Memórias do sabor

“Eu diria que a cozinha é o útero da casa: lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente” – Rubem Alves

Esta pauta chegou por meio do comentário de uma leitora do Conexão Planeta. Juliana Venturelli (foto abaixo), doutoranda em Memória Social pela UNIRIO, acessou algumas publicações do blog e constatou que o tema do seu projeto afinava com a proposta de O Brasil para o Brasil. Mostrou-me alguns esboços das histórias de mulheres e homens que fazem da cozinha um espaço sagrado, onde os alimentos aguçam muito mais do que o paladar, pois revelam a bagagem de toda uma vida. Na beira do fogão a lenha, corpo e alma trabalham juntos na criação de pratos típicos que povoam o inconsciente coletivo de milhares de brasileiros. Deu certo! Cá estamos.

Nas Minas Gerais, verdadeiras comunidades afetivas se amontoam entre o calor das panelas de ferro e as travessas espalhadas por mesas fartas de um tudo – das quitandas aos doces de compota, dos inseparáveis queijo e café aos pedaços de rapadura, das balas de coco ao mais variado cardápio regional do país.

Juliana cresceu na zona rural de Cruzília, cidade localizada no sul do Estado mineiro. Na infância, ela costuma dizer que comia o afeto, as cores vivas e naturais, o cheiro verde e refrescante dos alimentos vivos. “Desfrutei de toda a felicidade que qualquer criança quer para si. Livre das ameaças que cercam os nossos dias, pulei quintais, colhi pitangas, subi em árvores, andei descalça, nadei nas enxurradas para, depois de um banho quente, comer bolinho de chuva com canela e açúcar. Os cheiros de chuva e canela compõem um mosaico em minhas lembranças. Assim como o sentido tátil de ir buscar cenouras frescas no quintal de minha avó. O mistério de ver brotar da terra a cor alaranjada da cenoura, saltando lépida por minhas pequenas mãos”, afirma.

Huuuuum – só de pensar, dá água na boca. Os cadernos de receitas dos povos tradicionais trazem consigo a força do amor, sentimento que nasce da experiência cotidiana de pessoas que colocam no seu tempero uma pitada do que são. Tal identidade se forma ainda no berço. Avós passam para filhas, que passam para netas e a partir do estreitamento de laços, da prosa em torno do fogo, da troca de ideias entre uma mordida e outra, surgem incontáveis preciosidades da culinária familiar.

Foi no embalo de sua paixão pela comida que Juliana escolheu o objeto de estudo de sua dissertação de mestrado, intitulada Narrativas Culinárias e Cadernos de Receitas do Sul de Minas: da memória oral à memória escrita. O que era para ser apenas uma pesquisa acadêmica ganhou fôlego e se transformou no projeto Lenha no Fogão: entre prosas e receitas. O trabalho foi tão bem-sucedido que resultou em um livro de nome homônimo ainda sem editora.

Juliana colocou a mochila nas costas, se lançou pelos caminhos de suas recordações e percorreu onze municípios de uma região cortada pela Estrada Real – Maria da Fé, São Lourenço, Baependi, Cruzília, Serranos, Aiuruoca, Minduri, São Vicente de Minas, Madre de Deus, Santo Antônio do Porto e Pouso Alto. Na busca pelas personagens – cozinheiras, quituteiras, forneiras e confeiteiras -, ela começou conversando com a mãe, ao lado de quem visualizou o primeiro esboço do roteiro. Um trajeto que contemplaria o local de origem materna (Serranos) e seu entorno. “Ela foi se lembrando das antigas cozinheiras que fizeram parte da sua infância e consequentemente da minha”, conta.

Devido ao tamanho da família – grande – como de costume nas Gerais, o raio abrangeria uma quantidade considerável de cidadelas cuja herança de cultura e paladar possui a influência dos antepassados. A mistura de índios, africanos e portugueses gerou um patrimônio de valor inestimável. “Foram escolhidas as áreas rurais e localidades com menos de 70 mil habitantes. Nelas, verificou-se a existência de marcas culturais dessas três influências na composição dos pratos típicos”, relata Juliana.

A proposta era analisar as receitas culinárias presentes nas narrativas orais e nos cadernos e verificar como estas foram e são transmitidas desde o início do século XIX até o presente momento. “A riqueza e a diversidade da comida mineira estão justamente na manutenção da tradição antiga, tanto em ingredientes (originários do seu território) quanto nas técnicas de cozimento (fogão e forno à lenha). Além de refletir a identidade do seu povo, a comida revela o modo de expressão da memória coletiva dentro do universo de emoções que se formam e reinventam em volta dos fogões e das mesas”.

