Negócios de impacto ajudam a transformar desenvolvimento predatório na Amazônia

É saboreando algumas xícaras do Café Agroflorestal Apuí que começo o post de hoje.

Estive em Manaus para participar do 1º Fórum de Investimento de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), que aconteceu nos dias 13 e 14 de novembro e reuniu centenas de empreendedores, investidores, empresas, organizações da sociedade civil, institutos, fundações e demais atores envolvidos com o campo dos negócios de impacto em uma programação que buscou apontar caminhos para o fomento e o desenvolvimento de negócios sustentáveis na região.

Sabe aquele tipo de negócio que mantém a floresta em pé, valoriza a sociobiodiversidade amazônica, inclui comunidades tradicionais, populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas e pratica o preço justo remunerando adequadamente todos os que estão envolvidos no processo e traz inovação? É disso que estou falando, aqui.

Uma chamada de negócios de impacto realizada este ano pela Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) mapeou 81 negócios desse tipo na região, nas mais diversas áreas: tecnologia verde ligada à promoção de agricultura e pecuária sustentável, manejo florestal sustentável e valorização dos produtos da sociobiodiversidade, combate ao tráfico de animais e à exploração madeireira ilegal, além de projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Destes, 15 foram selecionados como finalistas, dos quais alguns apresentaram seus negócios a investidores e outros participaram de uma rodada de negócios durante o FIINSA.

Ao todo, foram investidos mais R$ 1 milhão em startups, negócios de base comunitária e empresas com impacto socioambiental. Quatro negócios em estágio mais avançado, que buscavam investimentos para expansão e ganho de escala, receberam R$1,1 milhão por meio de uma rodada de negócios em estilo shark tank.

Os outros empreendedores finalistas ganharam a oportunidade de participar do Programa de Incubação e Aceleração da PPA e concorreram ao Prêmio Empreendedor PPA 2018. Durante o FIINSA, eles apresentaram seus negócios a uma banca de especialistas, que selecionou as melhores iniciativas. Quatro deles receberam o Prêmio, totalizando R$ 60 mil.

Na abertura do FIINSA, o pesquisador sênior do Idesam e coordenador da PPA, Mariano Cenamo, apontou um dos valores que deve nortear esse movimento de busca de novos modelos de desenvolvimento para a Amazônia: não é possível proteger a floresta sem melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Já apresentei dois negócios amazônicos aqui no Conexão Planeta – Onisafra e Chocolates De Mendes. Durante o Fórum, conheci mais alguns, que vou trazer em outros posts. Um deles é a delícia que segue abaixo.

Puro, selvagem e delicioso chocolate amazônico

O chocolate amazônico Na’Kau é outro produto a exaltar a origem e a movimentar uma cadeia produtiva, desta vez a partir do fornecimento do cacau de várzea do Amazonas. O negócio remunera até três vezes melhor do que o mercado os 17 extrativistas que fornecem o fruto. Esses extrativistas estão distribuídos em seis municípios ao longo da calha do rio Madeira.

O chocolate foi lançado em 2017 e além das variedades com variações do percentual de cacau, conta ainda com a linha Parcerias Sustentáveis, com versões que misturam ao chocolate alimentos regionais, como o Café Agroflorestal Apuí, a pimenta Baniwa, o cupuaçu e as castanhas. Traz ainda o selo Origens Brasil, do Imaflora, que atesta o respeito aos territórios de diversidade socioambiental.

“O grande diferencial é a gente pagar mais por esse cacau e, assim, influenciar na conservação da floresta. Se o extrativista ganha melhor, diminui o seu interesse em desmatar. Muitos outros querem fornecer o cacau para a nossa fabricação de chocolate, mas não conseguimos comprar ainda. Estamos modelando um negócio para buscar mercado, vender para outras pessoas que querem comprar. Há muita procura por cacau no mundo, e vamos nos organizar para atender essa demanda”, diz Artur Coimbra, empreendedor da Na’kau.

As embalagens do chocolate são um capítulo à parte. Trazem as etapas do processo de preparação do chocolate desde a colheita e os rostos e nomes dos extrativistas fornecedores do cacau. É possível conhecer todas as pessoas envolvidas no caminho percorrido até chegar na saborosa barrinha.

Leandro Oliveira, funcionário da Na’Kau, é filho de extrativista. Natural de Lábrea, no Amazonas, conhece de perto a realidade dos ribeirinhos. “Meu pai foi extrativista a vida toda, de castanha, borracha, e também produzia farinha de mandioca. Quando ele faleceu, deixei o campo e fui para a cidade. Meu pai morreu com dívidas. Nós trabalhávamos de modo sustentável, e quando íamos vender a castanha, o preço que saía para o consumidor final era mil vezes o valor que vendíamos para o revendedor. A Na’kau tem um diferencial. Eu percebo que a gente está trabalhando para não acontecer o que aconteceu comigo, de a pessoa ter que abandonar o serviço e vir para a cidade. Precisamos do produtor, do trabalho dessas pessoas. Conhecendo essa situação, é fácil defender a causa. ”

O chocolate é vendido no Amazonas, Pará, Rio de Janeiro, Distrito Federal, aqui em São Paulo (no Instituto Chão e no Mercado de Pinheiros, no box do Instituto ATÁ), nos Estados Unidos e no Japão.

Na foto de destaque deste post, um dos fornecedores de cacau, o senhor Edmilson Lagos e seus netos.

Foto: divulgação Na’Kau 

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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