Nappy: um banco de imagens gratuito, só de negros


100% das imagens que utilizamos neste site é gratuita. Algumas são dos fotógrafos que fazem parte de nossa rede, outras são feitas pelos autores dos textos e as demais têm origem em bancos de imagens free. E, com frequência, Suzana e eu (editoras e responsáveis pela curadoria de conteúdo do Conexão Planeta) temos grande dificuldade para encontrar imagens bacanas de negros para ilustrar textos nossos ou de outros autores.

50 coisas para fazer antes de completar 12 anosQuando o assunto é criança (e natureza), então… a pesquisa fica ainda mais difícil: o padrão é quase nórdico, somente de crianças brancas, coradas e saudáveis, bem europeias. Ou seja, parecidas com as crianças brasileiras que vivem nas regiões sul e sudeste, mas não com as do centro-oeste, norte ou nordeste. Lembro de ter encontrado apenas duas imagens com crianças negras desde que lançamos este leite em 2015. Uma delas, está aqui, ao lado e foi encontrada pela Suzana no banco de imagens free Pixabay. A outra, eu mostro mais adiante.

Mas esse nosso problema acabou! E a solução demonstra, claro, que este não é um fenômeno brasileiro, mas mundial. Descobrimos recentemente o Nappy, um banco de imagens americano, gratuito, só com pessoas negras. Ele foi criado pela Shade, uma agência de criativos (designers, fotógrafos etc) do bairro do Brooklin, em Nova York.

Em seu site, eles explicam a origem do banco: “Se você digitar a palavra “café” no Unsplash (outro site de imagens grátis), raramente verá uma xícara de café sendo segurada por mãos negras. E terá o mesmo resultado se vdigitar termos como “computador” ou “viajar”. Você pode encontrar uma ou duas imagens, mas elas são muito raras. Só que os negros também bebem café, usamos computadores e certamente amam viajar”.

As fotos são lindas – boa direção, boa qualidade, boa produção – e mostram adultos e crianças em situações corriqueiras, do dia a dia, tal como oferece qualquer outro banco de imagens. Os modelos aparecem tomando café, brincando, dormindo, conversando com amigos, mergulhando numa praia, digitando, trabalhando, andando de bicicleta, curtindo uma cachoeira ou uma praça, olhando a paisagem… Dê uma navegada pelo Nappy e, se tiver imagens que queira compartilhar, é só inscreve-las no site.

Os integrantes da Shade – todos negros – fizeram de seu trabalho uma bandeira ativista por mais representatividade. Na apresentação do site explicam sua intenção, assim: Todas as fotos postadas aqui estão sob a licença Creative Commons Zero (CC0), então sinta-se à vontade para fazer o seu trabalho. Isso significa que você pode fazer o download das fotos, modificá-las, compartilhá-las, distribuí-las ou usá-las para o que quiser, de graça. Na verdade, nós encorajamos isso porque, quanto mais você as usa, mais ajuda a melhorar a representação de pessoas negras e pardas na mídia”. Sensacional!

O site também orienta sobre como devem ser indicados os créditos dos fotógrafos e da agência (eles nem fazem questão deste) e recomendam que os usuários não devem vendê-las, nem usá-las para denegrir os negros ou ilustrar temas que não respeitem os direitos humanos.

Belíssima iniciativa, mas agora falta vermos imagens que misturem negros, pardos, brancos, indígenas, orientais… Porque assim é o mundo, ou deveria ser.

A imagem ao lado mostra exatamente isso: duas garotas – uma negra e uma branca – brincando na natureza. Eu a encontrei, em maio de 2016, no Piaxabay, mas ela também faz parte do Nappy, que maravilha!

É um absurdo que tanto preconceito seja tão forte em pleno século XXI. As marcas da escravidão são ainda intensas em nossa sociedade, e a representatividade dos negros e pardos, mínima. Não estão bem representados na publicidade, nas reportagens e editoriais de revistas (nas capas, então, é quase impossível), na TV, e isso só reforça o padrão de beleza vigente, que é o dos brancos. E tudo isso, apesar de aqueles representarem 54% da população, de acordo com o iBGE. O instituto de pesquisa ainda aponta que, entre 2012 e 2016, sua participação aumentou: de pardos foi de 45,3% para 46,7%; de negros, de 7,4% para 8,2%.

Tá mais do que na hora de mudar essa realidade. Aumentando a representatividade de pessoas negras e pardas na mídia, como bem destacam os donos da Shape no site do banco, é um bom começo. Sem dúvida, ajudará a criar uma nova consciência e uma nova sociedade.

Agora, veja a qualidade e a diversidade de imagens do Nappy, entre estas que selecionei no banco:

 

 

 

 

Fotos: Saucypot (destaque) e demais imagens, todas do Nappy

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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