Ministra da Agricultura critica ativismo ambiental de Gisele Bündchen

Ministra da Agricultura critica ativismo ambiental de Gisele Bündchen

*Atualizado em 17/01/2019

“Desculpe, Gisele Bündchen, você devia ser a nossa embaixadora e dizer que o seu país preserva, que o seu país está na vanguarda do mundo da preservação, e não vir aqui no Brasil meter o pau sem conhecimento de causa”, disse Tereza Cristina, ministra da Agricultura, em entrevista à rádio Jovem Pan.

Ainda segundo ela, “É um absurdo hoje o que fazem com a imagem do Brasil. Infelizmente são maus brasileiros, que por algum motivo vão lá fora levar uma imagem do Brasil e do setor produtivo que não são verdadeiras”.

A modelo e ativista ambiental, sempre falou da importância de se preservar a natureza e da necessidade do consumo consciente. Em julho de 2017, Gisele se manifestou de forma contundente quando o governo Temer anunciou a redução da floresta de Jamanxim, no Pará, e, mais tarde, quando ele decretou a anulação da Reserva Nacional do Cobre (Renca), no Pará e Amapá, para mineração.

A brasileira tem sido uma das vozes mais fortes – entre pessoas famosas pelo mundo – que se levanta contra o desrespeito à Floresta Amazônica, tornando-se não só uma importante fonte da realidade entre seus mais de 4,5 milhões de seguidores nas redes sociais, mas também, aliada de ONGs socioambientais.

Em 2016, Gisele foi uma das convidadas a participar da segunda temporada da série documentário sobre mudanças climáticas Years of Living Dangerously, da National Geographic. A modelo chorou ao sobrevoar áreas desmatadas na Floresta Amazônica. Dentro de um pequeno avião, na região de Alta Floresta, ela viu imensas áreas desmatadas e queimadas, onde agora pasta livremente o gado, criado ali para a produção de carne: a pecuária é responsável por 65% do desmatamento do bioma.

“As pessoas precisam saber disto. Afeta a todos nós”, alertou a modelo na época. “Nós não podemos deixar eles fazerem isso”, completou emocionada, chorando, com tanta tristeza.

Em setembro do ano passado, a ativista escreveu em sua página no Facebook: “Hoje é o Dia da Amazônia. Dia de celebrar a floresta com a maior biodiversidade do planeta, com riquezas culturais e naturais imensuráveis. É também dia para fazer um alerta. O desmatamento da floresta já a atingiu um ponto crítico, e se isso continuar as mudanças serão devastadoras. Não temos mais tempo! Precisamos exigir dos nossos governantes e empresas que se comprometam a frear o desmatamento e preservar esta riqueza inestimável do Brasil”.

Ao contrário do que disse Tereza Cristina, Gisele Bündchen tem, sim, conhecimento sobre o que fala. Diferentemente da ministra. Pelo menos é o que parece.

No mesmo dia em que ela assumia o cargo e afirmava que o Brasil era “… o país que mais soube preservar suas florestas nativas e matas ciliares … e é modelo a ser seguido, jamais transgressor a ser recriminado”, o Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgou levantamento em que revelava que o desmatamento na floresta deu um salto alarmante, com um aumento de mais de 400% em novembro de 2018. Ele foi 406% maior do que o mesmo mês de 2017.

Como já escrevemos recentemente, o discurso de Tereza Cristina fala de uma realidade distante. O Brasil foi, no passado, exemplo de conservação e conseguiu reduzir os índices de desmatamento da Amazônia, mas já faz algum tempo, a destruição da floresta voltou a crescer.

O desmatamento na região é o pior em dez anos: 1,18 bilhão de árvores foram derrubadas em um ano. De acordo com números divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)*, responsável pelo monitoramento oficial da Amazônia, de agosto de 2017 a julho de 2018, foram destruídos quase 8 mil km² de vegetação. Essa área é equivalente a 987.500 mil campos de futebol ou 5,2 cidades de São Paulo.

Ministra da Agricultura, é preciso revisar seu discurso. Infelizmente, nosso país deixou de ser modelo de preservação… E com os planos anunciados de uma “política focada nos interesses comerciais do Brasil”, difícil acreditar que o país voltará a servir de exemplo nessa área.

Será mesmo que Gisele Bündchen aceitaria seu pedido, feito no Twitter, para se transformar em uma embaixadora do Brasil?

Ontem (16/01), a modelo Gisele Bündchen se pronunciou, através de sua conta no Twitter, sobre a declaração da ministra. Segue abaixo sua resposta:

“Causou-me surpresa ver meu nome mencionado de forma negativa por defender e me manifestar em favor do meio ambiente, pois desde 2006 venho apoiando projetos e me envolvendo com causas socioambientais, o que sempre fiz com muita responsabilidade.

Estou sempre buscando conhecimento através de leituras e contatos com cientistas, pesquisadores, agricultores, organizações corporativas e ambientais, de modo que, nesta minha caminhada, pude aprender muito e continuo aprendendo todos os dias. 

Acredito que a produção agropecuária e conservação ambiental precisam andar juntas, lado a lado. Nosso desenvolvimento, prosperidade e bem-estar dependem desse equilíbrio e a agricultura, tão importante para o nosso país, também depende das condições climáticas adequadas para o seu crescimento.

O Brasil tem tudo para liderar o movimento em prol de um desenvolvimento mais sustentável, capaz de suprir as necessidades da geração atual sem comprometer as futuras gerações. Torço para poder divulgar ações positivas neste sentido.

Precisamos lembrar que os recursos naturais são finitos e as florestas têm papel fundamental no equilíbrio do clima na terra e, consequentemente, nas nossas vidas. Preservar a natureza significa, portanto, significa preservar a vida”. 

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Foto: reprodução Facebook/Lalo de Almeida

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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