e entrega óleos de sementes de andiroba, murumuru e ucuuba para a indústria de cosméticos.

A COEX Carajás Cooperativa dos Extrativistas da Flona de Carajás (Parauapebas, PA) atua na Floresta Nacional de Carajás fazendo a extração sustentável das folhas do jaborandi, matéria-prima para produtos farmacêuticos, e comercializa sementes de outras espécies.

Soluções diversificadas

E assim muitos outros negócios de impacto selecionados para o Programa de Aceleração da PPA em 2020 – cuja intenção é proporcionar acesso a formações e mentorias que ajudem a estruturar essas iniciativas para torná-las mais resilientes e dar ainda mais materialidade a seus objetivos – se erguem em áreas de atuação das mais diversas.

Como o caso da Pratika Engenharia (Manaus, AM), organização que busca reduzir impactos ambientais de painéis solares para produção de energia elétrica em comunidades indígenas e quilombolas na Calha Norte do Estado do Pará, substituindo o poluente gerador a diesel, alternativa mais comum nos lugares em que a energia distribuída não chega.

Na área de produção agrícola, a ManejeBem (Florianópolis, SC) oferece soluções para o desenvolvimento por meio de uma plataforma de coleta de dados e diagnósticos voltados ao produtor familiar, fornecendo apoio técnico em manejo, escala de produção e uso de técnicas sustentáveis.

Já o Instituto Ouro Verde (Alta Floresta, MT) auxilia pequenos agricultores familiares criando uma rede de atuação em estilo de associação e facilitando o acesso a recursos para restauração de áreas degradadas e transição agroecológica dos sistemas de produção de alimentos, aproximando consumidores e produtores.

Para a logística, ponto tão complexo quando se trata da Amazônia – sobre o qual já escrevi no Conexão Planeta -, a NavegAM (Manaus, AM), startup de tecnologia promove vendas de passagens e transporte de cargas fluviais online, além de serviço de acompanhamento logístico rodoviário e fluvial na Amazônia. Sua plataforma online permite ainda a gestão de serviços e operações financeiras de transportadores e clientes locais. A proposta é reduzir custos e democratizar o transporte de passageiros e cargas na Amazônia.

Integram ainda a turma de negócios acelerados em 2020 a Nossa Fruits, de Curralinho, PA (exportadora de açaí que busca estruturar sua cadeia produtiva na Amazônia, de modo a garantir 100% da matéria prima de origem orgânica e produzida por comunidades de forma sustentável e com relações de comércio justa); e a OKA, de Ananindeua, PA (empresa que trabalha com produção de sucos e néctares de frutas nativas da Amazônia, pensando todo o ciclo produtivo de modo sustentável para gerar o mínimo de impactos ambientais negativos).

A ONF Brasil Fazenda São Nicolau (Cotriguaçu, MT) oferece créditos de carbono da área de reflorestamento e produtor procedentes da integração entre agricultura, pecuária e floresta, como gado, café, cacau, urucum, castanha e madeira de teca e de árvores nativas de manejo sustentável, ecoturismo e mudas florestais e frutíferas).

Finalizando a lista dos 15 negócios de impacto, figuram duas iniciativas do Rio de Janeiro: a Tucum – que tem como missão valorizar e promover a arte das populações indígenas e tradicionais do Brasil, gerando renda para suas comunidades, e a Taberna da Amazônia – que atua na criação de elos mais curtos na cadeia de produção e vínculos mais diretos entre pequenos produtores da região Norte e os consumidores do Sudeste, de modo direto ou por meio da participação em feiras de alimento. Eu mesma já encontrei produtos comercializados pela Taberna da Amazônia em feiras do Jardim Secreto, aqui em São Paulo.

Iniciativas se multiplicam

E você pode estar se perguntando porque negócios localizados em outras regiões do Brasil estão entre os selecionados para aceleração em 2020 pela PPA. O edital de chamamento de negócios interessados em participar do Programa de Aceleração trouxe essa possibilidade, contanto que as empresas selecionadas se comprometessem a abrir endereço na região Norte em até seis meses após o início do Programa. Na prática, essas empresas já trabalham com a Amazônia e suas populações.

Como essas iniciativas, existem muitas outras em desenho, prototipagem ou mesmo rodando como negócio na Amazônia. Para chegar a esses 15 negócios que vão ser acelerados em 2020, a PPA teve que escolher entre 201 iniciativas inscritas!

As novas gerações vão se comprometendo com outros modelos de desenvolvimento, certas da importância e do valor da biodiversidade e dos saberes das comunidades que habitam a floresta. Manter a Amazônia de pé passa por fomentar cadeias de valor, proporcionar novos modos de produção e oportunidades para que haja geração de renda para suas populações, uma vida mais digna e a certeza, na prática, de que a floresta vale mais de pé do que no chão no dia a dia dessas comunidades.

Que tal conhecer melhor esses negócios? Deixo aqui esse convite, para que você acompanhe aqui, nos próximos meses, como eles funcionam, quais suas motivações, missões, impacto social e ambiental e muito mais.

Foto: Rodrigo Kugnharski/Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

Deixe uma resposta