Não entende a ligação entre sua picanha e o desmatamento? Este filme desenha pra você

O maravilhoso e necessário documentário Sob a Pata do Boi: como a Amazônia vira pasto – ao qual se refere este texto – está disponível na plataforma VideoCamp para exibições públicas – escolas e universidades – a partir de inscrição. Acompanhe os espaços de exibição pela página do filme no Facebook. Ele também está disponível em plataformas on demand como NOWiTunesGoogle PlayVivo Play.
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Por Claudio Angelo* (texto atualizado em 1/9/2018)

“Ninguém ‘veve’ em torno de prejuízo. A gente ‘veve’ em torno de lucro”. Sentado na porta de um barracão de madeira, de chapéu de aba larga e camisa aberta, o pecuarista José Aureliano dos Santos resume em uma frase por que seu ganha-pão botou abaixo quase 20% da floresta amazônica e não dá sinais de que vá parar.

A cena singela, gravada em São Félix do Xingu (PA), é uma das mais reveladoras do documentário Sob a Pata do Boi – Como a Amazônia Vira Pasto, dirigido por Márcio Isensee e produzido pelo site de notícias ambientais Oeco.

O filme estreou em 31/5, na Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em São Paulo, depois de ter recebido o prêmio One Hour, do Ministério da Cultura da França. Nessa mostra, em junho, teve quatro exibições e ainda concorreu na Mostra Competitiva da mostra, ficando entre os vencedores. Também foi exibido em Belém e Rio de Janeiro. E, no segundo semestre, foi liberado para exibição em plataformas digitais, com livre acesso.

Em 49 minutos, ele explica como a cadeia da pecuária causou e causa a destruição da floresta – e como, às vezes, os agentes dessa destruição, como José Aureliano, merecem mais compaixão do que raiva.

O documentário é uma grande reportagem, realizada durante dois anos em parceria com a ONG Imazon. Isensee e seus colegas (Nota da Redação do Conexão Planeta: os jornalistas Juliana Tinoco, Eduardo Pegurier e Bernardo Câmara; além de Fábio Nascimento, com sua fotografia impressionante) valeram-se de diversas viagens a campo, imagens históricas e muitas entrevistas para retratar um problema complexo, cujos impactos e as soluções são bem conhecidos, mas que persiste porque é lucrativo.

O quadro completo e didático – às vezes cruamente didático – traçado do setor da carne na Amazônia permite ao espectador fazer a ligação direta entre o pacote de carne na gôndola do supermercado e as violações ambientais e de direitos humanos e trabalhistas cometidas pelos desmatadores.

Também relembra as razões históricas para o imenso passivo ambiental dos produtores rurais na região: nos anos 1970, eles foram chamados pela ditadura militar a colonizar a Amazônia “pela pata do boi” (daí o título do filme) e precisavam demonstrar ter desmatado 50% de suas propriedades para obter títulos de terra.

Os personagens são de uma franqueza tocante. Um dos pecuaristas entrevistados recorda-se, entre risadas, de como escravizou 200 peões para “formar” (desmatar) sua fazenda, auxiliado por ninguém menos que a polícia local. O prefeito de uma das cidades campeãs de devastação do Pará argumenta, aparentemente convicto, que criminosos ambientais deveriam ser tratados como “heróis”. Um fazendeiro que busca produzir de forma intensiva e sem desmatamento confessa que o setor é muito bom em chorar suas dificuldades, mas igualmente proficiente em esconder seus pecados.

Mas uma das melhores (e mais tristes) coisas do filme é documentar como a pecuária transformou não só a paisagem, mas a cultura do sul e sudeste do Pará. Saem as “lendas e mistérios da Amazônia”, entram a exposição agropecuária e o rodeio.

Não fosse pelas feições indígenas dos peões, as cenas de rodeio do filme poderiam passar por Barretos ou Uberaba, mas são de Rio Maria e Xinguara. Em menos de 40 anos, criou-se um modo de vida e um conjunto de valores na população que tem mais identidade com o Texas do que com os igapós.

Este é um efeito colateral particularmente insidioso do desmatamento, que passa longe do radar da imprensa quando esta é mobilizada de tempos em tempos para cobrir a emergência dos números da devastação ou a sandice da vez da bancada ruralista.

Uma parcela da população amazônica já incorporou a ausência da floresta no seu cotidiano – portanto, não tem mais nenhum motivo para defendê-la. Essas pessoas foram perdidas para a pata do boi; não toparão fácil nenhuma conversa sobre zerar desmatamento e recuperar o passivo ambiental da região, mesmo que isso seja o melhor para elas, para o Brasil e para a consciência de quem ama um churrasco e não quer vê-lo associado ao crime.

Agora, assista ao trailer de Sob a Pata do Boi e, em seguida, à linda animação que resume bem o que filme apresenta:

*Este texto foi publicado originalmente pelo site do Observatório do Clima, em 30/5/2018. Aqui foi complementado com outras informações, como a parceira do Imazon, a fotografia de Fábio Nascimento, as datas de exibição em São Paulo, Belém e Rio de Janeiro e a exibição online a partir do segundo semestre

Foto: Reprodução 

Um comentário em “Não entende a ligação entre sua picanha e o desmatamento? Este filme desenha pra você

  • 31 de maio de 2018 em 10:44 AM
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    Pecuária é um ramo de negócio em extinção assim como exploração da raça negra foi. Animais explorados, abusados, artificialmente inseminados, torturados e mortos para consumo humano, além de prejudicarem potencialmente a saúde do Planeta, são a evidência cristalina do barbarismo e primitividade em que ainda vivemos, nós os civilizados de celular, terno e gravata e tacape, abatendo, destruindo e decepando cabeças sob o argumento esfarrapado de que precisamos da proteína animal, perfeitamente dispensável em face das outras mil e uma opções. Indispensável mesmo a vida do animal, porque ele só tem uma e gosta muito dela, assim como você ou eu apreciamos a nossa. Animais não são mourões de cerca que se pode martelar e furar porque mourões de cerca não estremecem, não sangram e nem gritam. Bichos são indivíduos particulares, únicos e importantes, valiosos na sua integridade, muito mais do que as vísceras, o sangue e a carne deles, nascidos para pensar, sentir e viver com seus direitos preservados e mantidos. Parece o óbvio ululante mas não é, para humanos tão insensíveis e frios quanto mourões de cerca.

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