Mundos possíveis: conversas com Ailton Krenak, em São Paulo e no Rio de Janeiro

O líder e pensador indígena Ailton Krenak não para. Vive circulando pelo Brasil, compartilhando suas reflexões sobre a humanidade e os povos indígenas e a forma perversa como estamos lidando com o planeta. É só fazer uma busca no Google pra ver a quantidade de entrevistas e palestras de que participou, sozinho ou na companhia de outros pensadores. Pelo Brasil, em Portugal… levando em conta que nem todas as conversas com ele são transmitidas ao vivo ou gravadas, portanto, nem todas estão na internet. Já assisti a maioria. Algumas, mais de uma vez.

Mas depois que Krenak lançou o livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo (Companhia das Letras), sua agenda ficou ainda mais intensa. Afinal, o título muito sugestivo – que primeiro nomeou, meio sem querer, uma palestra realizada no centro de mestrado e doutorado da Universidade de Brasilia – vem de encontro aos nossos anseios e nos provoca. Foi assim em sua palestra na UnB, que lotou rapidamente. Ele acreditava que poucas pessoas apareceriam porque o dia estava chuvoso, mas todos queriam saber que ideias são essas. “Eu também”, exclamou ele ao saber da lotação esgotada.

Pois é o que vai acontecer – presumo eu – nos encontros programados para os próximos dias em São Paulo e no Rio de Janeiro. Serão quatro na capital paulista e um à beira mar. Em nenhum deles, Krenak estará sozinho. Na capital paulista, terá como interlocutores o fotógrafo Christian Cravo, a artista visual Berna Reale, o sociólogo uruguaio Eduardo Gudynas (mediação da indígena Pagu Rodrigues), a cineasta Regina Jehá e o artista plástico Bené Fonteles. Na capital fluminense, o diálogo será com a psicanalista Suely Rolnik.

Admiradora que sou de Krenak, não poderia deixar de compartilhar esta agenda com os leitores do Conexão Planeta. Se você não estiver em São Paulo, nem no Rio, avise os amigos, espalhe este link em suas redes sociais. Ouvir Krenak, ao vivo, é um privilégio e uma benção. Rende inúmeras reflexões, imprescindível neste momento tão tumultuado da política no Brasil e de tempos de mobilizações por educação, pela Amazônia e pelo clima. Precisamos compreender nossa essência e nossa origem! Ainda está em tempo.

Todos os encontros são gratuitos e não precisam de inscrição prévia. Basta chegar a tempo de garantir lugar.

4 de outubro, 19h, no Instituto Tomie Ohtake: conversa com o fotógrafo Christian Cravo

A exposição do fotógrafo baiano – Mariana: Christian Cravo -, inaugurada no Instituto Tomie Ohtake (Rua Coropé, 88, Pinheiros, São Paulo) em 19 de setembro depois de passar por Salvador e Fortaleza, serve de fio condutor para o bate-papo com Aiton Krenak.

As 26 fotografias expostas retratam as memórias dos moradores de Mariana, Minas Gerais, sobreviventes de uma das maiores tragédias ambientais do país: o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, que matou 19 pessoas e desabrigou centenas de famílias.

A aldeia dos Krenak fica às margens do Rio Watumais conhecido como Rio Doce -, em coma por causa da lama tóxica que destruiu a vida em suas águas até o fim de seu curso, no mar.

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Para o artista Bené Fonteles, coordenador do Movimento Artistas pela Natureza, “Cravo não só dá testemunho à dor, mas à transcendência entre a beleza estética que pontua a tragédia e a arte que não pode prescindir do imenso de uma verdade poética… não são simplesmente fotografias destes rastros e restos… mas, a revelação do extraordinário quase místico de pedaços do que ficou oculto no íntimo das casas mineiras que pareciam esperar a eminente tragédia… não o registro do sinistro, mas um sentido vasto de abandono que no ‘oculto do mistério se escondeu’ (Caetano Veloso) …. retratos de uma Minas que não só dói, mas incomoda no roto retrato e dele vaza mais do que lama e do que caos… vaza do avesso uma imensa, triste, solidão…”.

5 de outubro, 14h30 às 17h, na Casa do Povo: diálogo com o sociólogo uruguaio Eduardo Gudynas

O sociólogo uruguaio Eduardo Gudynas está no Brasil para o lançamento de seu livro Direitos da Natureza: ética biocêntrica e políticas ambientais e, a convite da Editora Elefante (que edita a publicação) e da Coalizão pelo Clima, se encontrará com Ailton Krenak em um espaço popular e muito acolhedor, a Casa do Povo (Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo) para refletirem sobre alternativas ao desenvolvimento e ao colapso ambiental. A mediação será da socióloga indígena Pagu Rodrigues.

Veja mais informações na página do encontro no Facebook.

