Morte do ator Domingos Montagner expõe impactos das usinas hidrelétricas no Brasil

morte-de-domingos-montagner-expoe-impactos-das-usinas-hidreletricas
Os índios e os povos ribeirinhos falam, avisam, reclamam, choram, gritam, mas não adianta. O Brasil – seja lá qual for o governo – continua avançando em sua estratégia insana de produzir energia hidrelétrica a qualquer custo (!!!) e, por isso, instalar usinas ao longo dos rios mais importantes e vitais do país. Há mais de 15o usinas em operação, nove estão em construção e mais de 25 projetos foram autorizados pelo governo. Mais cedo ou mais tarde todos nós – não só os indígenas e os ribeirinhos – choraremos por isso.

Hoje, inúmeros brasileiros choram a morte do ator Domingos Montagner nas águas do rio São Francisco, em Canindé, Sergipe. E não é apenas por causa de seu trabalho “global”, mas, sim, porque ele foi um cara muito humano, generoso, carinhoso, gentil, simpático, que não sucumbiu à fama e que, antes de integrar o grupo de artistas dessa emissora (na qual entrou já com 49 anos), tinha uma trajetória linda de palhaço no Circo Zanni, que ajudou a fundar. Ele não só conquistou o elenco dessa novela, mas a todos que conheceu em Canindé, no Sergipe, onde eram gravadas as cenas locais.

O que aconteceu foi uma fatalidade, mas, possivelmente um crime. Na Orla da Prainha, local onde Domingos e Camila nadavam e foram surpreendidos por uma onda intensa e inesperada, é considerado perigoso. Mas não foi sempre assim. O rio famoso não é naturalmente traiçoeiro, como chegaram a dizer. Pode ser misterioso, mas é, acima de tudo, sofrido e mal tratado. O movimento e o volume de suas águas – ali e em várias outras regiões – se alterou com a instalação da Usina Hidrelétrica de Xingó e sua barragem, que fica cerca de dois quilômetros acima de onde morreu o ator. O rio ficou raso, com muitas pedras e correntezas, além de poços profundos que criam redemoinhos. Foi num deles que “caiu” o ator. E a questão é que falta sinalização para alertar os frequentadores.

O sociólogo Roberto Malvezzi – que mora em Juazeiro, na Bahia e realizou oficina sobre o rio São Francisco com os atores, os diretores e os produtores da novela -, escreveu em seu blog, a pedido de amigos, sobre a morte de Domingos e o que acontece com as águas do São Francisco por causa de Xingó. Ele contou que, uma semana antes da morte do ator, no mesmo local também morreram dois irmãos, afogados. E isso é comum.

Por orientação do ONS – Operador Nacional do Sistema, o excesso de água acumulada nas usinas hidrelétricas pode ser liberado pelas turbinas, de repente (em março deste ano, por decisão judicial, a usina foi autorizada a aumentar sua vazão de 800 m3/segundo para 900 m3/segundo), mas a questão é que isso torna a convivência com os rios perigosa e impossível.

É o que acontece também no rio Xingu com os índios Juruna da Volta Grande. Eles sofrem com esses vazamentos periódicos por causa da barragem Pimental, de Belo Monte. “Já perderam barcos com ‘tsunamis artificiais’ e não deixam as crianças brincarem sozinhas na beira do rio”, comentou Brent Milikan, especialista em barragens e diretor da International Rivers no Brasil, em seu perfil no Facebook. Ele também contou que, em uma operação desse tipo, a hidrelétrica de Lajeado no rio Tocantins provocou uma piracema que levou toneladas de peixes à morte e acrescentou: “Este é um aspecto altamente problemático da indústria de barragens e tomara que a investigação sobre a morte de Domingos considere essa possibilidade”.

Foi preciso morrer um ator “global” para que o São Francisco e esse tema – tão polêmico – ganhassem visibilidade na imprensa e também por meio de depoimentos como os que citei, divulgados em um blog pessoal e numa rede social.

Malvezzi disse que Domingos se tornou mais um “encantado”, como todos que morrem nesse rio. Já o índio Tafkeaque contracenou com o ator na novela Velho Chico e, na trama, salvou Santo (personagem interpretado pelo ator) do afogamento no rio –, contou a um dos atores do Circo Zanni que sua aldeia estava de luto. A página da trupe no Facebook divulgou: “Ele me pediu pra passar uma mensagem, pois ontem teve luto na aldeia e fizeram um ritual pra alma do Domingos. Nisso, apareceu um senhor e disse: ‘Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo hoje… Se tornou um novo protetor do Rio São Francisco, que estava tão esquecido. Porque esse Rio não pode morrer’. A novela contou todos os mistérios do Rio, e esse foi um deles. Mas ele se tornou um Ser de Luz, pois a água não tira vida. A água dá a vida. Fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, ele se despediu do corpo e a alma nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso. Então, temos que fazer um ritual para que os brancos entendam e sejam fortes, pois ele está bem. Ele é agora um protetor do rio São Francisco”.

Tomara que o desaparecimento de Domingos não seja em vão. E as vozes dos índios e dos povos ribeirinhos sejam, finalmente, ouvidas.

Foto: Divulgação/Globo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta