Ministro do Meio Ambiente diz que pode rever Unidades de Conservação e liberar ferrovias nessas áreas protegidas

Ministro do Meio Ambiente diz que pode rever Unidades de Conservação e liberar ferrovias nessas áreas protegidas

Está difícil ter um olhar otimista para o futuro (ou seria já o presente?) do meio ambiente no Brasil. É uma péssima notícia após a outra.

A mais recente veio de uma entrevista exclusiva, dada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (condenado por improbidade administrativa pela justiça de SP), ao jornal O Globo.

Nela, entre outras (infelizes) declarações, Salles disse que “pensa em rever a classificação de Unidades de Conservação (UC) para permitir alguns tipos de atividade econômica, como a passagem de linhas de trem e a instalação de linhas de transmissão onde hoje é proibido”.

Segundo ele, não haveria problema nenhum em ter uma ferrovia em meio a uma área de preservação ambiental, desde que houvesse uma reparação econômica. “Não precisamos ver a atividade econômica como inimiga, mas sim, como uma sócia”, justifica.

E o ministro do Meio Ambiente (ele não deveria ter a função de proteger a natureza?!), foi além. Defendeu o fim dos “boicotes às atividades econômicas” nas UCs e por isso mesmo, pode revisar a classificação das mesmas, para que elas deixem de ser “santuários intocáveis” e convivam com a infraestrutura.

Já sobre o Acordo do Clima de Paris, compromisso que, ao lado de outros 190 países membros da ONU, o Brasil também assinou, em 2016,  se comprometendo a reduzir suas emissões de carbono, Salles revelou que não tem intenção de cumprir suas metas.

Ele justifica a afirmação dizendo que o Brasil deveria ser considerado um “credor” diante do resto do mundo, já que o país teria feito o suficiente. “Para que colocar metas futuras? O quanto vão nos pagar por isso?”… Posição bastante individualista e egocêntrica. É como se vivêssemos sozinhos no planeta e cada um pudesse agir separadamente. A Terra é uma só e se os países não se unirem, as mudanças climáticas terão efeitos devastadores sobre todos. Os desastres climáticos (secas extremas, enchentes, tempestades) não irão poupar os brasileiros porque “o país já fez a sua parte”…

Ainda de acordo com o ministro, há muito ênfase na luta contra a destruição da Floresta Amazônica. Talvez ele não tenho lido as mais recentes notícias de que o desmatamento disparou e aumentou mais de 400% em novembro de 2018 e que a derrubada da floresta é a pior em dez anos: 1,18 bilhão de árvores foram ao chão em um ano.

Mas o que esperar de alguém condenado por participar de alteração ilegal do zoneamento do plano de manejo de uma área de proteção ambiental para beneficiar empresas de mineração, ligadas à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), quando era secretário do Meio Ambiente de São Paulo?

Apoiado pela bancada ruralistas de Brasília, Salles sempre vociferou contra ONGs e, em sua campanha para deputado federal, apoiou o porte de armas, que aliás, em breve, deve ser uma das primeiras promessas do novo governo a ser cumprida.

Salve-se quem puder… E logo, logo, se depender do atual ministro, poderemos ver uma linha de trem cruzando a maior floresta tropical do planeta…

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O que o brasileiro pensa sobre o meio ambiente?

Foto: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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