5 de outubro, 19h, na Praça das Artes: ‘O Limite da Natureza’: conversa com a artista visual Berna Reale

O público paulistano já conhece bem a Virada Cultural e a Virada Sustentável. Pois, agora, a cidade tem também o Festival Mário de Andrade – A Virada do Livro, uma festa de rua dedicada ao livro e à leitura promovida pela Secretaria de Cultura de São Paulo, que será realizada em onze pontos da cidade, entre eles a Biblioteca Mario de Andrade e a Praça das Artes. Estes dois locais formam o eixo principal do evento – chamado de Corredor do Livro – que ainda reúne o Teatro Municipal, passando pela Rua Coronel Xavier de Toledo.

O evento terá as presenças de Mia Couto, Fernanda Montenegro, Milton Hatoum, Zamaswazi Dlamini (neta de Mandela) e de Ailton Krenak, que, em 6 de outubro, domingo, conversará com Berna Reale, artista visual do Amazonas, sobre natureza, a ação predatória do homem – a civilização como uma crescente ameaça a si mesma – e a criação artística, com mediação de Robinson Borges. Será na Praça das Artes, na Av. São João, 281, no Centro Histórico de São Paulo.

Berna Reale é perita criminal do Centro de Perícias Científicas do Estado do Pará e usa seu corpo em performances e instalações para propor reflexões sobre o cenário sociopolítico atual, com ênfase na violência.

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8 de outubro, 20 h, no Espaço Itaú de Cinema: ‘Franz Kajcberg: Manifesto’, pré-estreia do filme e conversa com Bené Fonteles e Regina Jehá

No documentário de Regina Jehá – Frans Krajcberg: Manifesto – que terá pré-estreia em 8 de outubro, no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569, Consolação), estão memórias e reflexões do artista polonês, que ignoram a cronologia: as expedições à Amazônia, o ateliê Natura instalado num sítio ao sul da Bahia, sua militância ecológica e seu amor pela natureza, pelos indígenas e pelas pessoas que encontrou por este país. Tudo revelado numa atmosfera íntima e pessoal, que só foi possível graças à longa amizade entre a diretora e o personagem e à grande admiração de Regina por ele.

Frans Krajcberg amou o Brasil como poucos. Brasileiros, inclusive. Foi um dos europeus – como Pierre Vergé e Margaret Mee – que adotaram nosso país como pátria. Amou e defendeu a natureza e os povos indígenas com sua arte. Se desesperou quando viu partes da floresta amazônica em chamas por causa das queimadas. Morreu sem ver a desgraça que se abateu, este ano, em sua Amazônia tão amada.

Krajcberg usou restos e fragmentos de incêndios florestais para protestar: troncos de árvores mortas se transformaram pelas mãos deste arte-ativista ou artivista (como o artista Bené Fonteles denominou os artistas ativistas). Amou a Amazônia e, em 1978, fez uma viagem pelo Rio Negro com amigos – o artista Sepp Baendereck e o crítico de arte Pierre Restany, que resultou na criação do Manifesto do Rio Negro ou Manifesto do Naturalismo Natural. Ah…, quem viaja por esse rio, não sai de lá igual.

Regina Jehá fez um filme delicado, no ritmo da natureza, sobre essa viagem incrível e seu protagonista inesquecível, que, finalmente, poderá ser visto por muitos brasileiros. Em 8 de outubro, o assistirei pela segunda vez. E não quero perder, por nada, a conversa entre Regina, Krenak e Fonteles, com mediação de Iara Biderman.

Acompanhe as atualizações do encontro e também notícias sobre o filme em suas páginas no Facebook. E divulgue o card abaixo.

A estreia do filme será em 10 de outubro nas telas do circuito Itaú de Cinemas, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belém e Vitória.

10 de outubro, às 19h, na UFRJ: Constelações Insurgentes: fim do mundo e outros mundos possíveis’, conversa com a psicanalista Suely Rolnik

O encontro entre estes dois influentes pensadores da atualidade promete. Reúne o fim do mundo mencionado por Krenak em seu novo livro, e os outros mundos possíveis da nova obra de Rolnik.

O fim do mundo a que Krenak se refere expõe todas as crises pelas quais estamos passando: sociais, políticas, econômicas e ecológicas. E ele próprio levanta questões: será este o fim de um mundo embasado em uma “abstração civilizatória” que nega a diversidade e a pluralidade? Podemos criar outros modos de “experimentar o prazer de estar vivo”?.

Rolnik sugere que “o capitalismo pode ser pensado como uma força que se impõe por meio da colonização de terras, povos e desejos” e convida que “busquemos alianças que liberem a vida e o imaginário dessa clausura”. Para ela, resistência e desobediência enfrentam a opressão, compondo novas possibilidades de existir e de resistir.

O encontro, com mediação de Tatiana Roque, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, será no Auditório do Colégio Brasileiro de Altos Estudos, CBAE, da UFRJ: Rua Rui Barbosa, 762, Flamengo, Rio de Janeiro. Acompanhe as atualizações em sua página no Facebook e espalhe o meme do evento, abaixo.

Fotos: Sergio Cohn (Krenak), Divulgação Tomie Ohtake (Christian Cravo), Divulgação (Eduardo Gudynas e Franz Krajcberg), Divulgação Nara Roesler (Berna Reale) e Arquivo Pessoal (Suely Rolnik)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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