Segundo a pesquisadora, estamos em um contexto onde pouco paramos para fazer as nossas refeições, cada vez mais engessados ao modelo fast food. Com o intuito de levar as pessoas para dentro das histórias pessoais que habitam as cozinhas do interior, ela idealizou, em setembro do ano passado, um roteiro gastronômico que, nesta Páscoa de 2017, parte para a sua terceira edição. O próximo, acontecerá no feriado de Corpus Christi, entre 15 e 18 de junho. Acesse a programação aqui. Para maiores informações, entrar em contato pelo email: [email protected]

Juliana conta que uma das práticas que encanta os participantes é a da Hilma (numa das fotos acima, é dela a mão sobre o caderno de receitas), confeiteira de Cruzília, que faz aquela bala de coco deliciosa que derrete na boca. “O processo todo é quase um mistério e ali, a experiência da confeiteira é o fator mais importante para que a bala fique perfeita. Essa sabedoria empírica das cozinheiras é que sempre me chamou a atenção. Hilma denomina os estados da massa, antes de virar bala, com certa poesia: ponto de fio, ponto de espelho e ponto tinindo, que é o ponto de bala. Em um universo repleto de técnicas dominadas pela alta gastronomia, vivenciar uma técnica tão apurada como a da Hilma é uma experiência confortável a qual nos aproxima do estado mais puro do saber fazer, aquele estado que exige naturalmente a presença dos cinco sentidos da cozinheira e nada de caneta e papel”.

Parei para pensar na forma mais autêntica de apresentar um pouco do mundo interno destas mulheres e de suas manifestações de afeto por meio do preparo de tantas maravilhas da culinária tradicional. Dei-me conta de que a pessoa mais indicada para a tarefa seria a própria Juliana, que as conhece intimamente. Então, selecionei os trechos a seguir, que integram o seu livro. Bom apetite!

Maria de Lurdes da Silva,(Lurdinha) 79 anos, de Serranos (ela aparece na foto que abre este post) – Estar com Lurdinha, além de aprender sobre a qualidade dos ingredientes e das receitas, e de ouvir muitos “causos”, é poder compartilhar de uma aura de alegria e otimismo independente de quaisquer circunstâncias. Dona de uma sabedoria genuína que traz força para os enfrentamentos da vida, ela vai seguindo, certa de que Deus está sempre ao seu lado e que, graças a Ele, tem fortes intuições que lhe indicam os caminhos a seguir. Diz-se guiada por Deus desde a hora em que levanta. Ela nos presenteou com a receita de frango com leite que já foi matéria da revista Sabores de Minas.

Maria Emília Ferreira Meirelles (Miloca) 66 anos, da Fazenda São José da Vargem, estrada de Baependi/Aiuruoca  (é a senhora que aparece na foto, perto de uma janela, na sala de estar de sua casa)  Na família, Miloca é a guardiã das tradições culinárias e também responsável pelas inovações. Graças à criatividade, ganhou o Concurso da Knorr, no Programa da Ana Maria Braga, em 2008. A receita campeã “Nhoque da Vovó” foi uma homenagem à neta que é uma das degustadoras mais ilustres de suas receitas. Depois do concurso, Miloca criou um CD, com 27 receitas, disponível para venda. Quando lhe pergunto de onde vem tanta criatividade e sucesso, responde: “Eu tenho uma receita da qual falo pra todo mundo: Nossa Senhora tempera, Jesus multiplica, a Nhá Chica, a mãe dela e o São Benedito me ajudam a fazer! Porque sempre eu faço as coisas mais sozinha. Então eu tenho que pedir ajuda a eles para me ajudar a lavar, a temperar e a dar conta. Meu tempero é transmitir energia boa”.

Agora, assista ao documentário produzido por Juliana em parceria com a fotógrafa Aline Motta:

Fotos: Aline Motta e Juliana Venturelli

Carolina Pinheiro

Jornalista e documentarista, colabora com importantes publicações nacionais e internacionais. Viaja o Brasil atrás das histórias do povo, de cantos que não constam no mapa, de lugares distantes das principais rodovias. Traz a reportagem na veia. Em 2014, fundou a Nascente Casa Editorial, onde trabalha com a produção de conteúdo sobre cultura popular, meio ambiente e turismo sustentável no país.

2 comentários em “Memórias do sabor

  • 17 de abril de 2017 em 9:03 PM
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    Ler estes textos me leva a grandes viagens, aqui do meu sofá desbravo regiões incríveis do Brasil. Obrigada. Adorei este texto!

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    • 19 de abril de 2017 em 11:11 AM
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      Que delícia ler isso! Bom saber que descobre o Brasil por meio das histórias publicadas aqui. Beijão

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