Museo Atlantico: um mergulho no ciclo da vida e no poder dos oceanos

A obra do britânico Jason deCaires Taylor é sempre surpreendente e majestosa. A um primeiro olhar, nos tira o fôlego. Logo em seguida, nos faz refletir. O impacto se deve talvez porque o palco deste artista são os oceanos. Na água do mar, ele instala suas esculturas, com feições humanas impressionantes.

Esta semana, foi inaugurado em Lanzarote, uma ilha do arquipélago de Canárias, na costa da Espanha, o Museo Atlantico, o primeiro museu submarino da Europa. Para o projeto, Taylor criou 300 esculturas, espalhadas em doze instalações.

Em fevereiro do ano passado, mostramos aqui no Conexão Planeta, as primeiras peças concebidas pelo artista para o local. Entre elas, estava a Balsa de Lampedusa, um retrato da crise dos refugiados na Europa.

Agora, com a abertura do museu para os visitantes, Taylor exibe suas novas obras. Uma delas é A Travessia de Rubicon, um portal gigantesco – de 30 metros de largura e 4 metros de altura -, a 14 metros de profundidade. Perto dele, estão 35 esculturas de figuras humanas, tentando atravessá-lo.

A Travessia de Rubicon

“O muro pretende ser um monumento ao absurdo, uma barreira disfuncional no meio de um vasto espaço fluido, tridimensional, que pode ser contornado em qualquer direção”, explica Jason deCaires Taylor. “A obra ressalta que as noções de propriedade e territórios são irrelevantes para o mundo natural. Em tempos de crescente patriotismo e protecionismo, o muro pretende lembrar-nos que não podemos segregar os nossos oceanos, o ar, o clima ou a vida selvagem como fazemos com as nossas terras e posses. Esquecemos que todos somos parte integrante de um sistema vivo em perigo”

A arte do britânico é  sempre um metáfora ou um alerta sobre problemas sociais e ambientais do mundo atual. Em outra instalação do Museo Atlantico, chamada de Desregulados, homens vestindo ternos estão num parquinho infantil, revelando a insolência e arrogância do universo corporativo perante a vida selvagem. Um dos brinquedos é uma gangorra, que tem o formato  de uma bomba de extração de petróleo, numa crítica clara à extração de combustíveis fósseis e o impacto disto sobre o planeta.

Um dos destaques do novo museu é A Revolução Humana. 200 esculturas de seres humanos, em tamanho real, se entrelaçam em um círculo. De sexos e idades diversas, as pessoas formam um recife artificial, que servirá de habitat para fauna e flora do fundo do mar. “Esta instalação foi concebida para nos lembrar que  evoluímos da vida marinha e estamos todos sujeitos aos movimentos e à vontade dos oceanos”, diz Taylor. “A peça mostra nossa vulnerabilidade nua a seu poder inerente e nossa fragilidade diante de seus ciclos e força imensa. O oceano fornece o oxigênio que respiramos, regula nosso clima e é fonte vital de alimento para milhões de pessoas”.

Museo Atlantico com esculturas nos oceanos

A Revolução Humana mostra nossa vulnerabilidade e fragilidade diante da força dos oceanos

O objetivo do Museo Atlântico é fazer com os visitantes tenham uma melhor compreensão da relação do homem com o ambiente marinho e apreciem a necessidade de valorizar e proteger este ecossistema frágil. “Só assim, conseguiremos salvar a nós mesmos”, acredita o artista.

Esculturas submarinas

Jason deCaires Taylor é um artista da água. Mergulhador profissional, passou a infância explorando corais na Malásia. Sua formação em escultura e cerâmica, veio do London Institute of Arts.

Suas esculturas aquáticas são sempre em tamanho real e geralmente feitas com moldes de pessoas de verdade, habitantes do lugar onde a instalação artística será instalada.

As esculturas são produzidas com cimento marinho, que tem pH neutro e é muito mais resistente que o tradicional. As obras têm como função se tornar recifes de coral artificiais. O artista e sua equipe fixam nas esculturas extratos de corais vivos, técnica que estimula o crescimento dos mesmos, criando assim novos parques marinhos.

O Museo Atlantico não é o único deste tipo a ser idealizado pelo britânico. O primeiro foi construído em 2009, em Cancun, no México, com o qual Taylor ficou mundialmente conhecido pelas impressionantes 500 estátuas da exposição A Evolução Silenciosa. Todo seu trabalho é comissionado pelas cidades onde as obras são instaladas.

Abaixo mais imagens das esculturas de Jason deCaires Tayor para o museu das Ilhas Canárias:


Fotos: divulgação Museo Atlantico

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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