Mudanças climáticas podem matar 215 mil por ano no fim deste século

Mudanças climáticas podem matar 215 mil por ano no fim deste século

O aumento da concentração de gás ozônio e material particulado nas camadas mais baixas da atmosfera, induzido pela mudança do clima, pode causar a morte de até 55.600 pessoas em 2030, revela um estudo publicado no periódico Nature Climate Change. Elas serão vítimas de doenças cardíacas e respiratórias, derrames e até câncer. E o problema tende a se tornar mais grave no fim deste século: o número de vítimas pode bater os 215 mil por ano, a partir de 2100, se as emissões continuarem no ritmo atual, como mostra a pesquisa, uma das primeiras a isolar o efeito das mudanças climáticas na mortalidade relacionada à poluição atmosférica.

Os pesquisadores descobriram que as transformações do clima podem prejudicar ainda mais a qualidade do ar por alterar os processos de ventilação e diluição de poluentes, a intensidade de reações fotoquímicas, a troca de gases e facilitar os incêndios florestais. O principal resultado dessas mudanças está na produção de um gás chamado ozônio: ele estará presente em excesso em regiões poluídas, especialmente na estação mais quente; e escasso  em regiões remotas, devido a concentrações maiores de vapor de água.

O ozônio é um gás naturalmente presente na atmosfera em baixas concentrações. O que o torna um poluente tóxico é a emissão de compostos orgânicos voláteis, como o monóxido de carbono e os óxidos de nitrogênio, produzidos pela queima de combustíveis fósseis, criação de animais e agricultura. A partir deles, forma-se o chamado smog fotoquímico, uma poluição desencadeada pela luz solar, que gera o ozônio como produto.

Embora o ozônio estratosférico ajude a proteger a Terra dos raios ultravioleta, o excesso desse gás nas camadas mais baixas da atmosfera afeta o crescimento das plantas, reduz a produtividade agrícola e, sobretudo, causa doenças. O ozônio inalado, em contato com a nossa corrente sanguínea, eleva a ocorrência de enfisemas pulmonares, bronquites e doenças cardiovasculares, como a arteriosclerose. Pessoas que se expõem por longos períodos ao ozônio costumam ter a capacidade pulmonar reduzida, desenvolvem asma e reduzem significativamente a expectativa de vida.

Algo parecido acontece com o material particulado, uma mistura de sólidos de origem diversa e diâmetro reduzido, produzido especialmente pela queima de diesel e gasolina, queima de biomassa vegetal e emissões de amônia na agricultura. A presença dele está relacionada a uma maior incidência de câncer respiratório, arteriosclerose, inflamações no pulmão e agravamento dos sintomas de asma.

Os pesquisadores analisaram vários modelos e projetaram quatro cenários de comportamento da produção de ozônio na emissão de poluentes para 2030 e 2100. Três deles indicam um aumento global na quantidade de ozônio da atmosfera e apenas um aponta para uma possível redução. Para algumas regiões, como o leste asiático e a Índia, a concentração de ozônio será maior até nas projeções mais otimistas de corte de gases.

As doenças causadas pela poluição do ar já são responsáveis por uma morte em cada dez no mundo, de acordo com um projeto chamado Global Burden of Disease, que reúne uma série de estudos científicos sobre o tema. A maioria das mortes ocorre na China e na Índia, economias que se desenvolvem rapidamente. Em Pequim ou Nova Déli, em dias de muita poluição, o número de partículas no ar pode ser superior a 300 microgramas por metro cúbico. O número recomendável é de até 25 microgramas.

A poluição do ar se tornou o quarto maior risco de morte, atrás apenas da pressão alta, da dieta inadequada e do fumo. Poupar vidas depende fortemente da ação climática. Apenas a redução drástica na emissão de gases de efeito estufa poderá salvar milhares de vidas.

*Texto publicado originalmente em 31/07/2017 no site do Observatório do Clima

Foto: divulgação

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