Natureza, crianças e escolas: projetos e ações inspiram novos movimentos

Este artigo tem sabor de retrospectiva ou, como se diz por aí – nas redes sociais -, um quê de #tbt de 2019. No ano passado, o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana. realizou uma série de atividades em parceria com o SESC-SP, relacionadas aos saberes organizados no livro Desemparedamento da Infância: a escola como lugar de encontro com a natureza, lançado em 2018. 

A programação, pensada para quatro diferentes cidades, foi desenvolvida para cada uma delas junto às unidades locais do SESC, buscando identificar iniciativas de “desemparedamento” no campo da educação, que pudessem ser partilhadas e debatidas com especialistas convidados. Experiências e aprendizados, Brasil afora, mostram que há muita gente querendo fazer uma educação de qualidade e incentivar o protagonismo dos alunos, conectada com suas respectivas realidades.

Em São José dos Campos, A educação integral, as cidades educadoras e o desemparedamento da infância: relações possíveis foi tema de uma roda de conversa com Raiana Ribeiro, do Projeto Aprendiz, Viviane Vieira e Cláudia Duarte, da Espiral Escola Viva, Andreia Cristina de Oliveira e Shirlei Tirone, da Rede de Ensino da Educação Infantil. Vimos que nas práticas pedagógicas da Espiral, os estudantes quase não ficam em sala de aula. 

A escola “acredita” que é o conteúdo curricular está em muitos lugares da cidade e, por isso, valoriza o aprender pela experiência. As representantes da rede pública destacam que a secretaria tem incentivado que as crianças estejam cada vez mais nos espaços externos por meio da organização dos espaços e do estímulo a atividades como plantio de hortas e jardins.

Contaram o caso de uma escola localizada num bairro novo da cidade, que enviou um pedido dos alunos à secretaria do meio ambiente para que plantassem mais árvores nas ruas para que todo bairro ficasse mais verde, fresco e saudável. Ficou dessa roda uma reflexão para todos: o que ganhamos quando levamos as crianças a sério? E com uma educação integrada à cidade e à natureza?

Junto aos SESCs Santo Amaro e Interlagos, em São Paulo, sob o tema Desemparedando a escola: educação para além dos muros, recebemos a professora Léa Tiriba, da Unirio (RJ) para lembrar as potências que existem na relação entre a criança e natureza. Na mesma noite, Jaison Pongiluppi Lara, da Casa Ecoativa, apresentou diversas ações realizadas na Ilha do Bororé, no extremo sul de São Paulo, para que se torne um bairro educador.

No dia seguinte, fomos conhecer in locoo trabalho realizado pela Casa Ecoativa e a Escola de Ensino Fundamental Adrião Bernardes. Através de experiências de permacultura, agricultura urbana, atividades esportivas na represa Billings (Meninos da Billings) comida de qualidade, pesquisa histórica do bairro e pintura de muros-murais (coletivo Imargem), conhecemos uma escola que toma seu território para a educação e uma comunidade que tem sido autora de sua própria história. Como nos provoca Jaison: “a periferia é a borda da cidade, podemos aprender com a natureza, a cicatrização de uma ferida começa pelas bordas”.

Em Piracicaba, o mote para o aprendizado coletivo foi Desemparedar a infância e transformar a cidade. Com participação de educadores da rede pública que já realizam práticas “desemparedadas”, fomos conhecer o Parque do Tio Gága e a história do senhor Luiz e de dona Didi, que gentilmente nos contaram como transformaram a praça em frente à sua casa em um parque naturalizado para as crianças. Em outros tempos praticamente um terreno baldio, pouco frequentado para o lazer, o espaço era considerado um território perigoso. Poucos se orgulhavam da área verde em frente às suas casas. Por motivo de saúde, o senhor Luiz teve que ficar um tempo em casa e foi aí que tudo começou: primeiro colocou um balanço em uma árvore bem em frente à sua casa. 

Esse pequeno gesto já trouxe uma transformação: muitas crianças passaram a ir até lá para brincar. A sensação de melhoria do ambiente e o aumento da frequência de famílias no local foi a motivação para ele continuar. Ele transformou o espaço em um verdadeiro parque para crianças usando apenas troncos caídos das árvores, materiais doados e muita criatividade.  Hoje, pessoas de Americana, onde fica o parque, e das cidades vizinhas se deslocam até lá para brincar. Essa história mostrou que qualquer pessoa pode ser agente de transformação e mobilização e propiciar a proximidade da criança com a natureza. E que uma cidade boa para crianças é, com certeza, uma cidade melhor para todos!

Em Registro, perguntamos a Abílio Jera Poti, líder indígena guarani (Aldeia Taquary–Ty) a Soraia Chung Saura (EEFE-USP) e a Luiz Ketu (Quilombo São Pedro) sobre o que podemos aprender com a natureza em comunidade tradicionais. A resposta? De modo simples… tudo! Eles relataram como as crianças aprendem tudo o que precisam com a natureza e no convívio com sua família e comunidade. Participando nas atividades comunitárias, por meio da experiência e da participação ativa as crianças conhecem todas as práticas culturais transmitidas ao longo de gerações. 

Na experiência deles, a ocupação do território nunca passou por subir muros para demarcar propriedades. Existe o espaço coletivo e o espaço privado é reconhecido como de uso de uma família. Eles também contaram sobre como os ciclos da natureza e da agricultura determinam o ritmo e atividades da comunidade; os espíritos da natureza que ensinam o uso sustentável dos recursos, em que se retira apenas o suficiente para subsistência; e sobre continuidades: a do tempo que flui com os ciclos da natureza, com o crescimento das crianças, ou a dos espaços entre moradia, agricultura e floresta ou, ainda, a continuidade entre famílias que em seu conjunto formam uma comunidade.

Em sua fala, Luiz Ketu propôs uma importante reflexão: “essa relação entre a escola e os conhecimentos da comunidade… temos que pensar onde está essa escola e qual a relação desse espaço, que está cercado por muros, com o que está além dos muros, né? Em São Pedro (comunidade quilombola), você só vai ver um prédio que tem muro: a escola”. Numa comunidade marcada por continuidades, a única descontinuidade entre pessoa-ambiente ocorre na instituição escolar. 

O que isso representa? Como ultrapassar esses muros?

Para fazer uma educação com sentido é preciso fazer uma leitura sobre a realidade na qual a escola está inserida, buscar romper os muros que a separam dos saberes do mundo. Que tal voltarmos às aulas, depois das férias, pensando e praticando o desemparedamento da infância nas escolas?

Edição: Mônica Nunes

Paula Mendonça

Mestre em educação pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre infância indígena. Atuou cerca de 10 anos no Parque do Xingu por meio do Instituto Socioambiental. É co-diretora do curta metragem Waapa, realizado em parceria com o Projeto Território do Brincar. É assessora pedagógica do Programa Criança e Natureza do Alana. Mãe da Nina e Luana.

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