Milhares de animais são resgatados do tráfico por operação liderada pela Interpol em 109 países

Milhares de animais são resgatados do tráfico por operação liderada pela Interpol em 109 países

Os números são chocantes. Revelam uma pequena fração do tamanho do mercado internacional do tráfico de plantas e animais selvagens no mundo.

Como resultado da operação conjunta realizada pela Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) e a World Customs Organization (WCO) foram resgatados vivos 1,4 mil répteis, 9,7 mil tartarugas e jabutis, 9,8 mil espécies marinhas e 4,3 mil aves.  

Além dos animais, foram apreendidos 545 kg de chifres de elefante, 1,3 tonelada de escamas de tatu, 1,7 mil plantas e 604 toneladas de madeira.

Milhares de animais são resgatados do tráfico por operação liderada pela Interpol em 109 países

Realizada em 109 países, a operação identificou rotas de tráfico e pontos críticos do crime com antecedência, permitindo que equipes das polícias ambiental e aduaneira recuperassem animais e plantas que estavam sendo tirados ilegalmente de seus países.

Durante a ação foram presos quase 600 suspeitos. No Uruguai, três traficantes foram flagrados com mais de 400 espécies animais. Na Itália, a operação conseguiu apreender 1.850 aves.

Milhares de animais são resgatados do tráfico por operação liderada pela Interpol em 109 países

Chifres de elefante confiscados no Quênia

“O crime contra a vida selvagem não apenas retira recursos do nosso meio ambiente, mas também tem um impacto através da violência associada a ele, da lavagem de dinheiro e da fraude”, alertou Jürgen Stock, secretário geral da Interpol. “Operações como essa são ações concretas voltadas para as redes de crime transnacionais que lucram com essas atividades ilícitas”.

Milhares de animais são resgatados do tráfico por operação liderada pela Interpol em 109 países

A operação resgatou 23 primatas, entre eles,
o pequeno macaquinho em Bangladesh

O gigante e cruel mercado do tráfico de aves silvestres

O mundo da comercialização ilegal de aves é um universo muito cruel. A taxa de mortalidade é de 90%. Pouco mais de 1% delas sobrevive ao transporte. Os pássaros são acondicionados das maneiras mais desumanas possíveis. Muitos são colocados dentro de canos de PVC, escondidos entre cargas. Não é surpresa então, que a maioria deles chegue morta ao destino final.

Estima-se que o o mercado desse setor movimente cerca de US$ 42,8 bilhões globalmente.

Ave apreendida no Chile: foram mais de 4 mil recuperadas
na operação internacional desta semana

No Brasil, ainda hoje, após 50 anos de o país ter se tornado o primeiro da América do Sul* a proibir a venda comercial de animais silvestres, entre 30 e 35 mil aves são confiscadas por ano. “Antigamente a legislação permitia que o animal capturado na natureza fosse comercializado, mas desde 1967, não mais”, explica Felipe Feliciani, biólogo e analista de conservação do WWF-Brasil. .

E por que o tráfico ainda persiste? “Dado o tamanho e a complexidade das fronteiras do Brasil, é difícil ter uma fiscalização 100% eficiente”, diz o biólogo.

Segundo Feliciani, quase que a totalidade das aves traficadas no país são para atender a demanda interna.

Onde há demanda, há tráfico

No Brasil existem três tipos de criadores de aves: amadores, comerciais e científicos. Todos precisam ser cadastrados junto ao Ibama, mas só os comerciais podem vender pássaros. Já os científicos são os únicos autorizados a ter e tentar a reprodução em cativeiro de espécies ameaçadas de extinção, como a ararinha-azul.

Ainda de acordo com o biólogo do WWF-Brasil, o que acontece é que alguns criadores comerciais “esquentam” os animais do tráfico, ou seja, revendem o que foi capturado ilegalmente na natureza.

Entre os anos de 2000 e 2013, a África do Sul foi o maior exportador mundial de papagaios sul-americanos. Os principais consumidores de aves silvestres são Estados Unidos, além de Portugal, Espanha, Holanda e Bélgica. Entretanto, os países europeus servem mais como porta da entrada ilegal desses animais para aquele continente.

“Os Emirados Árabes também são uma das rotas”, destaca Feliciani, ao comentar que o traficante que me ofereceu a ararinha-azul mencionou o aeroporto de partida como sendo em Dubai.  

Recentemente, a Turkish Airlines foi denunciada por colaborar com o tráfico internacional. Uma investigação da Proteção Animal Mundial revelou que a companhia aérea da Turquia e sua transportadora (Turkish Cargo) permitem o transporte de animais silvestres. Os traficantes usam a empresa para levar papagaios-do-congo africanos em voos que saem da República Democrática do Congo, Nigéria e Mali com destino a países do Oriente Médio e Ásia.

Há pouco tempo, mais de 60 deles chegaram mortos ao Kuwait. “A capilaridade da companhia é muito ampla. Ela voa para 120 países, incluindo o Brasil. Por isso, o resultado da investigação é tão alarmante”, destaca Roberto Vieto, gerente de vida silvestre da Proteção Animal Mundial.

Se já existem leis que proíbem a comercialização das aves silvestres, como dar um basta no tráfico? O biólogo do WWF-Brasil afirma que a legislação é um instrumento, mas é preciso de um maior trabalho de conscientização e educação ambiental para que a população entenda melhor sobre o pertencimento desses seres no meio ambiente.

“Todo comércio vive de uma demanda. No mundo ideal, as pessoas aceitariam que o lugar do animal silvestre é na natureza”, sonha Feliciani. “No meu mundo perfeito, elas deveriam se conscientizar que o tráfico é cruel e que uma ave que tem a habilidade de voar não foi feita para ficar em uma gaiolinha, cantando só para você”.

*Em janeiro, a organização TRAFFIC lançou, com apoio do WWF-International, o estudo “Bird’s-eye view: Lessons from 50 years of bird trade regulation & conservation in Amazon countries” (em tradução livre  Vista Aérea: Lições dos 50 anos de regulamentação e conservação do comércio de aves nos países da Amazônia).O estudo completo você pode acessar neste link.

*Com informações do site da Interpol

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Fotos: divulgação Interpol

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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