Menos brinquedos e mais descobertas

brinquedo não é brincadeira

Poucas coisas são mais desagradáveis para mim do que entrar numa loja convencional de brinquedos. Tudo é tão colorido, plastificado, artificial que não consigo distinguir uma coisa da outra. E, se a proposta for prestar atenção nas opções, então, em pouco tempo estarei exausta e mal humorada, pensando em como pode ser péssimo ganhar uma boneca com jeitão de top model anoréxica, ou um avião de guerra carregado de bombas letais ou, ainda, um jogo de tabuleiro em que para vencer é preciso trucidar o adversário.

Para mim, sempre foi difícil dar presentes a crianças. Prefiro as experiências, os passeios no parque, a bicicleta ao vento, a areia da praia, a roupa manchada de amoras. Crianças não precisam colecionar brinquedos. Elas precisam brincar, exercitar o corpo, aguçar a curiosidade, descobrir o prazer do riso compartilhado, soltar o cabo de guerra e dar as mãos em rodas que permitem a troca de olhares, a empatia, o respeito.

Infância é algo que simplesmente acontece, não precisamos interferir tanto, seguir manuais de pedagogia, ficar presos a regras e fórmulas que prometem transformar crianças em adultos de sucesso. Socorro. Tudo, menos essa bobagem sem fim de trocar brincadeiras por aulas de informática, alfabetização precoce, idiomas, enfim, essa mania de achar que a vida adulta pode ser melhor quando a infância é tomada por uma agenda de compromissos, lições e afazeres que só têm trégua, com sorte, durante as refeições, feitas às pressas para não perder o próximo horário marcado. Eca!

Ajudamos mais quando simplesmente não atrapalhamos, não apresentamos um mundo cheio de respostas prontas, sem espaço para a criatividade ou o questionamento. Cachorro pode ser azul, sim. Por que não? Sapo pode voar ou fazer bolinhos de chuva para seus filhotes. Se prestarmos atenção numa criança, veremos que um pedaço de madeira ou um novelo de lã podem ser mais interessantes do que a babá televisiva e o videogame, porque são um universo a ser descoberto e não um mundo a ser apresentado.

Vivemos outros tempos! E é preciso permitir a infância, deixar que ela aconteça, livremente. Agora que sou mãe da Gaia, mais do que nunca, sinto que preciso estar sempre atenta para não interferir na curiosidade dela, deixar que ela se divirta com suas meias coloridas, mais do que com bonecas que estão sempre sorrindo, não importa o que aconteça. (Ainda é cedo, eu sei, ela tem apenas sete meses e meio. Mas conheço gente que, já nessa fase, está pensando em como oferecer brincadeiras que sejam, ao mesmo tempo, aulas de matemática, geografia ou linguagem.)

Brincar não é ter brinquedos. É dar vazão à curiosidade, é ter vontade de experimentar o mundo, tateá-lo, cheirá-lo, saboreá-lo, inventá-lo, à sua maneira. Brinquedo é tudo aquilo que entra na brincadeira, que permite a fantasia, que faz a criança se divertir, sorrir, sonhar.

Não precisamos (não deveríamos) comprar brinquedos de plástico, que viajaram oceanos depois de serem fabricados por mãos anônimas, mal pagas e infelizes. Chega de soldados, monstros deformados, bonecas com corpos esculturais, maquiagem, tintura de cabelo, armas potentes, carrinhos turbinados. Não precisamos (não podemos mais) patrocinar maus exemplos para as futuras gerações.

Nesse sentido, não é novidade (mas é sempre bom lembrar) que a natureza é um maravilhoso lugar de brincar. Criança ao ar livre é mais saudável, mais viva, mais plena para criar seu próprio destino. Subir em árvore, ver estrelas, observar passarinhos, dar nomes a nuvens, imitar bichos, brincar na terra, plantar, tomar banho de chuva, regar o jardim. Isso é tudo de que elas precisam nessa fase da vida. O resto virá depois, no tempo certo, do jeito que elas puderem imaginar. Sonhar um mundo melhor é o primeiro passo para construí-lo num futuro bem próximo. Só precisamos permitir que isso seja possível, sem repetir modelos que já não cabem no planeta.

Foto: Wooden horse via PhotopinCreative Commons

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

3 comentários em “Menos brinquedos e mais descobertas

  • 29 de setembro de 2015 em 4:44 PM
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    Concordo plenamente, minhas filhas me cobravam muito comprar brinquedos, elas falavam, mas todas as crianças tem muitos.. eu sempre argumentando que com o dinheiro de comprar um brinquedo, poderíamos fazer um passeio num parque diferente e jamais esqueceríamos aquele dia.. e não é que está dando certo? hoje elas cobram ir para a parques e o melhor de tudo é que gastamos bem pouco, as vezes nada, somos adeptas do bom e velho pic nic.

    òtimo texto!

    Um abraço.

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  • 11 de Janeiro de 2018 em 2:39 PM
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    Subir em árvore, ver estrelas, observar passarinhos, dar nomes a nuvens, imitar bichos, brincar na terra, plantar, tomar banho de chuva, regar o jardim. Isso é tudo de que elas precisam nessa fase da vida. O resto virá

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  • 11 de Janeiro de 2018 em 10:37 PM
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    Belo texto.
    Parabéns.

    Curiosidade é o motor da criatividade. Tal como o nome indica diz respeito a criação, construção e desconstrução.
    Para isso basta dar azo á imaginação e á fantasia. Não é necessario bonecos, nem carrinhos jaconstruidos.

    Todos nós lembramos dos jogos tradicionais e populares que fazíamos na nossa juventude e que criavamos a partir do nada.

    O que acontece actualmente é que tudo se encontra previamente construído á nossa disposição e como somos seres consumistas, nesta sociedade global, ao invés de adoptámos um comportamento activo, criador, criativo e construtivo, adoptámos um comportamento reprodutor, passivo e não criativo.

    Saltar, pular, brincar, na rua em casa, construir objectos com material natural, reciclagem, dramatização, dançar, tantas são as formas de construção de jogos lúdicos, cooperativos, didácticos, reflexivos, inclusivos, etc.

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