Negócios de impacto na Amazônia ganham programa de aceleração

A partir de 18 de fevereiro, tem início em Manaus o Programa de Aceleração de Negócios de Impacto da Plataforma Parceiros Pela Amazônia. Ao todo, 15 negócios, que oferecem soluções sustentáveis para questões sociais e/ou ambientais, em áreas diversas como gastronomia, resíduos sólidos, piscicultura, artesanato, agricultura, extrativismo e robótica, participam do Programa que segue ao longo do ano.

Esses 15 negócios, que podem ser genericamente chamados de startups, foram selecionados por meio de uma Chamada de Negócios de Impacto, realizada pela Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) em 2018, dentre 81 iniciativas inscritas.

O Programa, coordenado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam) com apoio da USAID e CIAT e parceria de diversas outras instituições, vai ajudar os negócios a alcançarem novos estágios de desenvolvimento, contribuindo para ampliar sua capacidade de gerar impacto socioambiental positivo na Amazônia. Para atingir esses objetivos, serão disponibilizados serviços de apoio e acompanhamento, mentorias, workshops temáticos, suporte jurídico e contábil, bolsas de estudo, ferramentas de gestão, dentre outros benefícios.

Os formatos e os estágios dos negócios são variados. Microempreendedores individuais, sociedades limitadas, cooperativas estarão juntos trocando também experiências no avanço de suas startups.

Algumas delas eu já apresentei aqui, no Conexão Planeta, como o Chocolate De Mendes, a Onisafra e a Manioca. O que elas têm em comum é exatamente o fato de oferecer soluções a algum problema/questão social e/ou ambiental e propor novos modelos de desenvolvimento, mais adequados para a Amazônia. Isso inclui ampliar renda de populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas; valorizar as chamadas tecnologias sociais da floresta; criar canais de comercialização de artesanato e produtos produzidos por essas comunidades; valorizar e disseminar os sabores amazônicos, e com isso colaborar para a conservação; tornar a criação de peixes mais econômica para os pequenos produtores; estreitar os canais entre consumidores e agricultores familiar; usar a robótica e a programação para reduzir o êxodo rural; promover e fomentar a agroecologia; reaproveitar resíduos que seriam descartados no lixo, reintegrando-os em ciclos produtivos, e por aí vai.

A riqueza desses negócios vem justamente da valorização da sustentabilidade e dos povos amazônicos, o que é sinônimo de manter a floresta em pé.

“Estamos muito empolgados com o início do nosso Programa de Aceleração de Negócios. A proposta é apoiar, ao máximo,  o desenvolvimento das startups ao longo dos próximos 12 meses. Toda a estrutura de conteúdo foi construída de forma customizada e sob medida de acordo com as demandas levantadas por cada uma das startups participantes” destaca Mariano Cenamo, Coordenador Executivo da PPA e um dos idealizadores do Programa.

Esse primeiro encontro dos negócios, que acontece de 18 a 20 de fevereiro, vai conectá-los, apresentar a estrutura do Programa e promover uma oficina de dois dias para apoiar a construção e aprimoramento dos modelos de negócio e indicadores de impacto. A oficina será facilitada pela Sense-Lab e pela Move Social, parceiros do Programa e idealizadores do Modelo C para negócios de impacto.

Como negócios, é importante que essas startups consigam ter claro o impacto que desejam causar e desenhem indicadores para medir e monitorar esse avanço. Em especial para atrair potenciais investidores.

Outro ponto bacana do Programa é que as mentorias vão conectar os empreendedores que estão começando a concepção de seus negócios a executivos já bem estabelecidos, integrantes das empresas membro da PPA. “Nós acreditamos que a interação e troca de experiências entre empresas de diferentes perfis podem gerar aprendizados, recomendações e contatos que serão fundamentais para o desenvolvimento das startups”, destaca a economista Ana Carolina Bastida, integrante da equipe de coordenação do Programa de Aceleração.

Um dos negócios que participará do Programa é o Encauchados de Vegetais da Amazônia. A ideia veio da desvalorização e desmonte do mercado da borracha na Amazônia, processo que deixou os seringueiros sem apoio, forçando-os, muitas vezes, a migrar para periferias de cidades ou desmatar terras para criação de bois. Francisco Samonek, fundador do Encauchados, iniciou o projeto no Acre, com o chamado couro ecológico, e aos poucos o negócio, que recupera a técnica indígena de fabricação da borracha incrementando-a com outros processos, tornou-se uma tecnologia social.

Por meio do extrativismo sustentável orgânico do látex nativo, envolvendo 75 comunidades extrativistas, trabalhando com povos indígenas, seringueiros, ribeirinhos, quilombolas e assentados da reforma agrária, são produzidos chinelos orgânicos de borracha nativa e fibras vegetais, além de utensílios, biojóias, acessórios e embalagens.

Os produtos do Encauchados estão presente em mais de 20 pontos de venda em Belém, Recife, Belo Horizonte, Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, o negócio está em fase de captação para ampliação da indústria e implantação de unidades financeiras de produção controladas (extrativismo sustentável). E mira também o mercado externo.

“Esperamos que o Programa de Aceleração nos ajude a conseguir uma gestão mais profissional do negócio, a escalonar a produção e atingir o mercado externo”, diz Francisco.

A Cooperativa de Criadores de Abelhas Indígenas do Amazonas (Coopmel), que reúne mais de 60 famílias envolvidas com a produção de mel de abelhas sem ferrão, pretende aumentar a produção, difundir conhecimento sobre a colonização dessas abelhas e ajudar na conservação da floresta e no aumento da renda das famílias. Além disso, o grupo busca conseguir certificações para venda fora do estado de produção, o Amazonas.

“Espero que o Programa de Aceleração nos ajude no melhoramento da gestão da cooperativa e dos serviços de contabilidade, e na divulgação do produto. Queremos ser referência na produção do mel de abelhas sem ferrão”, diz Jair Arruda, presidente da Cooperativa.

Vou acompanhar esse processo e em breve trarei mais informações sobre esses negócios amazônicos! Enquanto isso, para conhecer um pouco mais sobre o ambiente dos negócios de impacto na Amazônia, acesse o site do Fórum de Investimento de Impacto e Negócios Sustentáveis na Amazônia, realizado no fim de 2018 em Manaus.

Fotos: Divulgação Encauchados e Coopmel

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

Um comentário em “Negócios de impacto na Amazônia ganham programa de aceleração

  • 13 de fevereiro de 2019 em 2:07 PM
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    Tomara forças contrárias não impeçam isso, como tem acontecido com aqueles que nao apenas tapam os próprios ouvidos e olhos, preferindo não ouvir nem ver o óbvio ululante, mas o que é pior, impedem que os outros ouçam e vejam. Aché para os teimosos que, apesar da oposição, jamais desistem.

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