Mutum-de-alagoas será reintroduzido na natureza depois de extinto há mais de 40 anos

Depois de 30 anos extinto, mutum-de-alagoas é reintroduzido na natureza

O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é a ave de maior porte encontrada em toda a Mata Atlântica da região Nordeste. Ele mede entre 80 e 90 centímetros de comprimento e tem uma plumagem em tons de preto e azul.

Conhecido como o grande pássaro negro, significado do nome da espécie na mistura entre o espanhol e o tupi-guarani, originalmente ele podia ser encontrado ao longo dos estados de Pernambuco e Alagoas.

Os primeiros registros da observação do mutum-de-alagoas, também chamado de mutum-do-nordeste, são do século XVII, feitos pelo naturalista alemão George Marcgrave, um dos membros da comitiva holandesa de Maurício de Nassau.

Assim como outros animais, o desmatamento (no caso do mutum, para o plantio da cana-de-açúcar na região) e a caça ilegal fizeram com que ele desaparecesse. Além disso, a carne do Pauxi mitu também é saborosa, o que contribuiu ainda mais para sua extinção.

Os últimos registros de indivíduos observados livres na natureza foram feitos nos anos de 1978, 1984 e 1987. Desde então, sobraram pouquíssimas aves no Brasil, e apenas, em cativeiros.

Mas ao longo das últimas décadas, diversas organizações realizaram um belíssimo trabalho de reprodução e assim, aumentar o número dessa população de mutuns – atualmente, existem cerca de 80 aves da espécie em cativeiro no Brasil -,  e poder, finalmente, reintroduzí-los na vida selvagem.

E é exatamente isso que acontecerá nos próximos dias, quando três casais de mutum-de-alagoas, vindos de um criadouro em Minas Gerais, serão soltos na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Cedro, no município de Rio Largo, próximo à cidade de Maceió.  

Mutum-de-alagoas será reintroduzido na natureza depois de extinto há mais de 40 anos

Caixas em que os mutuns-de-alagoas foram transportados

Na última sexta-feira (13/09), os seis mutuns deixaram a Crax Brasil*, em Belo Horizonte, e foram transportados, por avião, para Alagoas. Durante doze dias, eles ficarão em um viveiro feito na mata, em uma fase de aclimatação, para só depois, serem liberados na reserva, que tem aproximadamente 1 mil hectares.

“Depois da soltura, as aves serão monitoradas, permanentemente, por um rádio transmissor, instalado nelas. Haverá pessoas se revezando no trabalho até que tenhamos as principais informações sobre a biologia da espécie e, também, para evitar a caça e ou captura”, revela Roberto Azeredo, da Crax Brasil.

De volta a seu habitat original

O mutum-de-alagoas, a exemplo de outras espécies, tem uma função importante no equilíbrio de seu ecossistema. “Ele é um grande dispersor de sementes na mata. Come frutas e espalha na floresta as sementes através das fezes. Com isso, não só está protegendo espécies da flora, como também, garantindo alimento para as suas gerações atuais e futuras e de outras animais que também utilizam nas suas dietas as mesmas frutas”, explica o criador.

Paralelamente à soltura em Alagoas, o trabalho de reprodução em criadouros continua. “Nosso objetivo é formar um banco genético viável  em cativeiro para produzir aves em condições de serem soltas em reservas legalmente estabelecidas na sua área de ocorrência (estado de Alagoas). A ideia é soltar o maior número possível de mutuns até que tenhamos a segurança de realmente ter salvo a espécie da extinção”, ressalta Azeredo.

Depois de 30 anos extinto, mutum-de-alagoas é reintroduzido na natureza

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Em 2017, nós noticiamos aqui, no Conexão Planeta, o que teria sido a reintrodução do mutuam-de-alagoas na natureza. Segundo Roberto Azeredo, o que aconteceu, na época, foi a transferência de um casal da espécie para um viveiro dentro do Centro de Educação ambiental Pedro Nardelli, em Maceió.

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*A Crax-Brasil é uma organização não-governamental, que tem como foco a reprodução e conservação em cativeiro de espécies de aves ameaçadas.

Fotos: divulgação

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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