Mundo Novo e a vida que pulsa em uma comunidade quilombola

São aproximadamente cinco horas da manhã no sitio Mundo Novo, em Buíque, Pernambuco. O cheiro de café e milho cozido atravessa a cortina que separa a cozinha da sala. Escuto o burburinho das meninas – Mônica, filha mais nova de Josefa Bezerra de Matos, 52 anos, Luana e Deumázia, filhas de criação -, no quarto ao lado, combinando entre si as tarefas do dia.

Pâmela, a filha do meio, chegou de São Paulo há pouco, onde trabalhava com o marido em uma granja de Campinas. Com o dinheiro, conseguiram construir uma casinha no terreno dos pais onde pôde terminar a gestação do primeiro filho com tranquilidade. Paloma, a segunda filha do meio, acabou de se casar e está grávida. E Patrícia, a filha mais velha, mora com o marido e os dois filhos em outra casa construída no terreno dos pais com o dinheiro do trabalho, fora de Pernambuco.

Do lado de fora da casa, Waltinho, único filho homem e caçula de Josefa e Walter Sampaio de Matos, 53 anos, grita com as vacas e com as galinhas. Atualmente, como qualquer família do campo, para sobreviver pratica-se a agricultura familiar para subsistência, criação de pequenos animais domésticos e pouquíssimo gado.

(Contei sobre Josefa (na foto, abaixo) e Walter no primeiro texto que escrevi para o Conexão Planeta sobre o julgamento do STF sobre a demarcação das terras dos quilombolas. Ela é presidente da Associação dos Quilombolas e Descendentes do sítio Mundo Novo)

Além dos que saem para trabalhar fora, outros, como Josefa, trabalham limpando o mato
das fazendas do entorno, pertencentes à oligarquia do município

Durante todo o ano, a família planta roças de milho, feijão “de arranca”, feijão “gandu”, fava melancia, batata-doce, macaxeira, jerimum e fazem farinha. Mas o trabalho no roçado não é suficiente.

Além da estiagem que, segundo o governo, já é a maior em 50 anos, a indisponibilidade de terras somada à falta de tecnologia como, por exemplo, irrigação, são entraves para o desenvolvimento das potencialidades locais. “Uma das coisas que mais busco pra comunidade é a construção de poços artesianos, mas sem as terras regularizadas é muito difícil conseguir. Ficar na mão do governo ou da prefeitura é ruim. Eles sequer arrumam a estrada! Você viu a dificuldade que é chegar aqui”, comenta Walter.

Vista do Quilombo Mundo Novo, do alto da Serra do Fasola, em Buíque

Buíque, além de possuir as marcas da corrupção, que consome as pequenas cidades do interior nordestino, e um índice de analfabetismo superior a 40%, ainda detém um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) do estado.

Aos jovens do quilombo, resta como alternativa o “trabalho alugado”, ou seja, fazer uma jornada das 7h às 17h, limpando mato ou plantando palma nas fazendas do entorno. A maioria das terras pertence à oligarquia local. Recebem, por nove horas de trabalho, R$ 25. Outros jovens preferem migrar para São Paulo, Minas Gerais ou Goiás para trabalhar no corte da cana-de-açúcar ou em granjas. Todos os anos, viajam em março e retornam para casa em dezembro.

Em termos de saúde ainda está muito presente a medicina caseira. Os quintais com diferentes tipos de ervas e árvores erva-cidreira, capim — santo, aroeira, quixabeira, caju roxo, entre outras, são usadas na produção de chás e xaropes.

A falta de um hospital no município, somada aos relatos das dificuldades do acesso aos serviços básicos de saúde, indica que o problema perdura por décadas. Quando há algum morador doente, as famílias se mobilizam e, em último caso, repetem o que faziam há cem anos: o doente é colocado em uma rede e diversas pessoas se revezam, levando-o para o centro de Buíque de onde se parte para a cidade vizinha, Arcoverde, a 25 km.

 Tradição e identidade 

O samba de coco tem origem nas reuniões familiares, realizadas para definir a construção das casas de taipa.
A pisada servia para assentar o barro e também para tornar o trabalho suportável

Nas primeiras décadas do século XX, foi diminuindo o número de pessoas que moravam nas locas de pedras. A construção de moradias à base de varas finas de madeira e barro molhado começavam a surgir. As casas de taipa eram construídas com trabalho coletivo. “Eles pegavam os esteios e botavam formando o telhado em cima, aí tirava uns paus e fazia as paredes, depois cavavam um barreiro perto pra aguar e mexia aquela mistura com uma enxada. Depois chegava aquele mutirão de gente e tapava as paredes com o barro. Aí tudo ficava perfeito. Depois alguém avisava que, de noite, ia ter samba de coco (foto acima). Aí todo mundo junto de novo: um cavava, outro deixava plano enquanto o outro molhava o chão. Quando era de noite era o samba até alisar o chão”, conta Josefa.

O samba de coco é uma tradição que remete aos primórdios dos quilombos. Foi reelaborado culturalmente e recebeu um novo sentido social no processo de reivindicação e mobilização. Rememora as gerações passadas e as festas cujo objetivo não seria apenas o trabalho mútuo para construção de moradias de taipa, mas também a afirmação de sua identidade étnica para a sociedade brasileira.

Até hoje, provoca engajamentos políticos múltiplos e vários planos de significação — dança, ataque, conflito, ódio, revolta, medo, prazer, riso, esperança e liberdade “Quando o processo acabar e nós estivermos livres dessa angústia, meu filho, a gente vai ter samba!”, diz dona Josefa enquanto termina de lavar a louça.

Na seleção de fotos a seguir, um pouco mais do cotidiano e das histórias dos quilombolas do sítio Mundo Novo, que acompanho há três anos.

A benção no casamento é uma tradição desde o início dos quilombos. Antes da festa começar, a noiva (ou o noivo) se ajoelha diante dos pais e pede desculpas pelos erros cometidos. Quando o perdão é concedido, a festa começa. Na foto, Josefa e Walter abençoam sua filha Paloma

José, irmão mais velho de Josefa em seu oratório particular, montado em uma antiga casa de taipa que pertenceu a seus avós

A família de dona Josefa observa o quilombo do alto da serra

Graça, irmã mais nova de Josefa se prepara para cerimônia de seu casamento

Graça, uma das irmãs de Josefa, em sua roça. A região passa por uma das piores estiagens em 50 anos

Ivone mostra a casa da família, onde morou por 40 anos. A casa foi construída em uma noite durante as sambadas

Josefa começa o dia de trabalho cuidando de seu terreiro

Parte da população da comunidade trabalha periodicamente fora do estado, a outra parte vende o pouco que na feira pública local

Edição: Mônica Nunes / Fotos: Tiago Henrique

Fotojornalista independente, paulistano baseado entre o agreste e o sertão de Pernambuco desde 2014, se dedica a documentar a vida de pessoas que detêm os conhecimentos e as técnicas necessárias para a preservação da cultura popular e as transformações socioculturais do sertão contemporâneo

Tiago Henrique

Fotojornalista independente, paulistano baseado entre o agreste e o sertão de Pernambuco desde 2014, se dedica a documentar a vida de pessoas que detêm os conhecimentos e as técnicas necessárias para a preservação da cultura popular e as transformações socioculturais do sertão contemporâneo

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