Natureza, o melhor lugar para o aprendizado das crianças

Você – educadora, educador, mãe ou pai – já parou para observar quanto de espaço natural existe na escola de seu convívio? Se você trabalha em uma escola convidamos você a olhar para esses espaços à procura de natureza. Se apenas a frequenta quando tem reunião com os professores dos seus filhos, observe também.

Em muitas escolas esses espaços existem, são fartos! Mas será que são acessíveis, ocupados e habitados pelas crianças em toda sua potência?

É muito comum estarmos dentro do território da escola todos os dias e não nos darmos conta de todos os espaços que fazem parte desse contexto. Em meio a uma rotina marcada por tempos regidos por um sistema educacional que não privilegia a aprendizagem com a natureza, acabamos restringindo o uso desses espaços. Seguimos os mesmos tempos e frequentamos os mesmos espaços, no dia a dia. 

Quer ver um exemplo? Uma roda de contação de histórias que, em geral, acontece na biblioteca ou na própria sala de aula, pode ser realizada num jardim, sob a sombra de uma árvore. Uma brincadeira de faz de conta pode acontecer na brinquedoteca, mas também no pátio, no quintal, num gramado.

Ana Carol – uma das autoras deste blog – percorre muitas escolas de educação infantil, públicas e privadas de todo o Brasil, e percebe que muitas delas têm áreas naturais organizadas como jardins, com paisagismo que torna sua utilização inacessível para as crianças. Em outros casos, esses espaços servem como áreas de depósito de entulho. E, por isso, ela quer compartilhar, aqui, uma experiência interessante pela qual passou recentemente.

“Em uma das escolas em que trabalhei como professora de educação infantil, havia um corredor com aproximadamente 1,20m de largura e 20m de comprimento, que percorria toda a lateral da escola. O prédio tinha três andares e era todo cimentado, inclusive os dois parques para brincar ao ar livre. Era esse corredor a única área de natureza viva: gramada, tinha árvores como um pinheiro, uma amoreira e uma pitangueira. 

Quando cheguei à escola foi justamente essa área me chamou a atenção pelas possibilidades que continha. Mas, logo no primeiro mês, percebi que esse espaço era invisível para todos. Tambem pudera, para acessá-lo, havia apenas uma entrada, que dava para o parque, atrás da escola.

Sempre que eu demonstrava intenção de explorá-lo ou quando alguma criança se aproximava dele, ouvia alguém dizer: “Aí, não!”. Por isso mesmo, decidi que, de alguma forma, habitaria esse espaço com as crianças. Peguei um saco de lixo, luvas e fui com “minha” turma (crianças de 2 e 3 anos) ao local para fazer uma inspeção. Eles adoraram a ideia.

Quando encontrávamos algo que não era da natureza, as crianças me avisavam e íamos juntos recolher e colocar no saco. E o que eram esses objetos que não pertenciam às arvores, à grama, aos bichos que lá habitavam? Copos plásticos, papel de bala, canetinhas, brinquedos quebrados e, até, uma janela. Pois é, algumas coisas não couberam no saco de lixo, mas as retiramos do local, assim mesmo.

Durante a aventura de descobrir o que não pertencia àquele local tão estreito e mágico, iniciávamos um vínculo com ele e com toda a vida que ali pulsava. Pronto! Foi o começo de uma nova fase de convivência na escola. 

Dali em diante, todos os dias, quando íamos ao parque dos fundos, passávamos por aquele pequeno bosque. Observávamos cada pedacinho, catávamos sementes, percebíamos o que se transformava de um dia para o outro.

Algumas crianças me acompanharam desde o primeiro dia. Outras, foram percebendo esse movimento acontecer e aderiram às nossas expedições. Em pouco tempo, esse espaço se transformou no lugar preferido das crianças para brincar”.

Alguns anos atrás, Rita – outra autora deste blog – desenvolveu um projeto para crianças do Ensino Fundamental 2, em uma escola municipal de São Paulo, durante todo o ano letivo. Ela conta sobre essa experiência a seguir:

“O objetivo era desenvolver a percepção da vida. Um dos momentos mais marcantes desse trabalho aconteceu quando elaboramos um roteiro de observação e pedimos que as crianças observassem detalhadamente toda a área externa da escola. Foi impressionante como puderam perceber a relação superficial que tinham com esse espaço e tal percepção fez emergir diversos questionamentos e desejos sobre o mesmo.

Foi muito forte perceberem, por meio do espaço que era amplo e cheio de árvores, que tipo de relação tinham com a escola e com o aprendizado, e o quanto poderiam se apropriar dele para criar suas próprias experiências de aprendizagem“.

Quando esse processo de apropriação do espaço é construído junto com as crianças, com convites, muita brincadeira livre, exploração, forma-se junto um vínculo, uma relação. Dessa relação brotam curiosidades, descobertas, encanto e muitas histórias.

Se consideramos a escola um local onde todos os seus espaços são educadores, é preciso torná-los acessíveis às crianças. Todos precisamos de áreas naturais para aprender sobre a vida, vivendo-a em sua melhor expressão.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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