“Melhor ser cidadão ecológico do que artista ativista”

A ideia deste post é um pouco diferente: foi construída em formato de pergunta e resposta. Há tempos queria entrevistar um professor de arte para falar das questões atuais relacionadas à arte contemporânea. Encontrei Dante Velloni que, além de entrevistado, agora, virou meu professor num curso de História da Arte (em outro que estou fazendo na área).

Só que Dante Velloni não é apenas professor. É um artista respeitado, com várias exposições no currículo.  Não dá para conversar com ele, sem mostrar a obra, sem falar das inspirações… Já que estamos num site sobre sustentabilidade, meio ambiente e educação, vou começar abordando essas questões. Não que Dante seja um artista ativista. Aliás, ele tem uma opinião polêmica sobre o tema. “Melhor atuar como cidadão ecológico, do que ser um artista ativista”, diz ele.

Embora faça questão de dizer que não é um “artista ecológico”, Dante é um cidadão e assim como a vida, uma hora ou outra, transparece na obra sua preocupação ambiental…

Qual foi a inspiração para “Céu de Dante maculado com fagulhas”?
Fiz essa obra em 2002 e tinha este sentido “ecológico”, pois misturei fagulhas de cana queimada que caiam do céu sobre minha casa. Essas fagulhas eram um transtorno para o meio ambiente e para nossos pulmões. Realmente, essa obra é mais “engajada”, pois acrescentei fagulhas na tinta acrílica com a qual eu pintava, por isso, a palavra “maculado” no nome da obra. Eu tenho uma série dos céus que fazem alusão à obra Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu já havia feito O Inferno, na década de 80 (Alguns homens, como as moscas, fazem cortejo em torno de estrume, 1981, Anjo Gabriel anunciando sobre manto azul, 1982, Arrependimento de Maria, 1985).

Depois fiz os céus na década de 90, aos quais chamei todos de “Céus de Dante“. Ao fazer esses céus quis representar a não existência de Deus.  Para isso, achei que era preciso mostrar a existência. Deus sempre é representado por um céu iluminado. Então, pensei: vou pintar o mesmo céu. E dizer que esse céu é meu e que nesse céu não tem Deus.

E porque é mais importante ser um cidadão ecológico do que um artista ecológico?
Me lembro que nos anos 70 fui monitor da Bienal de São Paulo. Ela foi dividia em temas. E tinha arte ecológica. Naquela época já se falava em artista trabalhando com a vida biológica. Alguns artistas gostam de trabalhar o processo. Uma planta que vai crescer…  A penicilina sendo criada. Fazem um trabalho que já foi feito. Nesse ponto, a ciência é mais honesta. Não gosto muito de arte engajada. O artista submete os fins aos seus princípios. Ok. O artista acredita naquilo. Mas para mim não é muito diferente do artista que trabalha para vender.

As árvores precisam ser preservadas? Eu vou lá e planto. Plantei umas 350 árvores aqui no meu condomínio. Não fiz arte. Aliás, não suporto esse pessoal que acha que folha é lixo e fica passando toda hora com aquela máquina barulhenta para varrer o que é natureza. Proibi de passarem com essa máquina na frente da minha casa. (nessa hora ele vai até a janela e, um tanto irritado, pergunta ao funcionário que varre a vizinhança quando é que vai parar com a barulheira). Por que tem que limpar? O homem se desintegrou do meio ambiente.

Arte engajada pode colaborar em campanhas para tentar mudar ou amenizar uma situação…
Sim, mas não gosto quando a arte ilustra. Põe o artista numa algema. Tenho dificuldade. Gosto de metáfora, menos literal. Achava que a arte transformava o mundo. Mas a transformação é sua atuação como cidadão político. Ao deixar de jogar papel na rua, ao plantar árvores, ao evitar queimada, poluição…

Você quase foi candidato…
Foi há 14 anos, quando cheguei  à conclusão de que arte não transformava. E queria participar da sociedade. Então me candidatei, mas não fui eleito, o que foi uma maravilha para minha vida de artista. Eu queria ter uma atuação. Só arte não é suficiente. Diz a máxima que arte existe porque a vida não é suficiente. Eu digo o contrário: A vida existe porque a arte não é suficiente.

