Muito além do entretenimento, zoos e aquários têm função educativa e de pesquisa da vida selvagem

Muitos de nós sabemos que o animal estampado na cédula de R$ 20 é o mico-leão-dourado. O que poucos conhecem, contudo, é a fabulosa história de recuperação desse pequenino primata, endêmico da Mata Atlântica.

Carismático e muito dócil, o mico-leão-dourado, Leontopithecus rosalia, já esteve criticamente ameaçado de extinção, uma das categorias mais severas de ameaças. No final dos anos 1960, restavam pouco mais de 150 animais vivendo livres em matas ao norte do estado do Rio de Janeiro. O desmatamento para retirada de madeira, agricultura e pecuária – junto da caça para o comércio ilegal – contribuíram para a drástica redução das populações do mico-leão. 

O destino desse animal começou a mudar graças aos alertas do primatólogo Ademar Coimbra-Filho, que na década de 1970 atraiu a atenção da comunidade científica para a necessidade da conservação da espécie. Os esforços de Coimbra-Filho culminaram na criação da Reserva Biológica de Poço das Antas e em um bem sucedido programa de reprodução em cativeiro.

Atualmente, a população do mico-leão-dourado chega a 3.200 indivíduos, resultado do esforço de uma rede de colaboradores, liderados pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), que inclui parceiros como o WWF. O resultado do esforço é, hoje, modelo de conservação para o mundo todo.

No centro dessa iniciativa, está o trabalho do Smithsonian National Zoological Park . Esse zoo, localizado em Washington DC, coordena o manejo de animais nascidos em cativeiro e reintroduzidos em fragmentos de florestas. Os trabalhos de reprodução da espécie em diferentes zoológicos no mundo, combinados com animais da natureza, resultam na variabilidade genética necessária para a viabilidade das populações de mico-leão-dourado. 

Esse é apenas um exemplo de como zoológicos e aquários modernos mudaram seu foco nas últimas décadas. Frequentemente, zoológicos e aquários públicos se associam a instituições de pesquisa ou conduzem seus próprios programas de investigação e, habitualmente, se especializam em ecossistemas regionais ou espécies emblemáticas.

Quando sintonizados com normas de bem-estar animal, zoos e aquários constroem recintos que buscam recriar aspectos básicos dos ambientes naturais, que geram conforto aos animais cativos. Há, evidentemente, diferenças técnicas entre manter uma baleia orca, um pequeno réptil ou uma ave. Um grande cetáceo nunca encontrará no cativeiro as condições ideais de vida como aquelas com que ele se depara nos oceanos. Entretanto, um viveiro amplo entremeado por árvores e abrigos pode prover condições adequadas para uma arara-azul viver e, até mesmo, se procriar, por exemplo.

Visando promover a qualidade de vida e o bem-estar animal, as necessidades das espécies cativas são estudadas por equipes multidisciplinares, incluindo biólogos, médicos veterinários, nutricionistas, tratadores, engenheiros e arquitetos.

Educar para a compreensão do mundo natural  

Hoje, zoológicos e aquários públicos têm funções diferentes daquelas do passado, de apenas manter os animais enclausurados para exibição pública. Essas instituições deixaram de ser “apenas” um local de lazer e entretenimento, assumindo um papel muito mais ativo na conservação da vida selvagem e na promoção do aprendizado de conservação entre seus visitantes. Têm a função de educar a sociedade, mostrando a riqueza faunística que compõe nosso planeta, nos direcionando à compreensão e reflexão sobre o mundo natural.

Ao permitir que pessoas que moram em cidades tenham “encontros reais” com a vida selvagem, zoos e aquários contribuem fortemente para o aprendizado em conservação. Isso inclui a sensibilização e a oferta de oportunidades para que mais e mais pessoas conheçam a fauna silvestre de localidades longínquas. Afinal, não são todos que podem viajar para a África – ainda mais agora, com o dólar a R$ 4,40 – para observar uma girafa ou um leão em seu habitat natural.

Além disso, pesquisas sobre a percepção e o interesse do público em zoológicos e aquários fornecem uma base de extremo valor para o campo emergente do turismo da vida selvagem. Lições valiosas sobre o possível impacto dos encontros de humanos com os animais silvestres, incluindo atitudes e comportamento dos visitantes, podem ser extraídas de pesquisas em zoológicos e aquários. Revertido para o ecoturismo, esse conhecimento reduz os eventuais impactos da visitação em áreas naturais e ajuda a promover a conservação da biodiversidade.

Por isso, refuto o Projeto de Lei que tramita na Câmara dos Vereadores de São Paulo, que restringe fortemente a atuação de zoológicos e aquários na capital paulista. A lei se origina no movimento do direito dos animais, mas – ao que parece – se embasa pouco no conhecimento científico vigente.

Avanços civilizatórios sim, mas com base no conhecimento científico

Em muitos países, incluindo o Brasil, ainda persiste a percepção dos zoos e aquários como locais de mero entretenimento e, em alguns casos, essa impressão é justificada. Um setor frequentemente hostil aos zoos e aquários é o dos grupos de direitos dos animais, que dão ênfase aos interesses dos animais como indivíduos em detrimento da conservação de espécies ou de ecossistemas. Outra oposição vem de parte do movimento de conservação, que discorda da justificativa de retirar animais do meio selvagem. Em alguns casos, os opositores podem ter razão. 

Se zoos e aquários pretendem exercer um papel ativo na conservação, deverão enfrentar a oposição de modo transparente, compreendendo as críticas e explicando suas ações de maneira a ganhar o apoio da sociedade. Devem também deixar claro que a sua missão é de conservação, conduzida em conjunto com padrões elevados de bem-estar animal. Sem dissimular ou criar dúvidas de que seus esforços de conservação são legítimos. 

No mundo atual, virtualizado ao extremo, perdemos vertiginosamente a capacidade de interagirmos com a realidade e de vivenciarmos experiências (escrevi sobre esse tema, aqui, no Conexão Planeta). Como contraponto, zoos e aquários estão em uma posição única para educar o público sobre questões de conservação. Por meio deexposições educativas, zoos e aquários podem trabalhar para estimular as pessoas a se preocuparem com o estado de nossos ambientes. Se bem conduzidas, essas experiências influenciam o aprendizado e a experiência dos visitantes. Promovem a educação e habilitam os visitantes a fazer escolhas de estilo de vida que sejam amistosas à natureza. 

A busca de interlocução com os especialistas deveria ser a essência da tomada de decisão para os legisladores. Bem fundamentada, a legislação pode ajudar a estabelecer padrões de referência de bem-estar animal e sustentabilidade cada vez mais exigentes, desde o controle da origem até a fiscalização do transporte e aclimatação dos animais. 

Não é de hoje que o conhecimento científico tem contribuído muito para o aperfeiçoamento da sociedade. Ao gerar informações sobre comportamento animal, história de vida, manejo de fauna, gestão da qualidade dos recintos, tratamento de doenças e reprodução, zoos e aquários contribuem para o avanço da biologia da conservação. De outro lado, legisladores têm muito a ganhar ao ampliar suas relações com especialistas, recorrendo aos seus conhecimentos e participando de iniciativas de parceria. Como resultado, ganham a natureza e a sociedade, profundamente preocupada em apoiar iniciativas integrada de conservação da biodiversidade, bem-estar e sustentabilidade.

Foto: Daiga Ellaby (abertura) e Uwe Conrad / Unsplash

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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