Mistura: abobrinha com conteúdo

Mistura: abobrinha com conteúdo

– Marcinho, vamos brincar?
– Vamos. Mas, a mãe mandou jantar primeiro.
– Tá bom.
– Vamos lá em casa. Cê espera eu jantar?
– Espero.
– Mãe, tem mistura?
– Não, filho. Hoje, só arroz com feijão. Tá no fogão. Não tem carne mais. E fui catar ovo, não tinha. As galinhas não botaram hoje.
– Tá bom.

No prato de alumínio, Marcinho derrubou umas cinco colheradas de arroz e deixou cair o resto do feijão que tinha na panela. Um tanto.

Pegou uma colher. Acocorou-se  num canto da cozinha. A colher mergulhava no monte de arroz com feijão misturado no prato e vinha carregada de cheiro de alho frito. Marcinho comia que era uma beleza.

No meio da janta, a menina, que esperava ali num canto, pediu licença

– Marcinho, vou lá em casa. Quando cê acabar aí, me chama.
– Tá.

– Mãe, quero jantar.
– Outra vez?
– É.
– Tá bom. Tá no fogão. Seu pai tá jantando agora. Tem arroz, feijão, abobrinha batidinha, bife…
– Só quero arroz com feijão.

A menina se serviu: arroz com feijão, purinho.

O pai, que comia quieto, perguntou:

– Não vai querer mistura?
– Não. Só isso mesmo.

Estranhou:

– Uai, vai comer com colher?
– Vou.

O pai baixou a cabeça, meio sorriu e comentou:

– Ela viu lá.

– O Marcinho tá te chamando pra brincar.
– Já vou.

Limpou o prato. Foi.

Mistura. Se você olhar no dicionário vai encontrar o significado de mistura como miscelânea, composto, fusão, mescla, confusão.

Mas, em algumas regiões do Brasil, mistura é o complemento, a guarnição que acompanha o elemento principal do prato. Então, temos o prato feito perfeito: arroz e feijão e, de mistura, abobrinha batida e bife. E ainda uma salada de alface com tomate e pepino, temperada com limão cravo, sal e azeite.

Esta é a mistura.  Agora, imagina se eu falar que meu arroz com feijão leva guarnição de abobrinha… Sou deserdada…

Vamos valorizar esta que é uma das misturas que melhor acompanham o irrestrito arroz com feijão do nosso dia a dia. A abobrinha é muuuuiiiiiito versátil. É clássica, é simples, é caipira, é gourmet.

Outro dia comi uma abobrinha em conserva com pimenta verde acompanhada de vieiras. Já preparei em conserva, fiz espaguete de abobrinha, abobrinha recheada, grelhada para sanduíche natural. Tem muita opção.

A abobrinha caipirinha, batidinha, minha proposta pra hoje, a gente faz do jeito mais tradicional. Assim: pega a abobrinha e, com uma faca pequena e afiada vai batendo nela ininterruptamente, pra que ela fique picada de maneira desorganizada. Veja que não é pra cortar em cubinhos, nem laminar, nem fatiar na horizontal. É batidinha com o corte da faca. Este processo demanda mãos firmes pra não se machucar. E alguns pedacinhos de abobrinha vão cair fora da vasilha mesmo.

Também dá pra ralar. Quase o mesmo efeito. Mas, vai, experimenta fazer batidinha, vai…

Agora, refogue um dente de alho picadinho no azeite e jogue a abobrinha batida. Deixe cozinhar por dois minutinhos, no máximo, pra que ela fique al dente. Salpique um punhadinho de sal, pimenta do reino moída na hora e está pronta.

Se quiser incrementar, ainda segundo os costumes caipiras, bata um ovo com um garfo e derrame sobre a abobrinha. Deixe cozinhar só mais um pouquinho, só para que o ovo fique um pouco firme, mas siga cremoso.

Prontinho.

Arroz, feijão e abobrinha batidinha. E bife. E cebola. E salada de alface temperada com limão cravo.

E vamos brincar.

Ah, e a música para acompanhar só pode ser sertaneja, né? Sugiro “Cheiro de relva“, de Dino Franco e Mouraí. Um clássico!


Foto: domínio público/pixabay

 

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

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