Mas e a importância da arte na formação do indivíduo?
Com a revolução industrial, a tendência do comportamento humano foi ficar mecanizado. O acesso às tradições populares, às atividades lúdicas diminuiu. Nos especializamos e deixamos um pouco de lado as questões sensíveis que dizem respeito à poética. Resumindo: o home virou máquina, perdeu a humanidade. O homem que exercita sua sensibilidade é mais humano. A relação com o seu par, com a sociedade tende a ser mais afetiva, mais harmoniosa. O homem sensível passa a olhar o meio ambiente na tentativa de integração. A natureza sou eu. Não é a natureza e eu. Nós somos natureza.

Sobre a sensibilidade e sobre trabalhar com o sensível, você costuma dizer que, nessa área,  nem tudo é ou precisa ser arte, principalmente quando se fala em formação.
Sim. Começa a se chamar de arte o que não necessariamente é arte. Tudo virou arte. Trabalhou com o sensível é arte. Dá mais status. Chamar de arte cria o compromisso na criança de produzir algo perene, que seja aceitável pela família, pelo professor e colegas. O compromisso é negativo. Acaba que o professor faz para o aluno. E a formação do pedagogo é falha, é muito frágil.

Você disse que arte não transforma. Não pode colaborar, então, o que fazer para tornar os seres mais conscientes e tolerantes em dias de tanto radicalismo?
Difícil que haja mudança. O que tem acontecido nas redes sociais depois da exposição Queermuseum não é mais do que uma demonstração do ranço radical de um pensamento ainda medieval, perpetuado pela religião. E isso tem reflexo no Congresso, na bancada evangélica. As religiões é que fomentam a formação desses valores, desse pensamento falso moralista, faço questão de dizer. Muitas vezes o sujeito que apedreja (e uso um termo bíblico) na vida pessoal  não segue o seu próprio discurso. O que essas pessoas dizem quando conto que um padre me tocou e eu saí correndo? Sabem que tem pedofilia na igreja, não sabem?  Essas mesmas mães que foram na frente do MAM protestar porque uma criança tocou o corpo nu de um artista na presença da mãe, não foram na frente da igreja protestar. O que resvala na arte é que os espaços, os museus ficam preocupados em mostrar determinadas obras que podem comprometer. Recentemente ia participar de uma exposição, e uma obra foi cortada: Pena pelo Pecado Original.

A arte contemporânea não tem promovido um mundo mais tolerante. É que arte contemporânea não trabalha necessariamente com o belo, com o tradicional mármore, com a figuração. O trabalho experimental com o corpo, por exemplo, não é aceito e não cria essa aproximação. O esporte conseguiu isso. Esses dias a Coreia do Sul e Coreia do Norte se cumprimentaram. Vão formar um time juntos. A arte não costuma fazer isso. Salvo performance. Mas performance não tem que ser arte sempre. E arte também não é verdade. É simulação sempre. Não tem que ter concretude. Não pode deixar de ser simbólica, metafórica…

Caso contrário, perde a função?
A função poética leva ao simbolismo… Tem que ter aquela densidade que não se consegue traduzir, que faz acordar no dia seguinte pensando naquilo. Tem-se usado o atributo arte para coisas já tão digeridas.  Atividades lúdicas estão chamando de arte… Chamam tudo de arte. Isso também por causa das perfomances da década de 60 do Allan Kaprow. Mas aqueles eram outros anos. Hoje isso não cabe mais. Às vezes, reproduz-se essa tentativa de libertação para combater esse moralismo.  Mas moralismo vai existir sempre, enquanto existir religião…

 

Fotos: arquivo do artista.

Veja o catálogo da última exposição de Dante em junho/2017 em Bruxelas.

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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