Morre Ramba, uma das moradoras do Santuário dos Elefantes Brasil

Morre Ramba, uma das moradoras do Santuário dos Elefantes Brasil

Ela descansou. Agora está em paz, sem sofrimento. Na manhã da quinta-feira, 26 de dezembro, Ramba foi encontrada sem vida, no Santuário dos Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso (leia texto a respeito da criação do santuário, em 2016).

Como havíamos contado neste outro post, em outubro, a elefanta de 3,6 toneladas fez uma longa viagem, de avião e por estradas, para chegar ao Brasil, vinda do Parque Safári Rancágua, no Chile, onde ela ficou desde 2011, quando foi tirada de um circo.

Ramba viveu boa parte de seus 53 anos em circos. Nunca teve liberdade, nem desfrutou de sua natureza: andar e viver em bando. Durante, pelo menos, 40 anos, foi passando de um circo para o outro, sempre submetida a maus-tratos, privações, humilhações, amarrada com correntes e forçada a participar de espetáculos cruéis no picadeiro.

Na sexta (28/12), em suas redes sociais, o Santuário dos Elefantes anunciou o falecimento da elefanta, contando mais sobre sua história e lamentando o ocorrido, em uma linda despedida.

Abaixo, reproduzimos o texto na íntegra:

É com imenso pesar que comunicamos o falecimento de Ramba.

Nossa vovó teimosa, linda e maior que a própria vida, não tinha mais forças para lutar contra seus problemas renais.

Ainda que após a necropsia tenhamos mais detalhes, sua morte, apesar de dolorosa, não nos surpreendeu tanto. Quando Ramba foi diagnosticada com doença renal, ainda no Chile, há sete anos, tínhamos muita esperança que ela conseguisse viver por mais um ano, no mínimo. Milagrosamente esse ano transformou-se em sete, dando-lhe forças que a ajudaram a chegar ao Santuário.

Parece que os elefantes possuem um conhecimento profundo e inexplicável sobre a vida. Prometemos, repetidas vezes, que ela viria para o Santuário e ela lutou para chegar até aqui.

Aqui encontrou uma alegria gigantesca, conseguiu explorar como sempre desejara e descobriu o sentido da verdadeira amizade. Talvez fosse tudo o que ela precisava e merecia.

Ela se entregou à sua nova vida mas, no processo, parece que desistiu de lutar. Ela estava cansada.

Na manhã de quinta-feira, 26 de dezembro, Rana e Maia estavam no galpão sem Ramba. Isso acontecia sempre, Ramba gostava de explorar mais que Rana e, ocasionalmente, retornava à pastagem para um bom banho de lama pela manhã, enquanto Rana ficava próxima ao galpão antecipando o horário do café da manhã.

Saímos para encontrá-la e a descobrimos em um dos seus lugares favoritos, o recinto número 4, além do riacho. Ela parecia estar dormindo. Sua morte deve ter sido repentina pois a grama ao seu redor estava intocada.

Apenas um lindo elefante, deitado em um belo pasto, os olhos suavemente fechados e o rosto doce, tão calmo como costumava ser.

Como não sabíamos se Rana tinha a percepção do que acontecera, a levamos de volta para sua irmã. Sentimos que não sabia, porque quando se aproximou de Ramba arregalou seus olhos, a cheirou profundamente, repetidas vezes e depois murmurou baixinho, também, repetidamente. Cheirou e tocou todo o corpo de Ramba parecendo tentar entender o que tinha acontecido.

Após vários minutos ela ficou quietinha e permaneceu ao lado de Ramba, pastando. E ali ficou, o resto do dia ao lado da amiga.

Um pouco mais tarde, Maia também foi levada para ver Ramba e se despedir. Ela também a cheirou e a tocou, ficando por cima dela, como costumava fazer com Guida, certificando-se que sua barriga a tocava. Isso chamou a atenção de Rana por um momento, que pareceu querer protegê-la da barriga de Maia, mas se acalmou ao ver que suas intenções eram gentis e amorosas.

A visita de Maia foi mais curta, por sua própria vontade. Como sempre deixamos que decidam o que querem e precisam, quando estava pronta, foi embora.

Embora sua visita tenha sido breve, em comparação ao tempo que passou com Guida, Maia e Rana demonstraram uma delicada reverência em honrar a amiga.

Ramba foi especial. Havia algo em sua presença que nos trazia de volta à razão e fazia com que nossos corações sorrissem, ao mesmo tempo.

Nos apaixonamos por ela, quando a conhecemos, há sete anos. Ela foi parte do motivo de seguirmos em frente com a ideia de um Santuário no Brasil. Não havia como deixá-la para trás ou esquecê-la depois de a ter conhecido. Parece que não somente os humanos se sentiram assim. Ramba teve um efeito de sustentação sobre Maia, Rana a adorava e até Lady parecia relaxar e confiar em sua presença.

Já sabíamos que cada dia de Ramba, no Santuário, seria uma dádiva, não apenas para ela, mas para todos que tiveram a oportunidade de conhecê-la. Todos foram, de alguma forma, tocados por ela.

Embora nosso desejo seja que todos os elefantes possam ter mais tempo no Santuário, somos muito agradecidos por Ramba ter, aqui, encontrado sua alegria”.

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Foto: reprodução Facebook Santuário dos Elefantes Brasil

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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