Murumuru para rosto e todo o resto

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Não é só mais uma palmeira da Amazônia com boa quantidade de gordura hidratante: o murumuru dá pano para muita manga quando se trata de suas propriedades cosméticas. Para começar, o coquinho oval do murumuruzeiro (Astrocaryum murumuru) produz uma manteiga branca, com aroma suave e fresco, nenhum sabor, baixa acidez (4 a 5%, enquanto o palmiste chega a 25%) e consistência firme (semelhante à da vaselina, em temperatura ambiente). É portanto, uma boa base para os mais diversos cosméticos, de cremes alisantes para cabelos a máscaras faciais ou ceras depilatórias, passando por toda linha de sabonetes, gel e espuma para banho, xampus, condicionadores, hidratantes e loções.

Mas não é só: a manteiga de murumuru tem também uma composição de ácidos graxos de fazer inveja a outros coquinhos. O ácido mirístico, por exemplo, garante a boa penetração na pele ou nos fios de cabelos e dá estabilidade aos óleos feitos com a manteiga. O ácido láurico funciona como carreador de princípios ativos dos cosméticos,  é anti-inflamatório, antibiótico e estimula o sistema imunológico. O ácido oleico promove melhor absorção, é hidratante e emoliente (confere mais maciez à pele), além de proteger os tecidos. O ácido linoleico (ômega 6) é um nutriente que contribui para a regeneração celular.

E, a par desses ácidos graxos todos, na composição do murumuru  ainda tem uma boa dose de vitamina A, antioxidante importante na luta contra os sinais de envelhecimento, sobretudo se devidamente misturada às vitaminas C e E.

Não é por menos, portanto, que as palmeiras de murumuru andam valorizadas em comunidades amazônicas, sobretudo no Acre, nas várzeas do médio rio Juruá, a oeste do estado do Amazonas, e no baixo rio Amazonas, notadamente no Amapá. Em áreas periodicamente inundadas, nessas regiões, os murumuruzeiros chegam a formar grandes concentrações, de 100 até 1.400 plantas por hectare!

A valorização da manteiga e do óleo de murumuru na indústria cosmética significa um novo mercado para as comunidades extrativistas, muitas das quais já instalaram estufas para a secagem dos coquinhos, antes do envio à fábricas do Centro-Sul.

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A palmeira tem entre 10 e 15 metros de altura, com o caule cheio de espinhos pretos compridos (12 cm). O cacho é virado para cima e produz uma quantidade muito variada de coquinhos, de 2 kg a 15 kg, segundo registra a engenheira-agrônoma e mestre em Ciência dos Alimentos, Valéria Saldanha Bezerra, da Embrapa Amapá. Por ano, cada palmeira dá, em média, quatro cachos e isso pode render algo entre 14 e 21 litros de óleo de murumuru, constituindo uma alternativa viável de renda extra para comunidades.

O fruto maduro é avermelhado, com uma polpa carnuda e adocicada, apreciada por animais como pacas, cutias, macacos, queixadas e jabutis. Aqueles com dentes mais fortes consomem também as amêndoas, de onde é extraída a manteiga de uso comercial.

Já houve um ciclo de aproveitamento e exportação da manteiga de murumuru para a fabricação de margarinas e existem pesquisas avaliando o potencial na produção de biodiesel. Mas o principal mercado atual é mesmo o cosmético, que já movimenta, inclusive, a pesquisa com nanoemulsões e nanocápsulas, como meios de levar as qualidades do murumuru mais fundo na pele e nos cabelos dos consumidores.

Então, se você anda à procura de um cosmético natural eficiente na hidratação e proteção para o rosto e todo o resto, a dica do momento parece ser mesmo procurar murumuru na fórmula!

Fotos: Liana John (amêndoas de murumuru, ao alto, e estufa para secagem de amêndoas, no Médio Juruá, acima)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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