Mergulho em cavernas

No início deste mês, houve uma comoção mundial sobre o caso dos garotos tailandeses presos numa caverna. Felizmente, tudo acabou bem, graças aos esforços das equipes de resgate e dos mergulhadores experientes que fizeram a diferença.

Isto me fez lembrar dos tempos em que pesquisava e mapeava cavernas no PETAR – Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Não foram poucas as vezes em que fomos chamados, no meio da madrugada, para resgatar turistas perdidos nas cavernas. E não foram poucas as vezes em que encontramos estes mesmos turistas vestindo roupas comuns, chinelos, com uma vela e uma caixa de fósforos molhados. Lá estavam eles exaustos, fatigados e com medo.

Caverna não é um lugar para brincadeira, pois consiste de uma restrição determinante para o sentido mais apurado do ser humano: a falta de luz, e portanto, de visão.

Da mesma forma, sempre foi unânime a premissa de não entrar numa caverna em que houvesse um rio subterrâneo, com condutos apertados, em época de chuva. E se assim fosse necessário, que fizéssemos com o máximo de segurança, alertas a qualquer variação do nível do rio. Pois, uma caverna por onde passa um rio funciona como um “tubo”: se as águas correm numa determinada velocidade e volume num vale externo, imagine o que acontece a ele quando submetido a uma condição confinada, num espaço muito menor: o nível sobe rapidamente, ou seja, temos a chamada ‘tromba d’agua”. Se isto já perigoso ao ar livre, imagine numa caverna!

Foi isto que tentei explicar para o site G1, no início do mês, quando dei uma entrevista sobre os tipos de cavernas existentes, a situação da caverna na Tailândia e o que, provavelmente, seria feito para a retirada segura dos meninos.

Isto me fez lembrar também dos meus trabalhos com mergulho. Comecei a mergulhar em cavernas no início dos anos 90, de forma empírica, quando esta especialização ainda era incipiente no Brasil. Não haviam cursos preparatórios e as teorias eram repassadas entre amigos mergulhadores, que faziam os cursos na Flórida.

Mergulhei, sempre com propósitos científicos, em cavernas famosas como a Gruta do Lago Azul, em Bonito, e no Poço Encantado, na Chapada Diamantina… Participei do mapeamento do Abismo Anhumas, estava presente na descoberta dos fósseis de preguiça gigante da Gruta do Milú (hoje conhecida como Gruta do Lago Azul, também na Chapada).

Mas, certamente, uma das cavernas mais impressionantes é a Gruta do Mimoso, em Bonito (na foto). Não apenas por sua beleza cênica, mas porque ali está reunida uma série de características relacionadas à várias fases geológicas da região. Desde sua formação como caverna, até a formação dos espeleotemas, alguns bem raros, e sua posterior inundação relacionada ao rebaixamento do Pantanal. Ou seja, uma relação temporal difícil para entendermos em nossa tão rápida passagem por este planeta. Afinal, nossa vida não passa um século de existência, e cem anos não é suficiente para se formar nem um pequeno cristal dentro de uma caverna. Enfim, a se pensar o que estamos fazendo com a Terra.

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

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