Mil cientistas franceses assinam manifesto contra o governo e convocam cidadãos para uma rebelião pelo clima

Em 20 de fevereiro, mil cientistas franceses de áreas diversas publicaram manifesto no jornal Le Monde, no qual tratam das mudanças climáticas e de suas consequências – que já estão sendo sentidas em todos os continentes – e da incapacidade de governos sucessivos para lidar com a crise climática e ambiental, ao ignorar o que a Ciência disse e não adotar as medidas necessárias para impedir seu avanço.

“Agora, a urgência aumenta a cada dia e tal inércia não pode ser mais tolerada”. E reproduzem o “mantra” de movimentos como o Extinction Rebellion (XR) e o Fridays for Future, de Greta Thunberg: “a rebelião é necessária!”, com os quais simpatizam.

E continuaram: “As observações científicas são indiscutíveis e desastres estão acontecendo diante de nossos olhos. Estamos no meio da sexta extinção em massa, dezenas de espécies estão desaparecendo todos os dias e os níveis de poluição são alarmantes de todos os pontos de vista: plásticos, pesticidas, nitratos, metais pesados ​​etc”.

Consumismo desenfreado e ‘coletes amarelos’

Os acadêmicos não se conformam que a sociedade ainda coontinua ignorando o impacto de suas atividades no planeta, “como muitos estudos mostraram claramente todos os dias, refletindo o consenso científico. Se continuarmos nesse caminho, o futuro de nossa espécie é sombrio”.

Atacaram o governo de Emmanuel Macron e o chamaram de cúmplice “por negligenciar o princípio da precaução e por não reconhecer que o crescimento infinito em um planeta com recursos finitos é simplesmente um beco sem saída”.

Também destacaram que as atuais políticas francesas de proteção ao clima e à biodiversidade estão muito aquém dos desafios e da urgência que enfrentamos. E destacaram o movimento radical dos coletes amarelos que chamou políticos de hipócritas e inconsistentes: “Longe de confirmar uma suposta oposição entre ecologia e justiça social, o movimento de coletes amarelos denunciou, com razão, a inconsistência e a hipocrisia dos políticos que, por um lado, queriam impor sobriedade aos cidadãos enquanto promoviam outro consumismo desenfreado e um liberalismo econômico desigual e predatório“.

Também citaram tecnologias que consideram irresponsáveis num momento como este em que deveríamos reduzir o consumo: “Continuar promovendo tecnologias supérfluas e que consomem energia, como 5G ou o carro autônomo, é irresponsável no momento em que nosso estilo de vida deve evoluir para mais frugalidade e quando nossos esforços coletivos devem se concentrar na transição ecológica e social“.

Ainda lembraram que o Conselho Superior do Clima alertou que o orçamento para emissões de gases de efeito estufa estabelecido pela Estratégia Nacional Francesa de Baixo Carbono não foi respeitado entre 2015 e 2018. E a pegada de carbono per capita da França (incluindo emissões importadas) permanece acima do nível de 1995, com 11 toneladas de CO2 equivalente per capita e por ano”. E avisou: “consideremos que essa pegada precisa cair para 2 toneladas até 2050”.

O manifesto indica que a próxima década será decisiva “para limitar a extensão da desregulamentação futura” e que os signatários não querem que os jovens de hoje e das gerações futuras sofram as “conseqüências da catástrofe sem precedentes que estamos preparando e cujos efeitos já estão sendo sentidos. Quando um governo renuncia conscientemente a sua responsabilidade de proteger seus cidadãos, falha em seu papel essencial”.

E, assim, os cientistas convocam os cidadãos franceses para que participem das “ações de desobediência civil” realizadas por movimentos ambientais, ecológicos e pelo clima, principalmente os dois citados no inicio deste testo: XR e Fridays for Future, este último iniciado por Greta.

Os primeiros mil signatários do manifesto publicaram a lista completa com seus nomes num link que chamam de Rebeliões Científicas. Ela será atualizada à medida que outros cientistas aderirem.

Foto: Valadim Balakin, que participou de concurso da revista National Geographic sobre os impactos das mudanças climáticas no planeta. Ele foi um dos vencedores com esta foto chocante da carcaça de um urso polar na Noruega

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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