“Não há um termostato que meça a temperatura global”, diz ministro Ernesto Araújo, para negar aquecimento global

ministro das relações exteriores Ernesto Araújo

É pra rir ou pra chorar? Difícil dizer. A afirmação acima é do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que esteve na última quarta-feira (29/05), conversando com os deputados da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara, em Brasília.

Não é novidade nenhuma que Araújo nega o aquecimento global. Antes mesmo de assumir o governo, já dizia que as mudanças climáticas são uma “conspiração marxista”. Em seu blog Metapolítica 17 , chamou o combate a elas de ‘perversão da esquerda’.

Mas os argumentos apresentados no Congresso Nacional são vergonhosos. Mostram a completa ignorância sobre o assunto.

“Não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais”, alegou Araújo, que disse ainda ser “necessária uma discussão aberta e não ideológica desse tema”.

Rapidamente, diversas organizações de conservação ambiental do país comentaram os absurdos dito pelo ministro.

Em sua página no Facebook, o Observatório do Clima escreveu:

“Caro chanceler Ernesto Araújo, se quiser ter uma visão “não-ideológica” do tema, sugerimos que assista à audiência que rolou ontem no Senado Federal com cinco cientistas de verdade*. Em tempo: o nome é TERMÔMETRO, não TERMOSTATO”.

A lista de bobagens do ministro das Relações Exteriores não se encerrou por aí (infelizmente).

“Nos Estados Unidos, foi feito um estudo sobre estações meteorológicas, e diz que muitas estações que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato, hoje ficam no asfalto, na beira do estacionamento. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura, comparado com a dos anos 50. E isso entra na média global”, disse.

Sem comentários, não?

As evidências científicas são irrefutáveis.

2018 foi o 4º ano mais quente da história. A temperatura média global ultrapassou 1ºC em relação à era pré-industrial, de acordo com quatro bases de dados internacionais independentes – a Nasa (Agência Espacial Americana), a NOAA (Agência Nacional de Oceano e Atmosfera dos EUA), o MET Office britânico e a OMM (Organização Meteorológica Mundial), ou seja, as mais respeitadas e importantes entidades do setor do mundo.

Em novembro do ano passado, também foi constatado que os oceanos têm absorvido 60% mais calor da atmosfera do que os cientistas acreditavam antes.

Ao longo dos últimos 25 anos, os oceanos extraíram da atmosfera, por ano, uma quantidade de calor 150 vezes maior do que a energia produzida pelo homem como eletricidade. Isso significa que o aumento de sua temperatura pode ser muito superior ao que se imaginava.

No final do ano passado ainda, os mais importantes cientistas do clima do planeta lançaram o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), em que alertaram não há mais tempo a perder.

“Já estamos sentindo as consequências do aumento de 1oC na temperatura da Terra através dos extremos climáticos, da elevação do nível dos oceanos e a redução do gelo no Ártico”, destacou Panmao Zhai, co-chair do Grupo de Estudos I do IPCC.

Conspiração marxista? Sério mesmo, ministro?

Seria fácil rir da piada caso ela não nos lembrasse de quem diz isso é alguém que representa a imagem do Brasil no exterior.

*Neste link você encontra o vídeo da audiência no Senado em que participaram alguns dos maiores especialistas sobre o clima do Brasil, entre elas, Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, Mercedes Bustamente, professora da UNB e Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Pesquisas Avançadas da USP.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Fotos Públicas

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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